Sábado, Abril 30, 2005

Festival de monólogos de Teresina

Festival de bobagens e pretensão
Um monólogo é uma experiência fantástica para qualquer artista de teatro, desde o iluminador ao diretor. É preciso, por exemplo, que o dramaturgo trabalhe uma idéia simples de modo que evite o recorrente nosmonólogos, a relação direta entre personagem e público. Em sua concepção, o espectador tem o papel do observador 'invisível' do impasse da personagem.
Em verdade, um monólogo não tem qualquer ligação com o naturalismo, realismo ou qualquer coisa que o valha, mas eis o que muitos poetas de botequim esquecem. E tal esquecimento é suficiente para transformar 70% do que se apresenta como monólogo naquilo que o gato esconde debaixo da terra. E haja espetáculo cuja personagem encontra-se numa situação prestes a morrer, a lembrar grandes feitos pessoais, etc.
O fato é o seguinte: gastar esforços com festival de monólogos é bobagem. Os tais 70% já mencionados estão amalgamados com muita vaidade e pretensão, de modo que via de regra "o gênio", responsável pela peça é ator, diretor, dramaturgo, contra-regra. Não há qualquer discussão prévia em torno da obra, há sim, um festival de desmandos cênicos, travestidos de maturidade artística.Mesmo sabendo disso tudo, ainda há quem defenda um festival de monólogos. É como diz o ditado, quem gosta do feio, vive levando sustos.
Em tempo: por que será que nós de teatro somos obrigados a ouvir, nos intervalos desses festivais, confidências de amigos que dizem ter "um texto" bem bacana e que talvez ele transforme em monólogo?

Os amores de Teresa

Os amores de Teresa

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.
Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.

No plano ficcional o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através desses amores vai entrando no mundo adulto.

Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Buquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.

O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).

A Geração Pós-69

A Geração Pós-69
Uma geração cultural estabelece relações dialéticas com as produções dos integrantes das que a antecederam e com as dos componentes da que a sucederá, mesmo que as proposições estéticas sejam antagônicas, o que se dá quando a sucedânea é insurgente, e não caudatária. O período de vigência de uma geração cultural, diferentemente do que ocorre com a biológica, não tem a sua extensão previamente estabelecida. Sua maior ou menor duração decorrerá da capacidade de realização dos seus integrantes e das relações estratégicas que estabeleça com as estruturas políticas e econômicas da época, fatos definidores de parâmetros para sua afirmação, consolidação e ocaso.

No Piauí, a produção dos participantes da Geração Pós-69, que congrega as manifestações culturais de literatura, artes plásticas e gráficas, artes cênicas, música e arquitetura, tornou-se pública já nos primeiros anos da década de 70, quando ocorreram as veiculações de textos impressos, ou não, em mimeógrafos (jornais, revistas, livros, etc) e nos suplementos encartados nos periódicos (principalmente O Dia, O Estado e Jornal da Manhã, os dois últimos já extintos). Frise-se que o contexto político e social da época do seu surgimento passou a ser questionado através da publicação e distribuição de livros, comercializados fora do circuito editorial formal, da organização de grupos de teatro amador e suas montagens inovadoras, das realizações cinematográficas locais a partir dos grupos originados do Cine Clube Piauiense, das exposições, individuais e coletivas, de artes plásticas, em espaços não convencionais, da feitura e veiculação dos trabalhos dos nossos primeiros cartunistas, chargistas e quadrinistas, e das realizações de pioneiros festivais de música e dos shows, também individuais e coletivos, que reuniam compositores, instrumentistas, cantores e cantoras interessados por novas referências culturais.

Nos últimos anos da década de 70 e durante a de 80, deu-se a fase de afirmação da Geração Pós-69, em decorrência da expressividade estética das obras de seus integrantes. Incomodadas, as forças contrárias às nossas proposições estéticas (fundadas estas, as nossas, em, entre outras, proposição de referências culturais vigorosas, de vanguarda ou não, na coloquialidade da linguagem, na ampliação dos suportes ou mídias, no aprofundamento da ruptura com o academicismo e na vinculação profunda entre arte e cotidiano), usaram a imprensa para difundir, equivocada e maldosamente, que os conteúdos das produções eram limitados por princípios políticos redutores de sua expressividade. Este confronto, aparentemente estético, era, na verdade, uma contraposição de essência ideológica que a crítica exercida à época, e até mesmo a desinformada e reacionária de hoje, tenta(va) dissimular.
Mas, decorridos trinta anos, a Geração Pós-69 vive, atualmente, a fase de consolidação. Com efeito, as suas melhores produções têm valores estéticos reconhecidos pela boa crítica e são selecionadas para os eventos mais representativos do final do século XX e princípios do XXI. Entretanto, a compreensão destes fatos exige uma análise criteriosa das relações dialéticas que os integrantes da Geração Pós-69 têm procurado estabelecer com as produções dos componentes das gerações antecedentes e, de forma especial, com as de alguns nomes da Geração 45, notadamente os da vertente não-conservadora do Grupo Meridiano.
São, na verdade, estes, fatos irrefutáveis, que ganharam relevância, no Piauí, nos dois últimos anos da década de 90, com a publicação da Revista Pulsar, que aglutina um considerável número de participantes autênticos da Geração Pós-69. É que os responsáveis pela viabilização da Revista estão interessados, mais especificamente, na identificação dos valores estéticos, políticos e ideológicos do período compreendido entre 1945 e 1969, porque estes anos têm seus termos inicial e final definidos por realizações científicas que modificaram profundamente a história da espécie humana (como as experiências com bombas atômicas e a chegada do homem à lua) e tiveram desdobramentos radicais nas décadas seguintes, contribuindo para a conjugação dos fatores determinantes (progressos na ciência, com a ultrapassagem dos limites da Terra, mudanças no comportamento, com movimentos libertários, que nem o hippie e o feminismo, e retrocessos na política, com a supressão das democracias, ainda que apenas formais, estas, em várias partes do mundo, em específico na América Latina e, claro, no Brasil dos generais, etc) do surgimento de uma nova geração, a Pós-69, no caso, representativa, sim, de um avanço estético inegável e difícil, hoje, de ser solapado por retrocessos meramente formalistas e aristocráticos, do tipo "grande arte", ou assépticos e omissos, do tipo "arte pela arte", definitivamente ultrapassados.

Paulo Machado

A liberdade da arte - para a revolução


A liberdade da arte - para a revolução



``Em matéria de criação artística, importa essencialmente que a imaginação escape a toda sujeição, não se deixe impor filiação sob nenhum pretexto. Àqueles que nos pressionam, hoje ou amanhã, para que consintamos que a arte seja submetida a uma disciplina que sustentamos radicalmente incompatível com seus meios, pomos uma recusa inapelável, e nossa deliberada vontade de nos manter no lema: todas as licenças em arte.``

André Breton e Leon Trotsky

A arte tornou-se um produto caro nas mãos da burguesia. Não que nunca tivesse estado sob seu controle desde que esta classe vem construindo sua sociedade e sua cultura. Mas a crise que vive o sistema capitalista coloca a necessidade de melhor se controlar as produções artísticas. Por um lado, para ter uma diferente fonte de lucro fora do trabalho produtivo, pois cada vez mais, por uma série de motivos, sua margem de lucro está em queda. Por outro lado, para evitar as manifestações independentes que possam vir a abalar o status quo da sociedade de classes, tendo o controle total sobre a produção artística ou cooptando as manifestações independentes (hoje, quase fenômenos) que surgem, a partir da dependência material que impõe ao artista. Dessa forma, a neobarbárie capitalista faz com que a arte deixe de ser artística, dando a ela apenas valor de mercado, e marginalizando os grandes artistas que não abrem mão da sua independência de criação.

Refletindo nisso, Trotsky e Breton escreveram, no ano de 1938, o manifesto “Por uma arte revolucionária independente”. Naquele ano, o mundo estava às portas de mais uma guerra entre potências imperialistas, que nas armas queriam conquistar a hegemonia do mundo. No entanto, via-se no Eixo (Alemanha, Itália e Japão) uma nova face do capitalismo, que não usava de demagogia para esconder seu caráter ditatorial, mas sim deixava às claras todo o totalitarismo e a crueldade desse sistema de exclusão e fome. A crise econômica abalava as potências capitalistas de ambos os lados envolvidos na guerra, que não conseguiam ver outro caminho a não ser a destruição dos países inimigos.

Em meio a tudo isso, também se encontrava a recém criado estado operário russo, ainda cheio de contradições econômicas e sociais internas. Para piorar, na luta contra o marxismo revolucionário a burocracia estalinista e seu ``socialismo num só país`` saíram vitoriosos, fato este que veio a trazer conseqüências funestas, como os Processos de Moscou, entre 1936 e 1938, e todo o processo de restauração do capitalismo na Rússia. Para a arte, o estalinismo ``elaborou`` o realismo socialista, fazendo da arte um mero objeto nas mãos dos burocratas que dirigiam o partido e a nação e dos artistas meros paisagistas da construção duma sociedade que era caricatura daquela que Lênin e Trotsky se propunham construir quando dirigiram os processos revolucionários de 1917.

Este é o momento em que Trotsky, embora atarefado pela preparação da conferência de fundação da IV Internacional (1938), depois de cerca de uma década, volta a se dedicar ao debate sobre os rumos da arte e sua relação com a revolução socialista. As idéias outrora defendidas na obra Literatura e Revolução (1924) eram não apenas resgatadas como eram reformuladas, seja pelo amadurecimento teórico e político do grande revolucionário russo, seja pelas discussões com o poeta surrealista francês André Breton, que muito admirava Trotsky. Fruto dos encontros entre Trotsky e Breton, primeiros e únicos, é o manifesto de fundação da Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente (FIARI), chamado ``Por uma arte revolucionária independente``.

Neste breve texto, Trotsky e Breton denunciam o movimento que faziam as potências imperialistas rumo à guerra mundial, colocando que o capitalismo seja em sua face democráticos, seja em sua face ditatorial, são lados diferentes da mesma moeda. Além disso, denunciam o que o capital vem fazendo em relação à arte e comparam às atrocidades que também fez o estalinismo na Rússia. Avançam mais, defendendo como revolucionária toda a arte que seja independente e chamando todos os artistas revolucionários e independentes a se somarem à construção da FIARI.

Hoje, mais de que nunca, está colocado para nós o debate sobre a arte. O capitalismo não apenas mantém-se em sua crise, como a aprofunda, principalmente agora com a derrota da política neoliberal. E quem irá sofrer serão aqueles que não possuem os meios de produção, aqueles que trabalham para conseguir sua subsistência, aqueles que são marginalizados e oprimidos por serem ``diferentes``. E os artistas acabam por ter apenas dois caminhos: vender-se à burguesia, produzindo arte para ser consumida e em pouco tempo esquecida, ou lutar contra o capitalismo, mantendo sua independência de criação e somando-se aos trabalhadores de todos os países na construção da revolução socialista mundial.

Quarta-feira, Abril 27, 2005

Cahuaham estréia "Torquato Torto"

TORQUATO TORTO



O Cahuaham, um grupo de teatro da UESPI, estréia novo espetáculo, inspirado na estética tropicalista, no campus Poeta Torquato Neto, dia 05 (quinta) de maio.
"TORQUATO TORTO" terá conteúdo bastante variado, com canções de Torquato Neto, que passa por "Três da Madrugada", "Geléia Geral", por exemplo. Além disso, o espetáculo trará ainda referências da prosa “Panamérica” (José Agripino de Paula), artes plásticas (Hélio Oiticica), e até "PopArt", de Andy Wharol.
A direção do espetáculo é assinada pelo diretor Luciano Melo. Uma das inovações, por exemplo, é propor "instalações de cenas" junto aos espectadores dando nova dimensão ao conceito do tropicalismo, sob o prima do teatro.

Sábado, Abril 23, 2005

CIRCO NEGRO: O MEL DO MELHOR

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - tem longa trajetória de trabalho e sucesso.
Atualmente, os 4 (quatro) grupos que compõem a ATCN contam com repertório rico e variado, que vai desde Martins Pena a Brecht.
A tônica de tais montagens é justamente a realização de um teatro enquanto instrumento de cultura, tendo, portanto, compromisso ético e artístico em todos os seus trabalhos.
Novamente, eis um resumo da nossa história:
A Associação de Teatro Circo Negro surgiu em 1992. Na época, os atores Chiquinho Pereira, Fernando Freitas e Laurent Matallia montaram "As Criadas", de Jean Genet, sob direção de Matallia.
Nos anos seguintes foram levados à cena "O Mata Sete" e "História de muitos amores", ainda sob a direção do paulista Laurent Matallia, mesmo diretor de "Boca de Ouro" (1994), de Nelson Rodrigues, de que participaram Chiquinho Pereira, Adriano Abreu, Siljane Alves, Cláudia Santos, Luciano Melo, o próprio Matallia, Eva Vieira, Socorro Bezerra e Antônio Carlos. Esta peça ganhou seis indicações e um prêmio (melhor ator) no Festival de Teatro de São Mateus.
Em 1996, Chiquinho Pereira assume a coordenação da Associação. Neste mesmo ano, Áureo Tupinambá Júnior foi convidado para dirigir o espetáculo "Poemas 96", o qual reunia textos de poetas piauienses. Em 1997, estreou "Mãe, mulher, professora e funcionária pública", uma comédia de Adriano Abreu, com participação de Cláudia Santos, Carlos Aguiar e Chiquinho Pereira, indicado pelo Sindicato de Artistas e Técnicos do Piauí, para premiação, nas categorias melhores espetáculo, direção, texto e ator.
Em 1998, a Associação montou, sob direção de Chiquinho Pereira, os espetáculos "Poesias 98" e "El Matador" (adaptado do poema homônimo de H. Dobal, especialmente para o lançamento do primeiro número da Revista Pulsar), além de pequenas esquetes de rua, com temas sociais.Em 1999, foi feito um convênio com o SESC-PI, para a realização do projeto "Performances Literárias", que contemplou obras constantes no edital do vestibular da UFPI: "Jangada de pedra", de José Saramago, "Tempo conseqüente", de H. Dobal, "Poesia lírica", de Luís Vaz de Camões, "Vidas secas", de Graciliano Ramos e "Grande sertão: veredas", de Guimarães Rosa, espetáculos dirigidos por Adriano Abreu, Chiquinho Pereira e Cláudia Santos. Houve, também, a participação no lançamento do segundo número da Revista Pulsar, com o monólogo "Pulsar", que reunia fragmentos de textos do periódico.
No início de 2000, incorporaram-se à Associação de Teatro Circo Negro os grupos Circo Azul, Circo da Estrela Amarela e Companhia Pedra de Teatro. O primeiro promove um trabalho de arte-educação com crianças entre sete e quatorze anos. O Circo da Estrela Amarela lida com atores jovens, intentando a sua formação técnica e a montagem de espetáculos, o que o fez, neste mesmo ano, com "Outras faces da fábula", ganhador dos prêmios de melhor espetáculo dos júri oficial e popular do Festival de Teatro de Bairros de Teresina, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, tendo, em 2001, montado o monólogo "Lázaro feito em pedaços", de Dario Fo. A Companhia Pedra de Teatro fez, por sua vez, a montagem do monólogo "Canções de Cecília Meireles", com Luciano Melo. Já o Circo Negro, grupo que dá nome à Associação, sob direção de Chiquinho Pereira, trabalha, igualmente, a formação técnica de atores e montou os espetáculos de rua "A Bela Adormecida" e "O Mágico de Oz". No ano de 2001, criou-se o Grupo Circo Harmonia, que associa artes plásticas e teatro, com um trabalho educativo voltado para adolescentes.
PERFIL.
A Associação de Teatro Circo Negro tem duas linhas fundamentais: a pesquisa e a montagem de espetáculos. Como toda arte, o teatro pressupõe um estudo criterioso dos seus fundamentos, que servem para dar solidez e consistência às montagens realizadas e respondem a duas perguntas – qual a sua natureza e qual o seu propósito –, compreendendo que ela, a arte, não é um simples conjunto de elementos estéticos, mas, rigorosamente, um instrumento de reflexão sobre a condição humana. É deste modo que é entendida e orientada a produção teatral do Circo Negro.
A pesquisa referida envolve, por sua vez, três aspectos: a história, a teoria e a filosofia. No campo da história, são paradigma a do teatro e a do Piauí. É que, compreender o desenvolvimento do teatro, com suas peculiaridades, objetivos e fatos, favorece uma visão mais abrangente a seu respeito, define-se melhor esta pelo estudo de estilos, dramaturgos, estéticas, montagens, atores/diretores e condicionamentos político-sociais. Por outro lado, como o artista não se dissocia do espaço social do qual faz parte, a necessidade do conhecimento da sua história; e, no caso particular, a do Piauí, é essencial.
No tocante à teoria, os estudos centram-se na obra de Constantin Stanislavski e Bertolt Brecht e, no que concerne à filosofia, a busca é a de uma ética calcada em um humanismo cristão, sendo todo o trabalho conduzido de forma a que os componentes tenham um aprendizado gradual e contínuo. Assim, o Circo Azul é a primeira etapa de aprendizado, pois se responsabiliza pela educação teatral de crianças que, depois, são encaminhadas para o Circo da Estrela Amarela, no qual são iniciadas nas técnicas de representação. O Circo Negro responsabiliza-se pelo aprofundamento e finalização da formação dos atores e, por fim, a Companhia Pedra de Teatro monta espetáculos, em que os atores têm a oportunidade de continuar sua formação dramatúrgica.

Sexta-feira, Abril 22, 2005

ESTRÉIA NA UESPI NOVO ESPETÁCULO DO CAHUAHAM

O CAHUAHAM, um grupo de teatro da UESPI, estréia novo espetáculo, inspirado na estética tropicalista, no campus Poeta Torquato Neto, dia 05 (quinta) de maio.
O espetáculo terá conteúdo bastante variado, com canções de Torquato Neto, que passa por "Três da Madrugada", "Geléia Geral", por exemplo. Além disso, o espetáculo trará ainda referências da prosa “Panamérica” (José Agripino de Paula), artes plásticas (Hélio Oiticica), e até "PopArt", de Andy Wharol.
A direção do espetáculo é assinada pelo diretor Luciano Melo, cujo título intencionalmente continua incerto, posto que a estética do espetáculo é justamente iconoclasta, irreverente, desse modo não há que se falar em algo novo, e partir do convencional. Uma das inovações, por exemplo, é propor "instalações de cenas" junto aos espectadores dando nova dimensão ao conceito do tropicalismo, sob o prima do teatro.

Domingo, Abril 17, 2005

PARANGOLÉS E OUTRAS COISAS

Texto sobre o grande Hélio Oiticica que tanto influência a Associação de Teatro Circo Negro.
Frise-se: é preciso fulminar os nulos. É preciso destruir a estrutura cambaleante, ilusória e nefasta das academias de bairros. É preciso destruir o intelectualismo estéril, as famosas revistas literárias, os famosos concursos, os discursos, os títulos.
Danem-se os acadêmicos de vanguarda, ou danemo-nos!
HÉLIO OITICICA: PARANGOLÉS E OUTRAS COISAS
Nascido e falecido no Rio de Janeiro. Estudou com Ivan Serpa após 1954, e entre esse ano e 1956 integrou o Grupo Frente, aderindo posteriormente ao Movimento Neoconcreto e tomando parte nas mostras realizadas entre 1959 e 1961 no Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Integrou também a representação do Brasil na exposição internacional de arte concreta realizada em 1960 em Zurique, na Suíça, e esteve presente nas coletivas de vanguarda Opinião 65 e Opinião 66, Nova Objetividade Brasileira e Vanguarda Brasileira, realizadas entre 1965 e 1967 no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, expondo ainda na Bienal de São Paulo (1957, 1959 e 1965) e na da Bahia (1966).
Até 1959 Oiticica ainda se conservou fiel aos veículos e suportes tradicionais da pintura. Reduziam-se seus quadros de então a efeitos cromáticos e de textura obtidos unicamente com a aplicação de branco, e revelavam um ascetismo que o desenvolvimento posterior de seu trabalho iria desmistificar. Nesses primeiros quadros via-se já muito nítida a tendência do artista a superar o plano bidimensional, pela utilização da cor com evidentes intenções espaciais.
Abandonando o quadro e adotado o relevo, bem cedo incursionaria Hélio por novos domínios, criando seus núcleos e penetráveis, para chegar em seguida à arte ambiental, em que melhor daria vazas a seu temperamento lúdico e hedonista.
Surgem assim, de 1965 em diante, suas manifestações ambientais, com capas, estandartes, tendas (parangolés), uma sala de sinuca (1966), Tropicália (1967, um jardim com pássaros vivos entre plantas, lado a lado com poemas-objetos), Apocalipopótese (1968, reunindo várias manifestações de outros artistas, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro), etc.
Todas essas experiências serão objeto de importante exposição efetuada em 1969 na Whitechapel Gallery, de Londres - no seu dizer, "uma experiência ambiental (sensorial) limite".
Em setembro de 1971, de Nova York onde se fixara, o próprio Hélio Oiticica, em texto difundido na imprensa carioca, assim se expressava:
«Se há gente interessada em minha obra anterior, melhor, mas não vou expô-la ou ficar repetindo ad infinitum as mesmas coisas; não estou aqui para fazer retrospectivas, como um artista acabado; estou no início de algo maior; quem não entender que se dane; procurem-se informar melhor e respeitar idéias e trabalho feito.»
Hélio Oiticica, que em 1970 tomou parte em Nova Iorque na mostra Information, organizada pelo MOMA, recebendo nesse mesmo ano bolsa de estudo da Fundação Guggenheim, viveu nos Estados Unidos até 1978, quando regressou ao Brasil e de novo se fixou no Rio de Janeiro, iniciando então a última fase de sua breve carreira.
Em 1981, um ano apenas após sua morte, seus irmãos Cesar e Cláudio criaram o Projeto Hélio Oiticica, destinado a preservar material e conceitualmente a obra do artista de quem a Galeria São Paulo, em 1986, levou a cabo importante exposição intitulada O q faço é Música, cujo título retoma um texto de sua autoria:
«Descobri que o que faço é MÚSICA e que MÚSICA não é "uma das artes" mas a síntese da conseqüência da descoberta do corpo.»
Nos últimos anos, em nível inclusive internacional, a importância de Hélio Oiticica como artista seminal dos novos desdobramentos da arte ocidental de fins do século e do milênio tem sido posta em destaque através de exposições itinerantes realizadas entre 1992 e 1994 em Paris, Roterdã, Barcelona, Lisboa e Mineápolis, sala especial na Bienal de São Paulo em 1994 e participação nas Bienais de 1996 e 1998 etc.
Por fim, ressalte-se a criação no Rio de Janeiro, em 1996, do Centro de Artes Hélio Oiticica.

Sábado, Abril 09, 2005

PARA ENTENDER O PROJETO CASCA-VERDE

Aqui apresentamos um resumo do que significaria a tônica do programa CASCA-VERDE:
CASCA VERDE
Todo processo de emancipação social passa, necessariamente, pela constituição de um ou vários discursos que procurem compreender quem somos, quais nossas necessidades e dificuldades e como construir alternativas para alcançarmos nossos sonhos e projetos. A multiplicação dos movimentos sociais, nas últimas décadas, tem ressaltado essa tese.

A própria noção de emancipação social modificou-se nos últimos tempos: na década de 50, trabalhadores rurais brasileiros consolidaram uma crítica de sua condição de grupo excluído e deram maior consistência nas suas ações político-sociais; na década de 60, mulheres e negros deram largos passos em sua organização e discussão de seus direitos; na década de 70, homossexuais se perceberam como sujeitos de direito e começaram uma longa trajetória de luta. Os exemplos poderiam se multiplicar, mas, já ficou claro que não existe uma única emancipação social. Diversos grupos e setores da sociedade procuram conscientizar-se e defender seus direitos: índios, ecologistas, lésbicas, mulheres, trabalhadoras rurais, idosos, trabalhadores urbanos, jovens e adolescentes, artistas etc.

Nesse contexto se insere a emancipação cultural enquanto é um processo de inclusão social de nossas necessidades e desejos culturais. Desse universo fazem parte: compreensão da particularidade de sua identidade cultural, a relação de alteridade com as demais expressões culturais, entender os diversos elementos culturais que constituem uma identidade, discutir a tolerância entre as culturas, ser sujeito de um discurso de auto-afirmação cultural, lutar pela auto-estima cultural etc.

Essa é a dimensão desse programa de formação de agentes culturais comunitários: sujeitos capazes de dialogarem com a diversidade humana, de fazerem a crítica da cultura de massa e defenderem alternativas afirmadoras de sua identidade cultural local.
Por Luciano Melo

Terça-feira, Abril 05, 2005

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE CULTURA E TEATRO CIRCO NEGRO

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE CULTURA E TEATRO CIRCO NEGRO

A Associação de Teatro Circo Negro tem se empenhado para conhecer e participar da construção dessa arte viva e dinâmica da cultura piauiense. Procura, primeiramente, demonstrar que as separações e fronteiras entre as artes no Piauí vêm servindo para construir um muro de desrespeito e segregação das artes – aquela qualificada e de bom gosto e, do outro lado, uma arte menor e ignorada pela maioria. No mesmo sentido defende o princípio que as artes são uma expressão livre da passagem humana pelo tempo: conhecer suas mais variadas manifestações é compreender o próprio homem.

Assim, no ano de 2001, inovou as artes piauienses com um projeto ousado – a Galeria Geração Pós-69. Esta foi uma grande galeria de artes ao céu aberto (Praça Pedro II, todo sábado pela manhã), onde eram apresentados espetáculos teatrais, exposições de artes plásticas, números musicais com artistas da terra, mostras de artesanato local, lançamento de periódicos artísticos (a revista de cultura Pulsar e o jornal de teatro Bastidor – uma publicação sua) e, por fim, uma pequena biblioteca infantil.

No sentido de dar continuidade ao seu trabalho de educação e divulgação das produções artísticas piauienses, criou o projeto PIAUÍ COM ARTE em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses na medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Eram previstas quatro oficinas teatrais, três apresentações de peças em praça pública e a realização de um censo artístico (registro dos artistas – atividades, técnicas, tempo de trabalho, demandas etc.).

O seu princípio norteador era: “não queremos ensinar os piauienses a fazer arte. Contrários a esta postura etnocêntrica, procuramos dialogar com os piauienses a partir da atividade artística”. Todo homem tem algo a dizer sobre as diversas atividades e coisas que o rodeiam. Sua pedagogia, tendo em vista essa verdade, procurava construir com os participantes uma nova sistematização dos nossos saberes e experiências artísticas.

Promoveu mensalmente durante o ano de 2003 o Sarau Geração Pós-69 onde homenageou os seus escritores (Paulo Machado, Airton Sampaio, Rogério Newton, Rubervan du Nascimento, Marleide Lins, William Melo Soares, entre outros) e, ao mesmo tempo, promoveu a crítica literária dos mesmos por meio de palestras. Também mensalmente, desenvolveu o projeto Teatro-Imagem – um outdoor vivo onde buscava-se demonstrar toda a força e polissemia da expressão teatral no Balão das Três Raças (avenida Petrônio Portela).

Hoje essas atividades se multiplicam: montagem de peças teatrais, construção de circuitos alternativos de apresentações, projeto “casca-verde”, produção de documentários, assessoria a movimentos sociais, pesquisas sobre artistas piauienses etc.
Assim entendemos nosso teatro: um teatro que não se vê tão somente como teatro, mas como um movimento cultural que agrega possibilidades, discute história, transforma o cotidiano, educa homens, sonha com o presente e que pretende através de ações.

CAHUAHAM É CIRCO NEGRO NA UESPI

Prezados leitores,
a seguir transcrevemos um texto do TEATRO CAHUAHAM que resume seu norte estético.
TEATRO CAHUAHAM – um grupo de teatro da UESPI

A ação persistente e corajosa de homens que amam as artes e o Piauí deu nova cria – o teatro cahuaham. Trata-se um grupo de teatro que conta com a participação de alunos da universidade estadual e da comunidade teresinense. O mesmo almeja trabalhar em três dimensões: primeiramente, desenvolver um trabalho estético (pesquisa de linguagens e montagem de espetáculos); segundo, formação de atores; terceiro e principal, pesquisar a identidade cultural piauiense.

Assim define seu diretor geral, o também professor Luciano Melo: “acredito que a arte pode e deve buscar um meta-sentido e não simplesmente a criação artística e descoberta de novas técnicas: pesquisar e afirmar a identidade cultural de nosso povo. Essa arte deve estar a serviço da construção histórica da sociedade piauiense assim como o teatro grego antigo. Por outro lado, as artes cênicas podem sintetizar as preocupações dos homens e de seu tempo à maneira de Brecht”.

Como bem descrita pelo poeta piauiense Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, a impávida ave “cauhaham” enfrenta cascavéis e as esmaga pela cabeça e o teatro cahuaham pretende enfrentar a ignorância e o desafio estético para construir uma arte que ame honestamente nosso povo e nossa terra. Como um bando de “cahuahams” que, se forças unidas para atacar o inimigo ainda não possuem, bradam e esbravejam até que a coragem e o grupo seja o bastante, o teatro cahuaham é, por essência, uma arte do coletivo piauiense.

Dessa maneira, a condução de seus trabalhos de pesquisa e criação parte do envolvimento de todos os seus membros: pesquisas são feitas, seminários são ministrados, palestrantes convidados, aprendizagem de técnicas de interpretação etc. O artista de teatro é percebido como homem histórico, estético, cultural e político. A prática criteriosa da formação continuada é essencial na construção desse teatro onde o homem coletivo é sua razão e não o pequeno e frágil e fugaz homem narcísico.

Não houve seleção para definir os atores de seu elenco. O próprio trabalho de formação seleciona naturalmente os seus participantes, pois, contrariando a visão ingênua ou tacanha, teatro é arte, logo, trabalho árduo de estudo e criação. Assim, o grupo está sempre aberto para a participação de novos membros, estudantes ou não da UESPI.

E o primeiro trabalho do teatro cahuaham busca reconstruir a memória de um ilustre desconhecido da historiografia oficial piauiense – o poeta, cientista e revolucionário Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco. Nascido em 1789 e falecido na fazenda Barro Vermelho, 1874.

“Liderou a Marcha Popular Pró-independência que resultou na Batalha Campal do Jenipapo, em 13 de março de 1823. Foi preso, processado e condenado à pena de prisão perpétua, para cumprimento em Lisboa-Portugal. Principais obra poéticas publicadas: O Ímpio Confundido (1835...); O Santíssimo Milagre (editado em duas versões, uma erudita e outra popular – 1839); A Criação Universal (1856), que constituem a tríade épica da Literatura Brasileira de Expressão Piauiense” (Revista Pulsar, 2002-2003, p. 19).