Terça-feira, Maio 31, 2005

Torquato Torto


"Torquato Torto"

O Cahuaham, um grupo de teatro da UESPI, continua em cartaz com o espetáculo "Torquato Torto", inspirado na estética tropicalista, no campus Poeta Torquato Neto, toda quinta-feira, às 19:30 h.
"Torquato Torto" tem conteúdo bastante variado, com canções de Torquato Neto, tais como "Três da Madrugada", "Geléia Geral". Além disso, o espetáculo tem ainda referências da prosa “Panamérica” (José Agripino de Paula), artes plásticas (Hélio Oiticica), e até "PopArt", de Andy Wharol.
A direção do espetáculo é assinada pelo diretor Luciano Melo.

Domingo, Maio 29, 2005

Os Amores de Teresa

Os Amores de Teresa


A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.

No plano ficcional, o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que, através desses amores, vai entrando no mundo adulto.

Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Buquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.

O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).

Terça-feira, Maio 24, 2005

Circo Negro: o mel do melhor

Circo Negro: o mel do melhor


Quando não é mais possível aperfeiçoar um processo, é porque chegou a hora de inventar um novo. A Associação de Teatro Circo Negro – ATCN - apresenta mais uma experiência revolucionária: o informativo Casca-Verde.

Trata-se de mais uma empreitada da ATCN, cujo objetivo é divulgar suas ações de maneira rápida e eficaz. A novidade do Casca-Verde está na forma de prover informações. Além da versão impressa, o informativo conta com o modelo eletrônico (http://casca-verde.blogspot.com/). Afinal, o mundo está falando em outra linguagem.

A interligação inédita entre processos de informação reforçará as concepções estéticas da ATCN, quais sejam, a oposição ao proselitismo político nas artes, à canalhice de artistas desprovidos de arte que tomam de assalto as instituições públicas - tolhendo iniciativas não-currioláveis.
Casca-Verde inspira-se na banana do tipo casca-verde, isso mesmo!, aquela cujo desinteresse comercial fazia com que feirantes dessem-na aos porcos. Entretanto, o que era somente lavagem, hoje pode ser encontrada também numa variação maior, mais refinada.

Esse é a objetivo do Casca-Verde: trazer do limbo aquilo que a sociedade ignora, quando não, subestima: a arte, o teatro. Transformar cascalhos em diamantes, segundo o Dr. Machado.
Nesta edição Casca-Verde saúda o surgimento do Cahuaham – um grupo de teatro da Universidade Estadual do Piauí – UESPI -, que é capitaneado pelo ator e diretor Luciano Melo, de notória competência artística, que assina o texto-manifesto do grupo, presente neste número.

Além disso, Casca-Verde apresenta matéria que faz um balanço das atividades da ATCN, enfatizando o fazer teatral enquanto instrumento de cultura. Comenta-se também a realização do primeiro filme da Associação: “Os Amores de Teresa”, com direção de Chiquinho Pereira. Por fim, Casca-Verde atualiza os leitores através de uma coluna onde constam as datas dos espetáculos da ATCN, dentre outras informações.

O Casca-Verde oferece ótimo retorno aos seus leitores: acesso a matérias atemporais sobre cultura (teatro, em especial), o pensamento crítico sobre os temas abordados, contato com textos de autores pesquisados pela ATCN - e o que é melhor: de forma gratuita.

E como Casca-Verde rechaça a mediocridade em sentido amplo, compete a vocês, leitores, avaliarem o desempenho do informativo. Aviso aos navegantes: o que é bom merece respeito: nada é bom por acaso.Casca-Verde é um pouco do muito que é a Associação de Teatro Circo Negro. É o mel do melhor, como diria Waly Salomão.

Segunda-feira, Maio 23, 2005


O JARDIM DAS DELÍCIAS. Bosch, Hieronymus. Este tríptico é uma interpretação da origem, indulgência e castigo do pecado. No final do século 16, era conhecida como Luxúria ou A Pintura do Morango. O artista foi um dos primeiros a usar o método alla prima, em que a tinta é posta diretamente sobre fundo escuro.
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Domingo, Maio 22, 2005

Para entender o Projeto Casca-Verde

CASCA VERDE


Todo processo de emancipação social passa, necessariamente, pela constituição de um ou vários discursos que procurem compreender quem somos, quais nossas necessidades e dificuldades e como construir alternativas para alcançarmos nossos sonhos e projetos. A multiplicação dos movimentos sociais, nas últimas décadas, tem ressaltado essa tese.

A própria noção de emancipação social modificou-se nos últimos tempos: na década de 50, trabalhadores rurais brasileiros consolidaram uma crítica de sua condição de grupo excluído e deram maior consistência nas suas ações político-sociais; na década de 60, mulheres e negros deram largos passos em sua organização e discussão de seus direitos; na década de 70, homossexuais se perceberam como sujeitos de direito e começaram uma longa trajetória de luta.
Os exemplos poderiam se multiplicar, mas, já ficou claro que não existe uma única emancipação social. Diversos grupos e setores da sociedade procuram conscientizar-se e defender seus direitos: índios, ecologistas, lésbicas, mulheres, trabalhadoras rurais, idosos, trabalhadores urbanos, jovens e adolescentes, artistas etc.

Nesse contexto se insere a emancipação cultural enquanto é um processo de inclusão social de nossas necessidades e desejos culturais. Desse universo fazem parte: compreensão da particularidade de sua identidade cultural, a relação de alteridade com as demais expressões culturais, entender os diversos elementos culturais que constituem uma identidade, discutir a tolerância entre as culturas, ser sujeito de um discurso de auto-afirmação cultural, lutar pela auto-estima cultural etc.Essa é a dimensão desse programa de formação de agentes culturais comunitários: sujeitos capazes de dialogarem com a diversidade humana, de fazerem a crítica da cultura de massa e defenderem alternativas afirmadoras de sua identidade cultural local.
Por Luciano Melo

Leituras Substantivas

Leituras Substantivas

Sempre que possível este “blog” fará algumas indicações de leituras, filmes ou qualquer sugestão que ajude na assimilação de certos conceitos de arte.
Chamaremos esta série de sugestões de Leituras Substantivas, então vejamos:

Poética Clássica - Aristóteles
Antígona - Sófocles
Crime e Castigo - Fiodor Dostoievski
Hamlet - Shakespeare
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado

De fato, poucos teriam a iniciativa de expor uma lista mastigada de autores nesses tempos bicudos para artistas que fazem arte e não a caricatura de intelectuais de província. Boa Leitura!

Sábado, Maio 21, 2005

Algumas reflexões sobre cultura e Teatro Circo Negro



Algumas reflexões sobre cultura e Teatro Circo Negro

A Associação de Teatro Circo Negro tem se empenhado para conhecer e participar da construção dessa arte viva e dinâmica da cultura piauiense. Procura, primeiramente, demonstrar que as separações e fronteiras entre as artes no Piauí vêm servindo para construir um muro de desrespeito e segregação das artes – aquela qualificada e de bom gosto e, do outro lado, uma arte menor e ignorada pela maioria. No mesmo sentido defende o princípio que as artes são uma expressão livre da passagem humana pelo tempo: conhecer suas mais variadas manifestações é compreender o próprio homem.

Assim, no ano de 2001, inovou as artes piauienses com um projeto ousado – a Galeria Geração Pós-69. Esta foi uma grande galeria de artes ao céu aberto (Praça Pedro II, todo sábado pela manhã), onde eram apresentados espetáculos teatrais, exposições de artes plásticas, números musicais com artistas da terra, mostras de artesanato local, lançamento de periódicos artísticos (a revista de cultura Pulsar e o jornal de teatro Bastidor – uma publicação sua) e, por fim, uma pequena biblioteca infantil.

No sentido de dar continuidade ao seu trabalho de educação e divulgação das produções artísticas piauienses, criou o projeto PIAUÍ COM ARTE em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses na medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Eram previstas quatro oficinas teatrais, três apresentações de peças em praça pública e a realização de um censo artístico (registro dos artistas – atividades, técnicas, tempo de trabalho, demandas etc.).

O seu princípio norteador era: “não queremos ensinar os piauienses a fazer arte. Contrários a esta postura etnocêntrica, procuramos dialogar com os piauienses a partir da atividade artística”. Todo homem tem algo a dizer sobre as diversas atividades e coisas que o rodeiam. Sua pedagogia, tendo em vista essa verdade, procurava construir com os participantes uma nova sistematização dos nossos saberes e experiências artísticas.

Promoveu mensalmente durante o ano de 2003 o Sarau Geração Pós-69 onde homenageou os seus escritores (Paulo Machado, Airton Sampaio, Rogério Newton, Rubervan du Nascimento, Marleide Lins, William Melo Soares, entre outros) e, ao mesmo tempo, promoveu a crítica literária dos mesmos por meio de palestras. Também mensalmente, desenvolveu o projeto Teatro-Imagem – um outdoor vivo onde buscava-se demonstrar toda a força e polissemia da expressão teatral no Balão das Três Raças (avenida Petrônio Portela).

Hoje essas atividades se multiplicam: montagem de peças teatrais, construção de circuitos alternativos de apresentações, projeto “casca-verde”, produção de documentários, assessoria a movimentos sociais, pesquisas sobre artistas piauienses etc.

Assim entendemos nosso teatro: um teatro que não se vê tão somente como teatro, mas como um movimento cultural que agrega possibilidades, discute história, transforma o cotidiano, educa homens, sonha com o presente e que pretende através de ações.

Estética da fome



(A esterelidade: aquelas obras encostadas fartamente em nossas artes, onde o autor se castra em exercícios formais que, todavia, não atigem a plena possessão de suas formas. O sonho frustrado da universalização: artistas que não despertaram do ideal estético adolescente. Assim, vemos centenas de quadros nas galerias, empoeirados e esquecidos;livros de contos e poemas; peças teatrais, filmes(que, sobretudo em São Paulo, provocam inclusive falências)...O mundo oficial encarregado das artes gerou exposições carnavalescas em vários festivais e bienais, conferências fabricadas, fórmulas fáceis de sucesso, vários coquetéis em várias partes do mundo, além de alguns monstros oficiais da cultura, acadêmicos de Letras e Artes, júris de pintura e marchas culturais pelo país afora. Monstrosidades universitárias: as famosas revistas literárias, os concursos, os títulos.)

Trecho de um ensaio, Estética da Fome, do grande Glauber Rocha que tanto influência a Associação de Teatro Circo Negro.

É preciso fulminar os nulos. É preciso destruir a estrutura cambaleante, ilusória e nefasta das academias de bairros. É preciso destruir o intelectualismo estéril, as famosas revistas literárias, os famosos concursos, os discursos, os títulos.

Danem-se os acadêmicos de vanguarda, ou danemo-nos!

Domingo, Maio 15, 2005

Orçamento para a Cultura

Orçamento para a Cultura
O ministro Gilberto Gil tem recebido diversas manifestações solidárias à ampliação do orçamento para a Cultura. Nesta segunda-feira, 09 de maio, o senador Tião Viana (PT/AC) enviou carta-ofício ao ministro Antônio Palocci em apoio ao ministro Gilberto Gil e aos servidores da Cultura, que estão paralisados há um mês. "Estou convencido de que a causa da Cultura não é de um homem só. Ela exige coragem e determinação de muitos e de todos aqueles que, como nós, combinam sensibilidade e espírito público e que estão comprometidos com um novo modelo de gestão", afirmou o senador, que pede ao ministro da Fazenda empenho e colaboração com a causa "tão digna, justa e meritória".

O ministro também recebeu carta de apoio do Fórum Nacional dos Secretários Estaduais de Cultura. No documento, cerca de dezessete secretários pedem que o presidente Lula e a área econômica do governo dêem "tratamento excepcional à cultura, mediante o não-contigenciamento do orçamento dessa área".

O sociólogo Emir Sader também expressou suas palavras de apoio ao ministro, durante palestra proferida no Seminário Internacional de Políticas Públicas de Cultura, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. "Este não pode ser o ministério da sobremesa, nem da filigrama" reclamou Sader, que fez um apelo pelo engajamento das universidades com a causa. "Este seminário, por exemplo, esteve ameaçado pelo contigenciamento. A universidade tem que se posicionar na luta por uma cultura mais participativa. Se isso não acontecer, não teremos num país democrático", afirmou.
( Fonte: Comunicação Social/MinC)

Sexta-feira, Maio 13, 2005

ANDREI TARKOVSKI. Um cineasta introspectivo que tentava compreender o funcionamento da vida e do espírito dos homens. Filmografia: "A Infância de Ivan", "Andrei Rublev", "Solaris", "O Espelho", "Nostalgia", "O Sacrifício", dentre outros. Morreu aos 52 anos.

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Arte - Anseio para o ideal


Arte - Anseio para o ideal
Andrei Tarkovski

Por que a arte existe? Quem precisa dela? Na verdade, alguém precisa dela? Estas são questões colocadas não só pelo poeta, mas também por qualquer pessoa que aprecie arte - ou, naquela expressão corrente, por demais sintomática da relação entre a arte e seu público do século XX - o "consumidor".

Muitos fazem essa pergunta a si próprios, e qualquer pessoa ligada à arte costuma dar a sua resposta pessoal. Alexander Block disse que "do caos, o poeta cria harmonia"... Puchkin acreditava que o poeta tem o dom da profecia... Todo artista é regido por suas próprias leis, mas estas não são, em absoluto, obrigatórias para as demais pessoas.

De qualquer modo, fica perfeitamente claro que o objetivo de toda arte - a menos, por certo, que ela seja dirigida ao "consumidor", como se fosse uma mercadoria - é explicar ao próprio artista, e aos que o cercam, para que vive o homem, e qual é o significado da sua existência. Explicar às pessoas a que se deve sua aparição neste planeta, ou, se não for possível explicar, ao menos propor a questão.
(...)
A arte nasce e se afirma onde quer que exista uma ânsia eterna e insaciável pelo espiritual, pelo ideal: ânsia que leva as pessoas à arte. A arte contemporânea tomou um caminho errado ao renunciar à busca do significado da existência em favor de uma afirmação do valor autônomo do indivíduo. O que pretende ser arte começa a parecer uma ocupação excêntrica de pessoas suspeitas que afirmam o valor intrínseco de qualquer ato personalizado. Na criação artística, porém, a personalidade não impõe seus valores, pois está a serviço de uma outra idéia geral e de caráter superior. O artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido. O homem moderno, porém, não quer fazer nenhum sacrifício, muito embora a verdadeira afirmação do eu só possa se expressar no sacrifício. Aos poucos, vamos nos esquecendo disso, e, inevitavelmente, perdemos ao mesmo tempo todo o sentido da nossa vocação humana...

Quando falo do anseio pelo belo, ideal como objetivo fundamental da arte, que nasce de um ânsia por esse ideal, não estou absolutamente sugerindo que a arte deva esquivar-se da "sujeira" do mundo. Pelo contrário! A imagem artística é sempre uma metonímia em que uma coisa é substituída por outra, o menor no lugar do maior. Para referir-se ao que está vivo, o artista lança mão de algo morto; para falar do infinito, mostra o finito. Substituição... não se pode materializar o infinito, mas é possível criar dele uma ilusão: a imagem.

O horrível e o belo estão sempre contidos um no outro. Em todo o seu absurdo, este prodigioso paradoxo alimenta a própria vida, e, na arte, cria aquela unidade ao mesmo tempo harmônica e dramática. A imagem materializa uma unidade em que elementos múltiplos e diversos são contíguos e se interpenetram. Pode-se falar da idéia contida na imagem, e descrever a sua essência por meio de palavras. Tal descrição, porém, nunca será adequada. Uma imagem pode ser criada e fazer-se sentir. Pode ser aceita ou recusada. Nada disso, no entanto, pode ser compreendido através de um processo exclusivamente cerebral. A idéia do infinito não pode ser expressada por palavras ou mesmo descrita, mas pode ser apreendida através da arte, que torna o infinito tangível. Só se pode alcançar o absoluto através da fé e do ato criador.

A única condição para lutar pelo direito de criar é a fé na própria vocação, a presteza em servir e a recusa às concessões. A criação artística exige do artista que ele "pereça por inteiro", no sentido pleno e trágico destas palavras. E assim, se a arte carrega em si um hieroglifo da verdade absoluta, este será sempre uma imagem do mundo, concretizada na obra de uma vez por todas. E se a cognição científica, fria e positivista do mundo assemelha-se à ascensão por uma escada infinita, o seu equivalente artístico sugere, por outro lado, um infinito sistema de esferas, cada uma delas perfeita e auto-suficiente. Esses dois fatos podem se complementar ou contradizer reciprocamente; em nenhuma circunstância, porém, podem anular um ao outro. Pelo contrário, eles se enriquecem mutuamente e se juntam para formar uma esfera que a tudo abarca e que se lança para o infinito. Essas revelações poéticas, todas elas válidas e eternas, testemunham o fato de que o homem é capaz de reconhecer a imagem e a semelhança de quem o criou, e de exprimir este reconhecimento.

Além disso, a grande função da arte é a comunicação, uma vez que o entendimento mútuo é uma força a unir as pessoas, e o espírito de comunhão é um dos mais importantes aspectos da criação artística. Ao contrário da produção científica, as obras de arte não perseguem nenhuma finalidade prática. A arte é uma metalinguagem com a ajuda da qual os homens tentam comunicar-se entre si, partilhar informações sobre si próprios e assimilar a experiëncia dos outros. Mais uma vez, isso nada tem a ver com vantagens práticas, mas com a concretização da idéia do amor, cujo significado encontra-se no sacrifício: a perfeita antítese do pragmatismo. Simplesmente não posso acreditar que um artista seja capaz de trabalhar apenas para dar expressão a suas próprias idéias ou sentimentos, os quais não têm sentido a menos que encontrem uma resposta. Em nome da criação de um elo espiritual com outros, a auto-expressão só pode ser um processo torturante, que não resulta em nenhuma vantagem prática: trata-se, em última instância, de um ato de sacrifício. Mas valerá a pena o esforço, apenas para se ouvir o próprio eco?

(...)

O artista nos revela seu universo e força-nos a acreditar nele ou a rejeitá-lo como irrelevante e incapaz de nos convencer. Ao criar uma imagem ele subordina seu próprio pensamento, que se torna insignificante diante daquela imagem do mundo emocionalmente percebida, que lhe surgiu como uma revelação. Pois, afinal, o pensamento é efêmero, ao passo que a imagem é absoluta. Pode-se então afirmar que, no caso do homem espiritualmente receptivo, existe uma analogia entre o impacto produzido pela obra de arte e o impacto de uma experiência puramente religiosa. A arte atua sobretudo na alma, moldando sua estrutura espiritual.

O poeta tem a imaginação e a psicologia de uma criança, pois as suas impressões do mundo são imediatas, por mais profundas que sejam as suas idéias sobre o mundo. É claro que, ao falarmos de uma criança, também podemos dizer que ela é um filósofo; isso, porém, só pode ser afirmado num sentido bastante relativo. E a arte se esvai diante de conceitos filosóficos. O poeta não usa "descrições" do mundo; ele próprio participa da sua criação.

Uma pessoa só será sensível e receptiva à arte quando tiver a vontade e a capacidade de confiar e de acreditar num artista. No entanto, como é difícil, às vezes, superar o limiar de incompreensão que nos separa da imagem emocional e poética. Exatamente da emsma forma, no caso da verdadeira fé em Deus, ou até mesmo para sentir a necessidade de ter essa fé, uma pessoa precisa ter certa predisposição da alma, uma potencialidade espiritual específica.

A esse respeito, convém lembrar o diálogo entre Stavrogin e Shatov em Os Possessos, de Dostoiévski:
- Gostaria de saber uma coisa: acreditais ou não em Deus? - Nicolai Vsevolodovich (Stavrogin) olhou duramente para ele (Shatov).
- Acredito na Rússia e na ortodoxia russa... acredito no corpo de Cristo... Acredito que o Segundo Advento dar-se-á na Rússia... Acredito... - Shatov pôs-se a balbuciar desesperadamente.
- E em Deus? Em Deus?
- Eu... eu acreditarei em Deus.

O que se pode acrescentar a isso? Trata-se de um brilhante insight do estado de perplexidade da alma, do seu declínio e inadequação, que se estão tornando a síndrome cada vez mais crônica do homem moderno, a quem poderíamos definir como espiritualmente impotente.

O belo oculta-se aos olhos daqueles que não buscam a verdade, para os quais ela é contra-indicada. Porém, a profunda falta de espiritualidade das pessoas que vêem a arte e a condenam, e o fato de as mesmas não estarem dispostas nem prontas a refletir, num sentido mais elevado, sobre o significao e o objetivo da sua existência, vêm muitas vezes mascarados pela exclamação vulgarmente simplista: "Não gosto disso!", "É tedioso!". Não é um argumento que se possa discutir, mas parece a reação de um cego a quem se descreve um arco-íris. O homem contemporâneo simplesmente permanece surdo ao sofrimento do artista que tenta compartilhar com os outros a verdade por ele alcançada.
Mas o que é a verdade?
Creio que um dos mais desoladores aspectos da nossa época é a total destruição na consciência das pessoas de tudo que estã ligado a uma percepção consciente do belo. A moderna cultura de massas, voltada para o "consumidor", a civilização da prótese, está mutilando as almas das pessoas, criando barreiras entre o homem e as questões fundamentais da sua existência, entre o homem e a consciência de si próprio enquanto ser espiritual. O artista, porém, não pode ficar surdo ao chamado da beleza; só ela pode definir e organizar sua vontade criadora, permitindo-lhe, então, transmitir aos outros a sua fé. Um artista sem fé é como um pintor que houvesse nascido cego.

É errado dizer que o artista "procura" o seu tema. Este, na verdade, amadurece dentro dele como um fruto, e começa a exigir uma forma de expressão. É como um parto... O poeta não tem nada de que se orgulhar: ele não é o senhor da situação, mas um servidor. A obra criativa é a sua única forma possível de existência, e cada uma das suas obras é como um gesto que ele não tem o poder de anular. Para ter consciência de que uma seqüência de tais gestos é legítima e coerente, e faz parte da natureza mesma das coisas, ele deve ter fé na idéia, pois somente a fé dá coesão a um sistema de imagens (leia-se: sistema de vida).
E o que são os momentos de iluminação, se não percepções instantâneas da verdade?
O significado da verdade religiosa é a esperança. A filosofia busca a verdade, definindo o significado da atividade humana, os limites da razão humana e o significado da existência, até mesmo quando o filósofo chega à conclusão de que ela é absurda, e de que é vão todo o esforço humano.

A função específica da arte não é, como comumente se imagina, expor idéias, difundir concepções ou servir de exemplo. O objetivo da arte é preparar uma pessoa para a morte, arar e cultivar a alma, tornando-a capaz de voltar-se para o bem.

Ao se emocionar com uma obra-prima, uma pessoa começa a ouvir em si própria aquele mesmo chamado da verdade que levou o artista a criá-la. Quando se estabelece uma ligação entre a obra e o seu espectador, este vivencia uma comoção espiritual sublime e purificadora. Dentro dessa aura que liga as obras-primas e o público, os melhores aspectos das nossas almas dão-se a conhecer, e ansiamos por sua liberação. Nesses momentos, reconhecemos e descobrimos a nós mesmos, chegando às profundidades insondáveis do nosso próprio potencial e às últimos instâncias de nossas emoções.

In "Esculpir o tempo", tradução de Jefferson Luiz Camargo, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, 1990, pág. 38;40-43;45-49.


O Cahuaham, um grupo de teatro da UESPI, continua em cartaz com o espetáculo "Torquato Torto", inspirado na estética tropicalista, no campus Poeta Torquato Neto, toda quinta-feira, às 19:30 h.
"Torquato Torto" tem conteúdo bastante variado, com canções de Torquato Neto, tais como "Três da Madrugada", "Geléia Geral". Além disso, o espetáculo tem ainda referências da prosa “Panamérica” (José Agripino de Paula), artes plásticas (Hélio Oiticica), e até "PopArt", de Andy Wharol.
A direção do espetáculo é assinada pelo diretor Luciano Melo.
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Quinta-feira, Maio 12, 2005

Bush aprova lei que permite censura em filmes

Presidente dos EUA aprova lei que legaliza a comercialização
de filmes editados arbitrariamente
11 de maio de 2005


Em lei aprovada no fim do mês passado pelo presidente norte-americano George W. Bush, as produtoras de dvd´s que realizam cortes nos filmes antes de distribuí-los estão autorizadas a fazê-lo sem se preocuparem com direitos autorais.
A lei aprovada, intitulada Entretenimento Familiar e Direitos Autorais, permite que versões de produções cinematográficas sejam comercializadas livremente. Em nome da família e da moral essas produtoras realizam nos filmes cortes de cenas violentas, de sexo, homossexualismo e relações extraconjugais.
Nos EUA há um mercado relativamente grande dessas empresas que distribuem os chamados “filmes esterilizados”. Umas das empresas pioneiras neste ramo é a “Filmes Limpos” que tem mais de oitocentas produções disponíveis para compra e locação.
A aprovação dessa lei foi resultado de uma disputa judicial entre um grupo dessas empresas e a Associação dos Diretores da América.
Os cortes realizados nos filmes têm como critério retirar tudo que seja contra a família e a “ordem social”.Um dos exemplos é o filme “Hurricane - O Furacão” (1999) com o ator negro Denzel Washington, que interpreta o boxeador Rubin Carter acusado de um crime injustamente, apenas pelo fato de ser negro. Em nome da “moral e dos bons costumes” foram retiradas do filme cenas que continham atos de racismo de policiais e que demonstravam corrupção policial.
Outro filme cortado foi o desenho “Bob Esponja - O Filme” que teve cenas com suposto teor homossexual cortadas.Apesar da reclamação dos diretores que perdem totalmente seu direito de liberdade de expressão, direito tão propagandeado pelo imperialismo norte-americano, a Associação das Produtoras de Cinema da América (MPAA), que representa os grandes estúdios de cinema não se opuseram à lei, pois ela inclui uma cláusula que torna crime o comércio de dvd´s piratas.
Segundo os estúdios os filmes cortados não causam tanto prejuízo quanto os filmes piratas, claro, pois sua preocupação não é com a democracia e as liberdades do homem que o imperialismo diz defender, mas em garantir o maior lucro possível, não importa às custa do que.
Essas medidas do imperialismo norte-americano de legalizar a censura nos filmes comercializados em dvd´s também atingem as emissoras de rádio nos EUA que são proibidas de tratar de temas polêmicos ou mesmo utilizar termos com conotação sexual.
Enquanto extermina centenas de famílias no Iraque o presidente George W. Bush, supostamente para defender a democracia, impõe aos poucos dentro de seu próprio país uma verdadeira ditadura civil, retirando os direitos mais básicos fornecidos por qualquer legislação capitalista que se considere minimamente democrática.
Extraído do jornal da CausaOperáriaonline

Quarta-feira, Maio 11, 2005


OS AMORES DE TERESA. Cenas do filme "Os Amores de Teresa", direção de Chiquinho Pereira, mais uma grande realização da Associação de Teatro Circo Negro.
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Terça-feira, Maio 10, 2005

PARIS, 1968. Maio Francês, rebelião estudantil toma Paris e se alastra pelo movimento operário, 1968.

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Circo Negro: o mel do melhor

Circo Negro: o mel do melhor

Quando não é mais possível aperfeiçoar um processo, é porque chegou a hora de inventar um novo. A Associação de Teatro Circo Negro – ATCN - apresenta mais uma experiência revolucionária: o informativo Casca-Verde.

Trata-se de mais uma empreitada da ATCN, cujo objetivo é divulgar suas ações de maneira rápida e eficaz. A novidade do Casca-Verde está na forma de prover informações. Além da versão impressa, o informativo conta com o modelo eletrônico (http://casca-verde.blogspot.com/). Afinal, o mundo está falando em outra linguagem.

A interligação inédita entre processos de informação reforçará as concepções estéticas da ATCN, quais sejam, a oposição ao proselitismo político nas artes, à canalhice de artistas desprovidos de arte que tomam de assalto as instituições públicas - tolhendo iniciativas não-currioláveis.

Casca-Verde inspira-se na banana do tipo casca-verde, isso mesmo!, aquela cujo desinteresse comercial fazia com que feirantes dessem-na aos porcos. Entretanto, o que era somente lavagem, hoje pode ser encontrada também numa variação maior, mais refinada.

Esse é a objetivo do Casca-Verde: trazer do limbo aquilo que a sociedade ignora, quando não, subestima: a arte, o teatro. Transformar cascalhos em diamantes, segundo o Dr. Machado.

Nesta edição Casca-Verde saúda o surgimento do Cahuaham – um grupo de teatro da Universidade Estadual do Piauí – UESPI -, que é capitaneado pelo ator e diretor Luciano Melo, de notória competência artística, que assina o texto-manifesto do grupo, presente neste número.

Além disso, Casca-Verde apresenta matéria que faz um balanço das atividades da ATCN, enfatizando o fazer teatral enquanto instrumento de cultura. Comenta-se também a realização do primeiro filme da Associação: “Os Amores de Teresa”, com direção de Chiquinho Pereira. Por fim, Casca-Verde atualiza os leitores através de uma coluna onde constam as datas dos espetáculos da ATCN, dentre outras informações.

O Casca-Verde oferece ótimo retorno aos seus leitores: acesso a matérias atemporais sobre cultura (teatro, em especial), o pensamento crítico sobre os temas abordados, contato com textos de autores pesquisados pela ATCN - e o que é melhor: de forma gratuita.

E como Casca-Verde rechaça a mediocridade em sentido amplo, compete a vocês, leitores, avaliarem o desempenho do informativo. Aviso aos navegantes: o que é bom merece respeito: nada é bom por acaso.
Casca-Verde é um pouco do muito que é a Associação de Teatro Circo Negro. É o mel do melhor, como diria Waly Salomão.

















Segunda-feira, Maio 09, 2005

Para entender o Projeto Casca-Verde

CASCA VERDE

Todo processo de emancipação social passa, necessariamente, pela constituição de um ou vários discursos que procurem compreender quem somos, quais nossas necessidades e dificuldades e como construir alternativas para alcançarmos nossos sonhos e projetos. A multiplicação dos movimentos sociais, nas últimas décadas, tem ressaltado essa tese.
A própria noção de emancipação social modificou-se nos últimos tempos: na década de 50, trabalhadores rurais brasileiros consolidaram uma crítica de sua condição de grupo excluído e deram maior consistência nas suas ações político-sociais; na década de 60, mulheres e negros deram largos passos em sua organização e discussão de seus direitos; na década de 70, homossexuais se perceberam como sujeitos de direito e começaram uma longa trajetória de luta.
Os exemplos poderiam se multiplicar, mas, já ficou claro que não existe uma única emancipação social. Diversos grupos e setores da sociedade procuram conscientizar-se e defender seus direitos: índios, ecologistas, lésbicas, mulheres, trabalhadoras rurais, idosos, trabalhadores urbanos, jovens e adolescentes, artistas etc.
Nesse contexto se insere a emancipação cultural enquanto é um processo de inclusão social de nossas necessidades e desejos culturais. Desse universo fazem parte: compreensão da particularidade de sua identidade cultural, a relação de alteridade com as demais expressões culturais, entender os diversos elementos culturais que constituem uma identidade, discutir a tolerância entre as culturas, ser sujeito de um discurso de auto-afirmação cultural, lutar pela auto-estima cultural etc.Essa é a dimensão desse programa de formação de agentes culturais comunitários: sujeitos capazes de dialogarem com a diversidade humana, de fazerem a crítica da cultura de massa e defenderem alternativas afirmadoras de sua identidade cultural local.

Por Luciano Melo

George Bernard Shaw: O Mais Célebre Dos Esquecidos(II).

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"CIPRIANO". Filme de Douglas Machado. Chiquinho Pereira faz o papel de Vicente.

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BRECHT. Circo Azul está em cartaz com a peça “A exceção e regra”, de Bertolt Brecht, sob a direção de Cláudia Santos, num circuito alternativo de apresentações. Prestes a estrear também pelo Circo Azul a montagem de “Pedro Mico”, de Antônio Callado.

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Seja eterno, Gullar, por favor, seja eterno.
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O Mais Célebre Dos Esquecidos - Bernard Shaw

O Mais Célebre Dos Esquecidos - Bernard Shaw

Georg Bernard Shaw (1856-1950) notabilizou-se por ser um exímio frasista. Entretanto, dentre tantas habilidades, como música, polêmica, ficção, ensaio, consagrou-se, de fato, no teatro, escrevendo textos como "Major Bárbara", "Pigmalião", estando em pé de igualdade com o bardo inglês, ou mesmo com o arquiteto Ibsen, sua maior influência.
Crítico de artes, defensor dos direitos civis, militante socialista, Bernard Shaw foi disparado o melhor homem de teatro do século XX.Em suas peças Shaw conjugou problemas morais contemporâneos, com humor sulfúrico, criando pérolas como: " o lar é a prisão da moça e o hospício da mulher"," quem deseja uma vida feliz com uma mulher bonita assemelha-se a quem quisesse saborear o gosto do vinho tendo a boca sempre cheia dele", "não faças aos outros o que queres que te façam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus".
Enfim, suas personagens, de Dom Juan a Cleópatra, realizam verdadeiras pirotecnias verbais, tendo como mote inicial, a hipocrisia que permeia as relações humanas.Em 1925, Bernard Shaw recebeu o prêmio Nobel para a literatura. Shaw aceitou a honra, mas recusou o dinheiro.

Por Ítalo Gustavo-Leite
Dramas:A conversão do pirata
Cândida
Casa de Orates
César e Cleópatra
Homem e super-homem
Major Bárbara
O dilema do médico
O homem e as armas
O homem e o destino
Pigmalião
Santa Joana
Volta a Matusalém
Ensaios:Quem sou o que penso
Novelas:Aventuras de uma negrinha que procurava Deus

Domingo, Maio 08, 2005

O primeiro filme da Associação de Teatro Circo Negro



Os Amores de Teresa

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.

Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.

No plano ficcional, o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através destes amores, vai entrando no mundo adulto.

Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Buquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outras oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.

O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).

Uma Olga de consumo



Uma Olga para consumo



O filme ‘Olga’ conta a história da militante comunista alemã Olga Benário que foi companheira de Luís Carlos Prestes. Dirigido por Jayme Monjardim, o filme torna-se um melodrama feito para vender.

Yara Fernandes
da redação do Opinião Socialista

O capitalismo transforma tudo em mercadoria. Incorpora, dilui, deforma iniciativas e personalidades, embala tudo e coloca como mercadoria esterilizada na prateleira. Foi exatamente isso que ocorreu com Olga Benário. De militante comunista com tarefas internacionais, Olga se torna pivô de um romance melodramático nas mãos do diretor de novelas globais Jayme Monjardim.

Produzido pela Globofilmes, das Organizações Globo, e com o investimento de R$ 12 milhões, Olga chegou aos cinemas do Brasil para fazer as platéias chorarem. A Globo que produziu esse filme é a mesma que nos anos de ditadura militar proibiu a veiculação de imagens de Luís Carlos Prestes. O filme é escrito por Rita Buzzar e tem como base a obra de Fernando Morais, Olga, escrita em 1984 e que desde então já vendeu mais de 600 mil exemplares no Brasil, além de ter sido reproduzido para mais 21 países. O filme, ao enfatizar o lado romântico e dramático, prende o espectador, distanciando-se do contexto real da militante Olga.

A história real

Olga Benário, uma militante comunista judia, nasceu em 1908, na Alemanha, filha de uma família burguesa. Tanto sua trajetória, como a de Prestes, foram profundamente influenciadas pelo controle que Stalin já tinha sobre a Internacional Comunista naquele momento.

Olga entrou para a Juventude Comunista com 15 anos, tendo uma atuação política muito forte no partido alemão. Cinco anos depois, resgatou o professor comunista Otto Braun durante seu julgamento, numa ação com outros militantes. Por causa das divergências políticas com a família conservadora, Olga saiu de casa. Em 1928, foi enviada pelo partido à União Soviética, onde recebeu treinamento militar pelo Exército Vermelho. Com apenas 20 anos, Olga tornou-se dirigente da Internacional Comunista, já dirigida por Stalin. Devido ao treinamento, Olga recebeu em 1934 a tarefa de cuidar da segurança pessoal de Luís Carlos Prestes, na viagem ao Brasil para comandar o frustrado golpe de 1935. Prestes era um líder do movimento tenentista brasileiro, que aderiu ao Partido Comunista, já hegemonizado pelo stalinismo. A tentativa de golpe de 1935, articulada dentro das forças armadas, praticamente desligado do movimento de massas, foi a expressão no Brasil, de um curto período ultraesquerdista nos métodos de luta da Internacional.

O filme aborda esse conteúdo político de forma superficial e apenas em sua primeira parte, tornando-o um detalhe no romance que surge entre Olga Benário e Luís Carlos Prestes. Após o envolvimento dos dois, Olga fica grávida e ambos são presos pelo governo de Getúlio Vargas. Vargas usa o golpe frustrado de 1935 para recrudescer a segurança e reprimir a esquerda. Olga e Prestes são presos e o governo brasileiro envia Olga grávida de presente ao governo nazista de Hitler. Ela protagoniza uma campanha para ter seu filho no Brasil e não ser deportada. A campanha não funciona e a mãe de Prestes passa a fazer uma campanha internacional por Olga e pela criança, depois da deportação. A partir daí, ela passa por prisões e campos de concentração na Alemanha, tem sua filha em um deles, fica com ela apenas até os 14 meses e morre numa câmara de gás aos 33 anos, após torturas e trabalhos forçados.

Em sua última carta a Luís Carlos Prestes, Olga diz “Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo”. Apesar disso, o filme de Monjardim passa uma falta de perspectivas, na qual a história se encerra na tragédia. A filha de Olga e Prestes, Anita Leocádia, assistiu ao filme e reclamou da falta de perspectiva e pelo filme não mostrar a continuidade da vida política de Prestes.

Em um filme regado a lágrimas e recheado de cenas de romance, perde-se o conteúdo político da personagem. Usando uma estética televisiva, Jayme Monjardim abusa das trilhas sonoras, dos closes, planos fechados e cenas entrecortadas. O diretor deixou claro que não faria um filme político e sim um filme de amor, para o público chorar no cinema.

As cenas de sexo do casal são imbuídas de um tom celestial e mágico. A Internacional, de hino de chamado à luta e à revolução, torna-se uma canção de despedida instrumental na última cena em que o casal se vê, quando são presos.

Tudo é romance no filme. A vida real, no entanto, foi bem diferente. Depois de dez anos de prisão, Prestes apoiou e elogiou em público as “boas intenções” de Vargas, que entregara aos nazistas sua mulher grávida. Já refletia outro momento da Internacional stalinista, que abandonou o curto período ultra-esquerdista, para adotar a política das Frentes Populares, buscando alianças com “setores progressistas da burguesia”, entre os quais estaria incluído Vargas.

Filme para vender

A história mostrada no cinema faz parecer que Olga caiu de amores apenas pelo jeito tímido e sensível de Prestes. Mesmo quem não os conheceu calcularia facilmente que o que mais os aproximava eram as afinidades ideológicas. Isso fica intocado na relação dos dois no filme, que coloca as questões políticas apenas como pano de fundo do romance.

Olga teve uma produção quase hollyoodiana. Foi diluído em romance para atrair o público e vender mais. É uma superprodução com intenções de chegar ao sonhado Oscar. Com cenas impressionantes, que recriam cenários da Rússia e da Alemanha em pleno calor do Rio de Janeiro, o filme Olga preza intencionalmente pela embalagem, sendo assumidamente belo e envolvente. Porém, vale a pena assisti-lo, mesmo que para aguçar a vontade de ler a verdadeira história de Olga.

Extraído do site
Opinião Socialista Online, editorial de cultura.

Cipriano: o sertão está em toda parte



Cipriano, o primeiro longa-metragem piauiense, conta com a participação de membro da Associação de Teatro Circo Negro - ATCN



Um homem velho, de nome Cipriano(Tarcísio Prado), está prestes a morrer. Ele passou a vida inteira atormentado por sonhos e agora vaga solitário em um deles. Seus filhos Vicente(Chiquinho Pereira) e sua irmã buscam um cemitério de frente ao mar, onde ele deve ser enterrado. Vida e morte. Contos, sonhos e religiões. Uma viagem no imaginário latino-americano através de uma longa peregrinação pelos sertões piauienses. O filme Cipriano compreende essencialmente, uma abordagem de dois temas universais: a morte e os sonhos -, tendo como eixo a cultura nordestina. Trata-se do primeiro longa-metragem da história do cinema do estado do Piauí.

Sinopse extraída do site: www.adorocinemabrasileiro.com.br/ filmes/cipriano/cipriano.asp

O riso quase triste de Charles Chaplin


O riso quase triste de Charles Chaplin

Quem nunca esbarrou nas famosas frases de efeito do rei da comédia? Se você pertence a esta minoria, segue abaixo uma série delas, para servirem como uma ótica panorâmica da mente do artista, que como poucos expôs suas idéias de forma incisiva.

“Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação”.

“Um dos prazeres que sinto ao produzir um filme é constatar que muitas vezes uma cena inesperada - ou até mesmo errada - acaba dando certo”

Referindo-se ao advento do cinema falado: “Com o uso da palavra não há mais lugar para a imaginação”

“Toda vez que assisto a um dos meus filmes, quando ele é apresentado pela primeira vez ao público, eu presto mais atenção na reação das pessoas do que na própria película - nas situações que causam o riso e nas que não causam”

"Eu continuo a ser apenas um palhaço, o que já me coloca em nível bem mais alto do que o de qualquer político"

"Creio no riso e nas lágrimas como antídoto contra o ódio e o terror"

"Não devemos ter medo dos confrontos. Até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas"

“Estudei o homem, porque se assim não o fizesse, não conseguiria realizar nada em meu ofício”

No dia 16 de abril de 1889, Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres. Sua mãe, Lili Harley, era comediante. Seu pai, também artista do music-hall, deixou a família quando Charles ainda era pequeno. Um grave problema de laringite acabou com a carreira da jovem Lili Harley, obrigando o jovem Charles a pisar num palco pela primeira vez aos cinco anos de idade.

Consta que apesar de ser freqüentado na maioria por soldados, o teatro mais o ajudou a desenvolver suas habilidades natas que a encontrar a sorte de um descobridor de talentos.

Depois de ser contratado por uma companhia de bailarinos, veio a morte de seu pai e a internação da sua mãe em um sanatório que marcariam a vida de Chaplin profundamente.

E foi por sua infância pobre em orfanatos que ele reuniu os elementos que o tornariam singular no cinema, que felizmente entre outros méritos mescla a arte de fazer rir nas adversidades da pobreza extrema sempre elevando a sensibilidade do espectador, deixando-o próximo das lágrimas.
Chaplin, conseguiu assinar um contrato como ator fazendo um mensageiro inspirado em Sherlock Holmes que melhorou sua condição financeira. Mas sua jornada em direção ao cinema teve que contar com sua inclusão na companhia do acrobata Fred Karno que o levou a Paris de onde, com a rica experiência na bagagem, o contato com personalidades que vão desde os inventores do cinema, os irmãos Lumière às prostitutas dos cabarés, voltou a excursionar ao norte da Inglaterra, como ator principal.

Já nos Estados Unidos ainda com a companhia de Karno, Chaplin chamou a atenção de alguns jornais e de um espectador, que nessa época trabalhava para a recém nascida indústria do cinema; era Mack Sennett, que voltaria a encontrar Chaplin dois anos mais tarde, em uma nova turnê pelos Estados Unidos.

Sennett foi sua porta de entrada para o cinema, isso porque depois de ter recebido um convite da Key Stone Film, com quem assinou um contrato para fazer três filmes por semana. Sennett passou a ser seu chefe assim que chegou a Los Angeles.

Em seu segundo filme, “Corrida de automóveis para Meninos” (1914), criou um personagem que logo seria identificado pelo público. Sennett pediu-lhe que se vestisse de maneira engraçada. "Pensei que poderia usar umas calças muito grandes e uns sapatos enormes, além de uma bengala e um chapéu coco. Queria que tudo fosse contraditório: as calças folgadas, o paletó apertado, o chapéu pequeno e os sapatos enormes. Não sabia se deveria parecer velho ou jovem, mas quando me lembrei que Sennett tinha pensado que eu era bem mais velho, coloquei um bigodinho que me daria alguns anos sem esconder a minha expressão". Assim nasceu o famoso "Tramp" - vagabundo em inglês (que os povos dos países de idioma espanhol passaram a chamar de "Carlitos").


Daí em diante, segue sua enorme quantidade de produções onde atuava atacando de maneira mordaz e genial toda e qualquer forma de autoritarismo, agradando a toda a gente que sempre acha sensacional "chutar o traseiro do guarda", levando contudo um certo desconforto aos representantes da lei e da ordem...

Além da básica filmografia especificamente de Chaplin, dentre os quais destacam-se “O Garoto”, “Tempos Modernos”, “O Grande Ditador”, e “Luzes da Ribalta” (este último verdadeiro "testamento poético" do grande gênio); somente em 1992, o cinema se dignou a homenagear um de seus maiores criadores. O diretor Richard Attemborough filma “Chaplin”, com uma bela atuação de Robert Downey Jr como protagonista e nomes como Dan Aykroyd e Anthony Hopkins no elenco. Geraldine Chaplin, sua filha, é que representa o papel da mãe de Charles Chaplin, em uma atuação emocionante.
Quando a mesquinhez do cotidiano ameaçar incomodar-nos, façamos como os surrealistas, refugiemo-nos no sonho, na fantasia, onde muitas vezes encontramos mais traços de realidade no chamado delírio que nas vãs ilusões do cotidiano.

Cronologia resumida:

1915 – 1.250 dólares semanais, foi o valor do contrato assinado com a Essanay para trabalhar durante um ano. Seus filmes passam a ser escritos e dirigidos por ele mesmo. Alguns desse ano: “Carlitos se Diverte”, “Campeão de Boxe”, “O Vagabundo” e “Carlitos em Apuros” etc.

1916 - Assina com a Mutual um contrato de 670 mil dólares para a realização de 12 filmes durante um ano. Alguns títulos produzidos: “Carlitos no Armazém”, “Carlitos Bombeiro”, “Carlitos Patinador”, dentre outros

1918 - Assina contrato com a First National e inaugura o seu próprio estúdio em Hollywood. Casa-se em outubro com a atriz Mildred Harris

1920 – Termina seu casamento com Mildred Harris, que durou apenas dois anos

1921 - Estréia “O Garoto” e “A Classe Ociosa”. A trilha sonora de O Garoto foi apenas composta em 1971, pelo próprio Charles Chaplin, e inserida em uma nova versão do filme

1922 - Hannah Chaplin se junta aos filhos nos EUA e se instala em Santa Mônica

1924 - Casa-se com Lita Gray

1925 - Estréia de “A Corrida do Ouro”. Sydney Chaplin, seu primeiro filho, nasce

1927 - Divorcia-se de Lita Gray

1931 - Estréia de “Luzes da Cidade”. Aqui sua paixão por uma pobre florista cega, que acredita que ele é um milionário, faz com que ele tente conseguir o dinheiro necessário da cirurgia para restaurar sua visão . Curiosidades: Charles rodou 342 vezes a cena em que o vagabundo compra uma flor da florista, o motivo? Chaplin não encontrava um modo que lhe agradasse de mostrar que a florista achava que o vagabundo era na verdade um milionário . Era o filme favorito do diretor Orson Welles.

1933 - Casa-se com Paulette Goddard

1936 - Estréia de “Tempos Modernos”

1940 - Estréia o controverso, “O Grande Ditador”. O homem que não quer falar: seria a melhor definição para Chaplin. Ele relutou bastante até fazer seu primeiro filme falado, este foi seu primeiro filme inteiramente falado. Mas por que não queria falar? Não tinha nada a nos dizer? Pelo contrário aqui vemos uma mistura de comédia com uma afiada e irônica crítica política. Chaplin representa dois papéis no filme, o de um barbeiro judeu e o de um ditador, um “Hitler” de um país fictício, a Tomânia em plena Segunda Guerra Mundial

1941 - Divorcia-se de Paulette Goddard

1943 - Casa-se com Oona O'Neill

1947 - Estréia de Monsieur Verdoux

1952 – Muda-se para Europa. Estréia de “Luzes da Ribalta”

1954 - Ganha o Prêmio Internacional da Paz

1957 - Estréia do filme “Um rei em Nova York”

1962 - Recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade de Oxford

1966 - Realiza seu último filme: “A Condessa de Hong Kong”

1968 - Seu filho Charles Chaplin Jr se suicida

1972 - Recebe da academia norte-americana o prêmio Oscar de Cinematografia

1975 - Recebe o grau de Cavaleiro da rainha inglesa Elizabeth II

1977 - Falece, aos 88 anos, no dia de natal

Extraído do site Causa Operária Notícias Online ( http://www.pco.org.br), editoria de cultura.


"Não conseguiu firmar o nobre pacto/Entre o cosmos sangrento e a alam pura./Porém, não se dobrou perante o fato/Da vitória do caos sobre a vontade/Augusta de ordenar a criatura/Ao menos: luz ao sul da tempestade./Gladiador defunto mas intacto/(Tanta violência, mas tanta ternura)." Primeira estrofe do poema "Balada" de Mário Faustino, que tem uma dedicatória:"Em memória de um poeta suicida". Faustino morreu em 1962, aos 32 anos, num acidente de avião.
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"Saturno engole Seu Filho", de Goya. A metáfora como doença. Vejamos, em seguida, trechos do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meirelles, um dos belos livros da literatura brasileira. Cecília é praticamente ignorada na universidade. "(...) só por serdes os pusilânimes,/os da pusilânime estirpe,/que atravessa a história do mundo/em todas as datas e raças,/como veia do sangue impuro/queimando as puras primaveras,/enfraquecendo o sonho humano/quando as auroras desabrocham!(...)"
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Algumas reflexões sobre cultura e Teatro Circo Negro

Algumas reflexões sobre cultura e Teatro Circo Negro
A Associação de Teatro Circo Negro tem se empenhado para conhecer e participar da construção dessa arte viva e dinâmica da cultura piauiense. Procura, primeiramente, demonstrar que as separações e fronteiras entre as artes no Piauí vêm servindo para construir um muro de desrespeito e segregação das artes – aquela qualificada e de bom gosto e, do outro lado, uma arte menor e ignorada pela maioria. No mesmo sentido defende o princípio que as artes são uma expressão livre da passagem humana pelo tempo: conhecer suas mais variadas manifestações é compreender o próprio homem.

Assim, no ano de 2001, inovou as artes piauienses com um projeto ousado – a Galeria Geração Pós-69. Esta foi uma grande galeria de artes ao céu aberto (Praça Pedro II, todo sábado pela manhã), onde eram apresentados espetáculos teatrais, exposições de artes plásticas, números musicais com artistas da terra, mostras de artesanato local, lançamento de periódicos artísticos (a revista de cultura Pulsar e o jornal de teatro Bastidor – uma publicação sua) e, por fim, uma pequena biblioteca infantil.

No sentido de dar continuidade ao seu trabalho de educação e divulgação das produções artísticas piauienses, criou o projeto PIAUÍ COM ARTE em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses na medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Eram previstas quatro oficinas teatrais, três apresentações de peças em praça pública e a realização de um censo artístico (registro dos artistas – atividades, técnicas, tempo de trabalho, demandas etc.).

O seu princípio norteador era: “não queremos ensinar os piauienses a fazer arte. Contrários a esta postura etnocêntrica, procuramos dialogar com os piauienses a partir da atividade artística”. Todo homem tem algo a dizer sobre as diversas atividades e coisas que o rodeiam. Sua pedagogia, tendo em vista essa verdade, procurava construir com os participantes uma nova sistematização dos nossos saberes e experiências artísticas.

Promoveu mensalmente durante o ano de 2003 o Sarau Geração Pós-69 onde homenageou os seus escritores (Paulo Machado, Airton Sampaio, Rogério Newton, Rubervan du Nascimento, Marleide Lins, William Melo Soares, entre outros) e, ao mesmo tempo, promoveu a crítica literária dos mesmos por meio de palestras. Também mensalmente, desenvolveu o projeto Teatro-Imagem – um outdoor vivo onde buscava-se demonstrar toda a força e polissemia da expressão teatral no Balão das Três Raças (avenida Petrônio Portela).Hoje essas atividades se multiplicam: montagem de peças teatrais, construção de circuitos alternativos de apresentações, projeto “casca-verde”, produção de documentários, assessoria a movimentos sociais, pesquisas sobre artistas piauienses etc.Assim entendemos nosso teatro: um teatro que não se vê tão somente como teatro, mas como um movimento cultural que agrega possibilidades, discute história, transforma o cotidiano, educa homens, sonha com o presente e que pretende através de ações.

Sábado, Maio 07, 2005


Seja claro, seja breve, Jean-Paul
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Sexta-feira, Maio 06, 2005

KIENHOLZ

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Nelson Rodrigues - sobre o ator e sobre o teatro

Nelson Rodrigues - sobre o ator e sobre o teatro
A verdadeira vocação dramática não é o grande ator ou a grande atriz. É, ao contrário, o canastrão, e quanto mais límpido, líquido, ululante, melhor. O grande ator ou atriz é recente. Até poucos anos atrás, representava-se cinema e teatro aos uivos e às patadas. Era hediondo e sublime. Ao passo que o grande ator nada tem de truculento nem berra. É inteligente demais, consciente demais, técnico demais; e tem uma lucidez crítica, que o exaure. O canastrão, não. Está em cena como um búfalo da ilha de Marajó. É capaz de tudo. Sobe pelas paredes, pendura-se no lustre e, se duvidarem, é capaz de comer o cenário. Por isso mesmo, chega mais depressa ao coração do povo, deslumbra e fanatiza a platéia.

Três anos depois (do assassinato de Roberto Rodrigues, irmão de Nelson) descobri o teatro. Fui ver, com uns outros, um vaudeville. Durante os três atos, houve, ali, uma loucura de gargalhadas. Só um espectador não ria: - eu. Depois da morte de Roberto, aprendera a quase não rir; o meu próprio riso me feria e envergonhava. E, no teatro, para não rir, eu comecei a pensar em Roberto e na nudez violada da autópsia. Mas, no segundo ato, eu já achava que ninguém deve rir no teatro. Liguei as duas coisas: - teatro e martírio, teatro e desespero. No terceiro ato, ou no intervalo do segundo para o último, eu imaginei uma igreja. De repente, em tal igreja, o padre começa a engolir espadas, os coroinhas a plantar bananeiras, os santos a equilibrar laranjas no nariz como focas amestradas. Ao sair do vaudeville, eu levava comigo todo um projeto dramático definitivo. Acabava de tocar o mistério profundíssimo do teatro. Eis a verdade súbita que eu descobrira: - a peça para rir, com essa destinação específica, é tão obscena e idiota como o seria uma missa cômica. *

[Trecho escrito para a apresentação da peça Perdoa-me por me traíres] Morbidez? Sensacionalismo? Não. E explico: a ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary, trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo. No "Crime e Castigo", Raskolnikov mata uma velha e, no mesmo instante, o ódio social que fermenta em nós estará diminuído, aplacado. Ele matou por todos. E, no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los.

* Rodrigues, Nelson. A Menina sem estrela. São Paulo, Companhia das Letras, 1993, pág. 63.
** Idem, ibidem, págs. 95-96.

Cahuaham é Circo Negro na UESPI

Cahuaham é Circo Negro na UESPI
A ação persistente e corajosa de homens que amam as artes e o Piauí deu nova cria – o teatro cahuaham. Trata-se um grupo de teatro que conta com a participação de alunos da universidade estadual e da comunidade teresinense. O mesmo almeja trabalhar em três dimensões: primeiramente, desenvolver um trabalho estético (pesquisa de linguagens e montagem de espetáculos); segundo, formação de atores; terceiro e principal, pesquisar a identidade cultural piauiense.

Assim define seu diretor geral, o também professor Luciano Melo: “acredito que a arte pode e deve buscar um meta-sentido e não simplesmente a criação artística e descoberta de novas técnicas: pesquisar e afirmar a identidade cultural de nosso povo. Essa arte deve estar a serviço da construção histórica da sociedade piauiense assim como o teatro grego antigo. Por outro lado, as artes cênicas podem sintetizar as preocupações dos homens e de seu tempo à maneira de Brecht”.

Como bem descrita pelo poeta piauiense Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, a impávida ave “cauhaham” enfrenta cascavéis e as esmaga pela cabeça e o teatro cahuaham pretende enfrentar a ignorância e o desafio estético para construir uma arte que ame honestamente nosso povo e nossa terra. Como um bando de “cahuahams” que, se forças unidas para atacar o inimigo ainda não possuem, bradam e esbravejam até que a coragem e o grupo seja o bastante, o teatro cahuaham é, por essência, uma arte do coletivo piauiense.
Dessa maneira, a condução de seus trabalhos de pesquisa e criação parte do envolvimento de todos os seus membros: pesquisas são feitas, seminários são ministrados, palestrantes convidados, aprendizagem de técnicas de interpretação etc. O artista de teatro é percebido como homem histórico, estético, cultural e político. A prática criteriosa da formação continuada é essencial na construção desse teatro onde o homem coletivo é sua razão e não o pequeno e frágil e fugaz homem narcísico.

Não houve seleção para definir os atores de seu elenco. O próprio trabalho de formação seleciona naturalmente os seus participantes, pois, contrariando a visão ingênua ou tacanha, teatro é arte, logo, trabalho árduo de estudo e criação. Assim, o grupo está sempre aberto para a participação de novos membros, estudantes ou não da UESPI.

E o primeiro trabalho do teatro cahuaham busca reconstruir a memória de um ilustre desconhecido da historiografia oficial piauiense – o poeta, cientista e revolucionário Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco. Nascido em 1789 e falecido na fazenda Barro Vermelho, 1874.“Liderou a Marcha Popular Pró-independência que resultou na Batalha Campal do Jenipapo, em 13 de março de 1823. Foi preso, processado e condenado à pena de prisão perpétua, para cumprimento em Lisboa-Portugal. Principais obra poéticas publicadas: O Ímpio Confundido (1835...); O Santíssimo Milagre (editado em duas versões, uma erudita e outra popular – 1839); A Criação Universal (1856), que constituem a tríade épica da Literatura Brasileira de Expressão Piauiense” (Revista Pulsar, 2002-2003, p. 19).

Algumas reflexões sobre cultura e Teatro Circo Negro


Algumas reflexões sobre cultura e Teatro Circo Negro

A Associação de Teatro Circo Negro tem se empenhado para conhecer e participar da construção dessa arte viva e dinâmica da cultura piauiense. Procura, primeiramente, demonstrar que as separações e fronteiras entre as artes no Piauí vêm servindo para construir um muro de desrespeito e segregação das artes – aquela qualificada e de bom gosto e, do outro lado, uma arte menor e ignorada pela maioria. No mesmo sentido defende o princípio que as artes são uma expressão livre da passagem humana pelo tempo: conhecer suas mais variadas manifestações é compreender o próprio homem.

Assim, no ano de 2001, inovou as artes piauienses com um projeto ousado – a Galeria Geração Pós-69. Esta foi uma grande galeria de artes ao céu aberto (Praça Pedro II, todo sábado pela manhã), onde eram apresentados espetáculos teatrais, exposições de artes plásticas, números musicais com artistas da terra, mostras de artesanato local, lançamento de periódicos artísticos (a revista de cultura Pulsar e o jornal de teatro Bastidor – uma publicação sua) e, por fim, uma pequena biblioteca infantil.

No sentido de dar continuidade ao seu trabalho de educação e divulgação das produções artísticas piauienses, criou o projeto PIAUÍ COM ARTE em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses na medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Eram previstas quatro oficinas teatrais, três apresentações de peças em praça pública e a realização de um censo artístico (registro dos artistas – atividades, técnicas, tempo de trabalho, demandas etc.).

O seu princípio norteador era: “não queremos ensinar os piauienses a fazer arte. Contrários a esta postura etnocêntrica, procuramos dialogar com os piauienses a partir da atividade artística”. Todo homem tem algo a dizer sobre as diversas atividades e coisas que o rodeiam. Sua pedagogia, tendo em vista essa verdade, procurava construir com os participantes uma nova sistematização dos nossos saberes e experiências artísticas.

Promoveu mensalmente durante o ano de 2003 o Sarau Geração Pós-69 onde homenageou os seus escritores (Paulo Machado, Airton Sampaio, Rogério Newton, Rubervan du Nascimento, Marleide Lins, William Melo Soares, entre outros) e, ao mesmo tempo, promoveu a crítica literária dos mesmos por meio de palestras. Também mensalmente, desenvolveu o projeto Teatro-Imagem – um outdoor vivo onde buscava-se demonstrar toda a força e polissemia da expressão teatral no Balão das Três Raças (avenida Petrônio Portela).
Hoje essas atividades se multiplicam: montagem de peças teatrais, construção de circuitos alternativos de apresentações, projeto “casca-verde”, produção de documentários, assessoria a movimentos sociais, pesquisas sobre artistas piauienses etc.Assim entendemos nosso teatro: um teatro que não se vê tão somente como teatro, mas como um movimento cultural que agrega possibilidades, discute história, transforma o cotidiano, educa homens, sonha com o presente e que pretende através de ações.

Estréia na UESPI novo espetáculo do Cahuaham

Estréia na UESPI novo espetáculo do Cahuaham
O CAHUAHAM, um grupo de teatro da UESPI, estréia novo espetáculo, inspirado na estética tropicalista, no campus Poeta Torquato Neto, dia 05 (quinta) de maio.O espetáculo terá conteúdo bastante variado, com canções de Torquato Neto, que passa por "Três da Madrugada", "Geléia Geral", por exemplo. Além disso, o espetáculo trará ainda referências da prosa “Panamérica” (José Agripino de Paula), artes plásticas (Hélio Oiticica), e até "PopArt", de Andy Wharol.
A direção do espetáculo é assinada pelo diretor Luciano Melo, cujo título intencionalmente continua incerto, posto que a estética do espetáculo é justamente iconoclasta, irreverente, desse modo não há que se falar em algo novo, e partir do convencional. Uma das inovações, por exemplo, é propor "instalações de cenas" junto aos espectadores dando nova dimensão ao conceito do tropicalismo, sob o prima do teatro.