Quarta-feira, Março 23, 2005

Senado inclui teatro nas pauta de debates

Os senadores membros da Comissão de Educação (CE) acompanharão o panorama nacional das artes cênicas no País. A Subcomissão Permanente de Cinema, Teatro e Comunicação Social ficará responsável pelos debates e deliberações sobre o teatro nacional.

A proposta dos senadores Hélio Costa (PMDB-MG) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ) foi aprovada pelo CE no dia 22 e retirou da subcomissão o encargo sobre os temas relacionados à informática, que passaram para a Subcomissão Permanente de Ciência e Tecnologia.

A inclusão das artes cênicas em uma subcomissão permanente da CE foi decidida após a realização de uma audiência pública em dezembro do ano passado com profissionais da área. Na audiência, os senadores receberam solicitação para a criação de um foro permanente de debate sobre o teatro.

Para um dos autores do requerimento, senador Sérgio Cabral, a aprovação da presença do tema teatro em uma subcomissão é merecida. “O teatro brasileiro merece, pela sua tradição, ser prestigiado pelo Senado”, afirma.

A Comissão de Educação do Senado tem quatro subcomissões permanentes: do Cinema, Teatro e Comunicação Social; de Ciência e Tecnologia; do Esporte; do Livro.Fonte: Portal acessepiaui
É interessante que os congressitas mantenham contato com a classe teatral, mesmo porque todos, sem exceção, atuam diuturnamente, é claro, com atuações constrangedoras. Canastrice mesmo, com direito a voz embargada, choro, discursos inflamados. Todos são atores, mesmo que de péssimas reputações..

CONCURSO NACIONAL DE MONÓLOGO DE TERESINA PIAUÍ

Um monólogo é uma experiência fantástica para qualquer artista de teatro, desde o iluminador ao diretor. É preciso, por exemplo, que o dramaturgo trabalhe uma idéia simples de modo que evite o recorrente nosmonólogos, a relação direta entre personagem e público. Em sua concepção, o espectador tem o papel do observador 'invisível' do impasse da personagem.

Em verdade, um monólogo não tem qualquer ligação com o naturalismo, realismo ou qualquer coisa que o valha, mas eis o que muitos poetas de botequim esquecem. E tal esquecimento é suficiente para transformar 70% do que se apresenta como monólogo naquilo que o gato esconde debaixo da terra. E haja espetáculo cujo a personagem encontra-se numa situação prestes a morrer, a lembrar grandes feitos pessoais, etc.

O fato é o seguinte: gastar esforços com festival de monólogos é bobagem. Os tais 70% já mencionados estão amalgamados com muita vaidade e pretensão, de modo que via de regra "o gênio", responsável pela peça é ator, diretor, dramaturgo, contra-regra. Não há qualquer discussão prévia em torno da obra, há sim, um festival de desmandos cênicos, travestidos de maturidade artística.

Mesmo sabendo disso tudo, ainda há quem defenda um festival de monólogos. É como diz o ditado, quem gosta do feio, vive levando sustos.

Em tempo: por que será que nós de teatro somos obrigados a ouvir, nos intervalos desses festivais, confidências de amigos que dizem ter "um texto" bem bacana e que talvez ele transforme em monólogo?

ESTÉTICA DA FOME

(A esterelidade: aquelas obras encostadas fartamente em nossas artes, onde o autor se castra em exercícios formais que, todavia, não atigem a plena possessão de suas formas. O sonho frustrado da universalização: artistas que não despertaram do ideal estético adolescente. Assim, vemos centenas de quadros nas galerias, empoeirados e esquecidos;livros de contos e poemas; peças teatrais, filmes(que, sobretudo em São Paulo, provocam inclusive falências)...O mundo oficial encarregado das artes gerou exposições carnavalescas em vários festivais e bienais, conferências fabricadas, fórmulas fáceis de sucesso, vários coquetéis em várias partes do mundo, além de alguns monstros oficiais da cultura, acadêmicos de Letras e Artes, júris de pintura e marchas culturais pelo país afora. Monstrosidades universitárias: as famosas revistas literárias, os concursos, os títulos.)
Trecho de um ensaio, Estética da Fome, do grande Glauber Rocha que tanto influência a Associação de Teatro Circo Negro.
É preciso fulminar os nulos. É preciso destruir a estrutura cambaleante, ilusória e nefasta das academias de bairros. É preciso destruir o intelectualismo estéril, as famosas revistas literárias, os famosos concursos, os discursos, os títulos.
Danem-se os acadêmicos de vanguarda, ou danemo-nos!

Terça-feira, Março 22, 2005

Circo Azul encena a peça "A Exceção e a Regra"

O Grupo Circo Azul, da Associação de Teatro Circo Negro, está em cartaz com a peça
A EXCEÇÃO E A REGRA,
de Bertold Brecht.

ROBERTO MALLET


Direção e Não-Ação *
Roberto Mallet

Uma obra teatral é composta fundamentalmente de três estratos: 1. a fábula, entendida como a tessitura das ações e demais elementos do universo ficcional; 2. as ações concretas dos artistas que realizam a obra; 3. a organização de tudo isso em um todo. Esses estratos estão essencialmente relacionados aos papéis do autor, dos atores (e os outros artistas envolvidos na criação material da obra, como um cenógrafo, um figurinista, um músico...) e do diretor.

Numa montagem esses papéis podem ser cumpridos por quaisquer dos artistas envolvidos, e também por mais de um deles, mas as três funções permanecem sempre distintas: temos sempre uma ação ficcional, uma ação poética concreta (que veicula a ficcional) e a definição do lugar e do momento dessa ação poética na obra (direção).

A direção organiza a escritura cênica e por conseguinte determina em que direção a obra deve ser lida. É ela quem orquestra as inúmeras ações dos artistas na composição poética.

Para que essa orquestração seja possível, é necessário que haja uma concepção que lhe sirva de estrela guia. Essa concepção não é necessariamente uma criação da direção, mas deverá ser assumida por ela. Seu papel é justamente permitir que a idéia da obra germine e desenvolva-se em cada um dos artistas envolvidos, escolher caminhos poéticos que propiciem esse florescimento sem tolher nem atropelar os processos criativos desses artistas, ao contrário, propiciando sua instauração.

O grande risco para o diretor é atropelar os processos, é querer realizar suas idéias sobre a montagem cedo demais, de maneira exterior e despótica, sem atenção e escuta para todos os elementos que compõem a obra – desde os artistas que com ele colaboram até o tema ou texto abordado.

A ação do diretor tem certa analogia com o conceito chinês de wu-wei, “não-ação”, ou “ação pela presença”. Uma ação poética que visa estabelecer as condições em que outras ações poéticas sejam possíveis e possam dialogar entre si. Isto é feito positivamente (sugerindo caminhos e procedimentos) e negativamente (retirando obstáculos, colocando os artistas em situações críticas).

Caso não seja assim, o resultado é um espetáculo que pode até ser magistralmente orquestrado mas sem vida própria, assemelhando-se mais a um ensaio teórico, ou a um manifesto, do que a uma peça artística.
Em uma conferência proferida em 1920, Jacques Copeau sintetizou tudo isto ao afirmar que o diretor, diante de uma obra dramática (em nossos termos, diante do estrato ficcional, seja ele um texto, um tema, um roteiro...), não deve se perguntar: “O que farei dessa obra?”, porém: “O que ela vai fazer comigo?...”

* In Folha do Festival, publicação do Festival Universitário de Teatro de Blumenau, ano 1, n° 1, julho de 2004, pág. 4.

ROBERTO MALLET - ALGUMAS GRANDES PALAVRAS SOBRE TEATRO

Segunda-feira, Março 21, 2005

OS AMORES DE TERESA

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Caaã.
Trata-se do filme OS AMORES DE TERESA que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.
No plano ficcional o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através desses amores vai entrando no mundo adulto.
Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Buquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.
O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme CIPRIANO, por interpretações memoráveis como nos espetáculos como BOCA DE OURO, MÉDICO À FORÇA, HISTÓRIA DE MUITOS AMORES( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como BALADA DE UM PALHAÇO ( de Plínio Marcos ), O TEMPO CONSEQUENTE ( baseado na obra de H.Dobal ).

ASSOCIAÇÃO DE TEATRO CIRCO NEGRO

1. HISTÓRICO
A Associação de Teatro Circo Negro surgiu em 1992. Na época, os atores Chiquinho Pereira, Fernando Freitas e Laurent Matallia montaram "As Criadas", de Jean Genet, sob direção de Matallia. Nos anos seguintes foram levados à cena "O Mata Sete" e "História de muitos amores", ainda sob a direção do paulista Laurent Matallia, mesmo diretor de "Boca de Ouro" (1994), de Nelson Rodrigues, de que participaram Chiquinho Pereira, Adriano Abreu, Siljane Alves, Cláudia Santos, Luciano Melo, o próprio Matallia, Eva Vieira, Socorro Bezerra e Antônio Carlos. Esta peça ganhou seis indicações e um prêmio (melhor ator) no Festival de Teatro de São Mateus.
Em 1996, Chiquinho Pereira assume a coordenação da Associação. Neste mesmo ano, Áureo Tupinambá Júnior foi convidado para dirigir o espetáculo "Poemas 96", o qual reunia textos de poetas piauienses. Em 1997, estreou "Mãe, mulher, professora e funcionária pública", uma comédia de Adriano Abreu, com participação de Cláudia Santos, Carlos Aguiar e Chiquinho Pereira, indicado pelo Sindicato de Artistas e Técnicos do Piauí, para premiação, nas categorias melhores espetáculo, direção, texto e ator. Em 1998, a Associação montou, sob direção de Chiquinho Pereira, os espetáculos "Poesias 98" e "El Matador" (adaptado do poema homônimo de H. Dobal, especialmente para o lançamento do primeiro número da Revista Pulsar), além de pequenas esquetes de rua, com temas sociais.
Em 1999, foi feito um convênio com o SESC-PI, para a realização do projeto "Performances Literárias", que contemplou obras constantes no edital do vestibular da UFPI: "Jangada de pedra", de José Saramago, "Tempo conseqüente", de H. Dobal, "Poesia lírica", de Luís Vaz de Camões, "Vidas secas", de Graciliano Ramos e "Grande sertão: veredas", de Guimarães Rosa, espetáculos dirigidos por Adriano Abreu, Chiquinho Pereira e Cláudia Santos. Houve, também, a participação no lançamento do segundo número da Revista Pulsar, com o monólogo "Pulsar", que reunia fragmentos de textos do periódico.
No início de 2000, incorporaram-se à Associação de Teatro Circo Negro os grupos Circo Azul, Circo da Estrela Amarela e Companhia Pedra de Teatro. O primeiro promove um trabalho de arte-educação com crianças entre sete e quatorze anos. O Circo da Estrela Amarela lida com atores jovens, intentando a sua formação técnica e a montagem de espetáculos, o que o fez, neste mesmo ano, com "Outras faces da fábula", ganhador dos prêmios de melhor espetáculo dos júri oficial e popular do Festival de Teatro de Bairros de Teresina, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, tendo, em 2001, montado o monólogo "Lázaro feito em pedaços", de Dario Fo. A Companhia Pedra de Teatro fez, por sua vez, a montagem do monólogo "Canções de Cecília Meireles", com Luciano Melo. Já o Circo Negro, grupo que dá nome à Associação, sob direção de Chiquinho Pereira, trabalha, igualmente, a formação técnica de atores e montou os espetáculos de rua "A Bela Adormecida" e "O Mágico de Oz". No ano de 2001, criou-se o Grupo Circo Harmonia, que associa artes plásticas e teatro, com um trabalho educativo voltado para adolescentes.
2. PERFIL
A Associação de Teatro Circo Negro tem duas linhas fundamentais: a pesquisa e a montagem de espetáculos. Como toda arte, o teatro pressupõe um estudo criterioso dos seus fundamentos, que servem para dar solidez e consistência às montagens realizadas e respondem a duas perguntas – qual a sua natureza e qual o seu propósito –, compreendendo que ela, a arte, não é um simples conjunto de elementos estéticos, mas, rigorosamente, um instrumento de reflexão sobre a condição humana. É deste modo que é entendida e orientada a produção teatral do Circo Negro.
A pesquisa referida envolve, por sua vez, três aspectos: a história, a teoria e a filosofia. No campo da história, são paradigma a do teatro e a do Piauí. É que, compreender o desenvolvimento do teatro, com suas peculiaridades, objetivos e fatos, favorece uma visão mais abrangente a seu respeito, define-se melhor esta pelo estudo de estilos, dramaturgos, estéticas, montagens, atores/diretores e condicionamentos político-sociais. Por outro lado, como o artista não se dissocia do espaço social do qual faz parte, a necessidade do conhecimento da sua história; e, no caso particular, a do Piauí, é essencial.
No tocante à teoria, os estudos centram-se na obra de Constantin Stanislavski e Bertolt Brecht e, no que concerne à filosofia, a busca é a de uma ética calcada em um humanismo cristão, sendo todo o trabalho conduzido de forma a que os componentes tenham um aprendizado gradual e contínuo. Assim, o Circo Azul é a primeira etapa de aprendizado, pois se responsabiliza pela educação teatral de crianças que, depois, são encaminhadas para o Circo da Estrela Amarela, no qual são iniciadas nas técnicas de representação. O Circo Negro responsabiliza-se pelo aprofundamento e finalização da formação dos atores e, por fim, a Companhia Pedra de Teatro monta espetáculos, em que os atores têm a oportunidade de continuar sua formação dramatúrgica.