Sexta-feira, Junho 24, 2005

Circo Negro: o mel do melhor


Circo Negro: o mel do melhor

Quando não é mais possível aperfeiçoar um processo, é porque chegou a hora de inventar um novo. A Associação de Teatro Circo Negro – ATCN - apresenta mais uma experiência revolucionária: o informativo Casca-Verde.
Trata-se de mais uma empreitada da ATCN, cujo objetivo é divulgar suas ações de maneira rápida e eficaz. A novidade do Casca-Verde está na forma de prover informações. Além da versão impressa, o informativo conta com o modelo eletrônico (http://casca-verde.blogspot.com/). Afinal, o mundo está falando em outra linguagem.
A interligação inédita entre processos de informação reforçará as concepções estéticas da ATCN, quais sejam, a oposição ao proselitismo político nas artes, à canalhice de artistas desprovidos de arte que tomam de assalto as instituições públicas - tolhendo iniciativas não-currioláveis.Casca-Verde inspira-se na banana do tipo casca-verde, isso mesmo!, aquela cujo desinteresse comercial fazia com que feirantes dessem-na aos porcos. Entretanto, o que era somente lavagem, hoje pode ser encontrada também numa variação maior, mais refinada.
Esse é a objetivo do Casca-Verde: trazer do limbo aquilo que a sociedade ignora, quando não, subestima: a arte, o teatro. Transformar cascalhos em diamantes, segundo o Dr. Machado.Nesta edição Casca-Verde saúda o surgimento do Cahuaham – um grupo de teatro da Universidade Estadual do Piauí – UESPI -, que é capitaneado pelo ator e diretor Luciano Melo, de notória competência artística, que assina o texto-manifesto do grupo, presente neste número.
Além disso, Casca-Verde apresenta matéria que faz um balanço das atividades da ATCN, enfatizando o fazer teatral enquanto instrumento de cultura. Comenta-se também a realização do primeiro filme da Associação: “Os Amores de Teresa”, com direção de Chiquinho Pereira. Por fim, Casca-Verde atualiza os leitores através de uma coluna onde constam as datas dos espetáculos da ATCN, dentre outras informações.
O Casca-Verde oferece ótimo retorno aos seus leitores: acesso a matérias atemporais sobre cultura (teatro, em especial), o pensamento crítico sobre os temas abordados, contato com textos de autores pesquisados pela ATCN - e o que é melhor: de forma gratuita.
E como Casca-Verde rechaça a mediocridade em sentido amplo, compete a vocês, leitores, avaliarem o desempenho do informativo. Aviso aos navegantes: o que é bom merece respeito: nada é bom por acaso.Casca-Verde é um pouco do muito que é a Associação de Teatro Circo Negro. É o mel do melhor, como diria Waly Salomão.

Quinta-feira, Junho 23, 2005


TORQUATO TORTO, dirigido por Luciano Melo, quinta-feira, no Campus Poeta Torquato Neto, fazendo parte da Primeira Semana do Orgulho de Ser / Quarta Parada da Diversidade. Posted by Hello

Antunes Filho desenterra a tragédia grega

Antunes Filho desenterra a tragédia grega

VALMIR SANTOS

da Folha de S. Paulo

O caixão é um objeto recorrente na obra de Antunes Filho. De "Romeu e Julieta" (84) a "Drácula e Outros Vampiros" (96), passando por "Vereda da Salvação" (93), estão lá os cadáveres da aventura humana em que procura converter todo o seu teatro.

Em "Antígona", que pré-estréia hoje no Sesc Anchieta, em São Paulo, o diretor "ressuscita" os personagens. Os corpos do rei Creonte e das irmãs Antígona e Ismene são retirados das gavetas de uma espécie de mausoléu e trazidos à cena.

Na peça de Sófocles (século 5º a.C.), a protagonista, por ordem de Creonte, é impedida de enterrar o corpo de seu irmão, Polinices, morto em duelo com outro irmão, Etéocles. Antígona transgride a lei e é condenada a ser enterrada viva numa caverna.

Na perspectiva de Antunes, há um deus a guiar esse enredo: Dionísio (ou Baco, em latim). De seu nicho, à esquerda do palco, ele dispara a sirene, os sinos. E também contracena, um tanto cabisbaixo, como a alertar que os tempos não são de alívio.
A seguir, trechos da entrevista de Antunes à Folha.


Folha - No espetáculo, Antígona e Creonte soam mais equilibrados. Não é a mera disputa da heroína, em defesa da justiça absoluta, contra o seu antípoda.
Antunes Filho - Eles têm contradições. Só que dou muito mais valor a ela, evidentemente. Eu gosto dela, porque é muito contemporânea. Você vê o mundo aí estourando o tempo inteiro, as mulheres-bomba. O instinto de liberdade antecede o instinto de sobrevivência. É isso que eu quero dizer através de Antígona. A lei não escrita é o instinto, está no DNA. Já o Creonte, ele é das regras, quer regular. Ele está certo no seu erro, no erro dos homens, na falácia. Ele representa todas essas leis que estão aí, o Congresso, os acordos que contrariam o instinto superior do homem, que é a liberdade.
Folha - Quando Creonte discursa preocupado com os rumos de Tebas...
Antunes Filho - Há um certo altruísmo nisso...
Folha - Ele está preocupado com as raízes amaldiçoadas da família de Antígona, fala em preservar a nação.
Antunes Filho - Ele está preocupado com as responsabilidades, mas esse altruísmo é perigoso, é assassino. Os grandes fascistas que existem no mundo são altruístas, de certa maneira. Tenho medo de qualquer tipo de altruísmo.
Folha - O mausoléu cenográfico é, ao mesmo tempo, o espaço da morte, da memória e do museu?
Antunes Filho - É tudo isso. E também o espaço do inconsciente, do porão. Não é acrópole [local mais alto das antigas cidades gregas], é necrópole [cemitério].
É bonita essa idéia de que Baco está sempre representando em "Antígona", retirando as pessoas dos seus caixões e lhes dando vida para representar. São os arquétipos. Eu gosto muito da sirene que ele dispara. É um alerta. "Gente, acorda, acorda, estamos em perigo!" É uma espécie de despertador. Já usei isso em "Nelson Rodrigues, o Eterno Retorno" [81].
Folha - Aliás, há vários signos que retornam em sua obra. Como a movimentação do coro, o uso de chapéu, os caixões...
Antunes Filho - A turma fala das minhas marcas. Adoro guarda-chuva, por exemplo [foi descartado em "Antígona"]. Não o uso apenas como elemento estético, mas dramático, psicológico. Eu gosto de abafar o drama, pôr em ebulição. Dá mais intensidade interior. Não é por esteticismo babaca.
Folha - Você diz que quer fazer "Antígona" para a molecada. Como pretende sincronizar o tempo acelerado do jovem com o clássico?
Antunes Filho - Quero que o jovem se interesse. Não cortei uma metáfora, não soneguei nada. Vai ser ótimo. Ele vai ver Creonte de um lado e Antígona de outro. São duas línguas. É a verdadeira dialética que o jovem precisa aprender. Os valores estão aqui e lá. Não é falar: "Isso está certo, isso está errado". Pode até torcer por um lado, mas tem que ser dialético. Eu não consigo fazer uma coisa que não tenha um profundo sentindo humano. A discussão sobre a aventura humana, isso me interessa, eu gosto. Fora disso, é bobagem.
Folha - Você sempre bateu na tecla da voz em cena. Qual o estágio?
Antunes Filho - É uma questão técnica dos atores. Eles são flautas falando a língua portuguesa, que é tão bonita. A tragédia é "mélos", você não concebe tragédia sem melodia, sem música. A língua portuguesa é muito maltratada. Criamos uma série de exercícios para chegar onde estamos. Isso pode ser chamado de método, mas não quero consagrá-lo, quero que o método se dane. É muito mais importante os atores terem uma cultura de futuro, porque vou morrer uma hora e eles é que têm que passar isso adiante. No Brasil, sempre se falou da cultura da projeção de voz. Não quero mais a projeção, quero a ressonância.
O que você acha mais importante, um espetáculo meu ou esse tipo de cultura que dou aos atores? As pessoas cobram uma coisa, eu estou em outra. O espetáculo acaba, tchau. A cultura fica.
Folha - "Fragmentos Troianos" [99], "Medéia" [2001/2002] e agora "Antígona". Essa trilogia foi traçada intencionalmente? A primeira tinha como pretexto o crescimento dos conflitos étnicos; a segunda retratou a potência da mãe natureza diante das devastações causadas pelo homem...
Antunes Filho - E esta fala de liberdade. No final, os atores vão fazer o agradecimento com a "Nona Sinfonia", de Beethoven. Eu não tinha traçado isso. Queria era sair do complexo de inferioridade que nós, brasileiros, temos no teatro. Podíamos fazer teatro, menos tragédia, porque não sabíamos. Não temos cultura trágica, como fazer? Tanto que comecei a ensaiar diversas vezes, com elenco bom, e não saía do lugar porque a voz emperrava. Devagar, com os anos, fomos aprendendo. "Fragmentos" ainda era um drama. O fato em si era trágico, mas a forma, não. "Medéia" foi mezzo alichi, mezzo mozarela, mas já tendia para a tragédia. Com "Antígona", eu digo, puxa vida, é agora: acho que já dá para dar um passo, sair do meu complexo brasileiro de inferioridade cultural.


Fonte: Folha de S. Paulo, 19 de maio de 2005.

Quarta-feira, Junho 22, 2005


Oiticica e uma de suas artes Posted by Hello

Parangolés

PARANGOLÉ
Por Hélio Oiticica

Nova Objetividade seria a formulação de um estado da arte brasileira da vanguarda atual, cujas principais características sao: 1 – vontade construtiva geral; 2 – tendência para o objeto ao ser negado e superado o quadro do cavalete; 3 – participação do espectador (corporal, táctil, visual, semântica etc.); 4 – abordagem e tomada de posição em relação a problemas políticos, sociais e éticos; 5 – tendência para proposições coletivas e conseqüente abolição dos “ismos” característicos da primeira metade do século na arte de hoje; 6 – ressurgimento e novas formulações do conceito de antiarte.

Antiarte – compreensão e razão de ser o artista não mais como um criador para a contemplação mas como um motivador para a criação – a criação como tal se completa pela participação dinâmica do “espectador”, agora considerado “participador”. Antiarte seria uma completação da necessidade coletiva de uma atividade criadora latente, que seria motivada de um determinado modo pelo artista: ficam portanto invalidadas as posições metafísica, intelectualista e esteticista – não há a proposicao de um “elevar o espectador a um nível de criação”, a uma “metarrealidade” ou de impor-lhe uma “idéia” ou um “padrão estético” correspondentes àqueles conceitos de arte, mas de dar-lhe uma simplesoportunidade de participação para que ele “ache” aí algo que queira realizar...

Programa ambiental – a posição com referência a uma ‘ambientação’ e à conseqüente derrubada de todas as antigas modalidades de expressão: pintura-quadro, escultura etc., propõe uma manifestação total, íntegra, do artista nas suas criações, que poderiam ser proposições para a participação do espectador. Ambiental é para mim a reunião indivisível de todas as modalidades em posse do artista ao criar – as já conhecidas: cor, palavra, luz, ação, construção etc., e as que a cada momento surgem na ânsia inventiva do mesmo ou do próprio participador ao tomar contato com a obra.Posição ética – já afirmei e torno a lembrar aqui: o meu programa ambiental a que chamo de maneira geral Parangolé não pretende estabelecer uma “nova moral” ou coisa semelhante, mas “derrubar todas as morais”, pois que estas tendem a um conformismo estagnizante, a estereotipar opiniões e criar conceitos não criativos. A liberdade moral não é uma nova moral, mas uma espécie de antimoral, baseada na experiência de cada um: é perigosa e traz alguns grandes infortúnios, mas jamais trai a quem a pratica: simplesmente dá a cada um o seu próprio encargo, a sua responsabilidade individual; está acima do bem, do mal etc.

Terça-feira, Junho 21, 2005


Primeira Semana do Orgulho de Ser / Quarta Parada da Diversidade.
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PICASSO, Guernica.Tempos de uma guerra silenciosa.
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Quinta-feira, Junho 16, 2005

Algumas Reflexões sobre Cultura e Teatro Circo Negro



Algumas Reflexões sobre Cultura e Teatro Circo Negro

A Associação de Teatro Circo Negro tem se empenhado para conhecer e participar da construção dessa arte viva e dinâmica da cultura piauiense. Procura, primeiramente, demonstrar que as separações e fronteiras entre as artes no Piauí vêm servindo para construir um muro de desrespeito e segregação das artes – aquela qualificada e de bom gosto e, do outro lado, uma arte menor e ignorada pela maioria. No mesmo sentido defende o princípio que as artes são uma expressão livre da passagem humana pelo tempo: conhecer suas mais variadas manifestações é compreender o próprio homem.

Assim, no ano de 2001, inovou as artes piauienses com um projeto ousado – a Galeria Geração Pós-69. Esta foi uma grande galeria de artes ao céu aberto (Praça Pedro II, todo sábado pela manhã), onde eram apresentados espetáculos teatrais, exposições de artes plásticas, números musicais com artistas da terra, mostras de artesanato local, lançamento de periódicos artísticos (a revista de cultura Pulsar e o jornal de teatro Bastidor – uma publicação sua) e, por fim, uma pequena biblioteca infantil.

No sentido de dar continuidade ao seu trabalho de educação e divulgação das produções artísticas piauienses, criou o projeto PIAUÍ COM ARTE em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses na medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Eram previstas quatro oficinas teatrais, três apresentações de peças em praça pública e a realização de um censo artístico (registro dos artistas – atividades, técnicas, tempo de trabalho, demandas etc.).

O seu princípio norteador era: “não queremos ensinar os piauienses a fazer arte. Contrários a esta postura etnocêntrica, procuramos dialogar com os piauienses a partir da atividade artística”. Todo homem tem algo a dizer sobre as diversas atividades e coisas que o rodeiam. Sua pedagogia, tendo em vista essa verdade, procurava construir com os participantes uma nova sistematização dos nossos saberes e experiências artísticas.

Promoveu mensalmente durante o ano de 2003 o Sarau Geração Pós-69 onde homenageou os seus escritores (Paulo Machado, Airton Sampaio, Rogério Newton, Rubervan du Nascimento, Marleide Lins, William Melo Soares, entre outros) e, ao mesmo tempo, promoveu a crítica literária dos mesmos por meio de palestras. Também mensalmente, desenvolveu o projeto Teatro-Imagem – um outdoor vivo onde buscava-se demonstrar toda a força e polissemia da expressão teatral no Balão das Três Raças (avenida Petrônio Portela).

Hoje essas atividades se multiplicam: montagem de peças teatrais, construção de circuitos alternativos de apresentações, projeto “casca-verde”, produção de documentários, assessoria a movimentos sociais, pesquisas sobre artistas piauienses etc.
Assim entendemos nosso teatro: um teatro que não se vê tão somente como teatro, mas como um movimento cultural que agrega possibilidades, discute história, transforma o cotidiano, educa homens, sonha com o presente e que pretende através de ações.


TORQUATO TORTO, dirigido por Luciano Melo, quinta-feira, no Campus Poeta Torquato Neto.
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PAULO MACHADO, Teresina, 1974.
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Quarta-feira, Junho 15, 2005

O Que é Arte?


O Que é Arte?


A arte transcende, atravessa os tempos e se torna algo tão valioso e fantástico que não podemos perceber quanto tempo ela levou para ser formar e adquirir este contexto.

A arte não se apresenta em todas as culturas, entretanto cada cultura possui uma maneira muito específica de criá-la.

A arte é uma manifestação humana criada com a essência e inspiração de seu momento, ultrapassando a história e as sociedades. E isto se deve pelo fato de que sabemos identificá-la e nomeá-la.

A idéia de transcendência da arte é nossa, sem nós ela não existe. O absoluto da arte é relativo à nossa cultura.

A percepção dos que contemplam a arte, o público que é obrigado a entender um objeto artístico, é o mesmo que vai decidir o que é arte e o que não é.

Através de sua concepção de que a arte é aquilo que pode ser conceituado e convencional, intitula-se de antiarte o que fugir desta regra. E mesmo assim não é desmerecedor de contemplação, por provocar "sentimentos" no espectador.

Duchamp, nos mostra um lado negativo dessa contemplação, por deixarmos de ver um objeto com os olhos limpos da percepção artística, a sua finalidade essencial foi esquecida. Quando olhamos uma máscara africana – exemplo dado por Duchamp – não percebemos mais o seu lado fantástico, mágico, para o qual foi confeccionada pelos africanos, nos restringimos a tentar desvendar a sua essência artística.

O que temos nos museus são objetos "secos" que perderam todo o seu contexto e finalidade primeira, a partir do momento que deixaram seus lugares originários, aonde se encontravam inicialmente, pois a princípio foram feitas para um único fim.

Jean Renoir, nos mostra que mesmo com todos os cuidados de restauração e de conservação de uma obra de arte, ela tende a desaparecer, pois os elementos que a compunha inicialmente foram transformados, soterrados por camadas de verniz, cimento, resina e outros artifícios que são usados para se "manter" um objeto artístico, mais uma vez a essência foi modificada.

Em relação a esta idéia, surge uma dúvida, o que realmente temos em nossa frente quando vemos uma obra "recuperada"? Não seria uma nova peça? Pois se analisarmos do ponto de vista que o tempo muda o estado natural de tudo, não teríamos mais a obra inicial e sim uma outra, totalmente diferente da primeira.

Além desse, o mundo da arte convive com um outro problema, talvez mais assustador, a falsificação.

Existiu um professor primário escocês, chamado James MacPherson, Segunda metade do século XVIII, que escreveu os Cantos de Ossian, que influenciaram os artistas mais renomados de várias gerações, mas como estas pessoas se deixaram enganar tão facilmente?

A resposta é simples, os cantos correspondiam aos anseios das pessoas daquela época, ou seja tinha-se o que se queria ver e ouvir, correspondendo as expectativas de todos.

E é através desse acontecimento que concluímos que as falsificações possuem um grande fascínio, pois a habilidade de enganar os mais importantes peritos, merece, de certa forma, nosso respeito.

É difícil encontrarmos um conceito único e concreto para arte, depois de analisarmos vários fatores que a compõe e como tão complexo é resumir todos estes acontecimentos que a envolve. Contudo a arte, por ela mesma, já diz tudo. Não é necessário estudá-la profundamente para entendermos o que uma obra quer dizer, basta apenas ver os olhos do coração, desprovidos de qualquer racionalidade e deixar-se envolver pela emoção.

Associação de Teatro Circo Negro - ATCN

Sábado, Junho 11, 2005


SABRINA OITICICA, mem�ria iconogr�fica (Diana Arbus.A Young Man in Curlers at Home on West 20th. Street, New York City, 1966).

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Sabrina Oiticica

Uma palestra ou uma pequena palavra


Gostaria de contar-lhes uma história. Sim. Peço licença a vocês para fugir à regra e não me expor enfaticamente ou com uma retórica cheia de anedotas ou digressões biográficas. Apenas peço, com uma humildade que não é uma das minhas maiores virtudes (devo confessar), que ouçam uma história com uma atenção maior daquela dedicada à sala de aula. Garanto-lhe, desde já, que não será uma perca total de tempo.
Como toda história tida como boa, precisamos de um bom personagem: um ser conflituoso que percorre um tempo de sua vida em buscas constantes. Pois bem, nossa protagonista chama-se Sabrina Oiticica. Seu sobrenome não lhe é próprio. Tomou-o emprestado depois de conhecer um livro sobre a obra do artista plástico Hélio Oiticica. Este, dizem, inovou as artes plásticas brasileiras nas décadas de 60 e 70 com suas instalações, parangolés e outras coisas mais.
O primeiro nome também não é seu. Adorava assistir, quando criança, a um seriado da televisão norte-americana que aqui recebeu o nome de “Sabrina, a feiticeira”. Como toda experiência marcante da infância, batizou-se Sabrina Oiticica. Assim fulgurava seu nome no luminoso da boate Fênix quando fazia sua primeira aparição como transformista.
Sim. Nossa personagem é uma “bicha” ou, como preferirem, um homossexual.
Já que estou fazendo esse esclarecimento, lembro que esta história não relata um mal-sucedido caso de amor tampouco procura trazer para a ficção o relato da vida difícil de um cidadão marginalizado. Esta ficção reflete um convite de boa hora para tratar sobre alguns possíveis interesses de um estudante de turismo naquilo denominado: “produção artística e suas possíveis políticas de apoio cultural”. Desse convite nasceu uma sincera inquietação e, dela, muitas idéias e essa singular narrativa (ponto)
Sabrina Oiticica não teve uma boa estréia, apesar do seu afinco e de sua vontade ingênua de acertar. Durante sua apresentação ouvira um berro forte – “sai daí, viado!”. Seu coração apertou, as mãos tremeram como jamais experimentara, seus pés diminuíram a ponto de perder o equilíbrio várias vezes...
- Oh, dor! Oh, dor! Oh, dor!
Não dormiu naquela noite.
Após cochilar alguns minutos, procurou seu livro de história. Passou os olhos por algumas páginas. Chamou-lhe atenção a fotografia de uma escultura grega – um homem enlaçado nos braços de uma mulher cobertos por uma pequena facha de tecido. Abaixo constava uma nota que esclarecia que aquela escultura era um belo exemplo da arte grega.
Encantou-se com tal imagem. A simetria dos traços, a harmonia das formas, a naturalidade dos corpos desnudados, a ausência de olhares românticos, tudo era novo e surpreendente naquela manhã. Seu primeiro impulso foi inscrever-se no vestibular para o curso de educação artística. Aprender todas as artes conhecidas. Decifrar o enigma das cores, a harmonia dos sons, o desenho dos corpos, os contornos da alma humana. Como tudo lhe pareceu tão possível e pleno!
Levantou-se animada. Arrumou-se e foi receber seu pagamento pelo trabalho da noite não-dormida.
- Você está de parabéns, Sabrina! Seu número foi muito elogiado e gostaria que continuasse apresentando-se na Fênix.
De início recuou, mas, lembrou que precisava estudar, vestibular, universidade, livros, arte. Pela arte seria capaz de fazer tudo. Tudo mesmo, inclusive enfrentar aquele palco quantas vezes fosse necessário. Seria sua forma de catarse. Toda artista precisa de uma provação espiritual.
Historia da arte.
Estética hegeliana.
Shakespeare.
Da Vinci.
Cubismo.
Tudo foi tomado como a mais valiosa das lições. Passou a freqüentar galerias, teatro, cinemas de arte, concertos, livrarias. E nos livros, sim, nos livros, conheceu a verdade:
“O elemento condutor e criador do artista é a intuição, e, como disse certa vez Klee, ‘em última análise a obra de arte é intuição, e a intuição não poderá ser superada’”.
“Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições de pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.”
“No Piauí, atualmente, a composição do Conselho Estadual de Cultura é regida pelo art. 230 da Constituição Estadual. Trata-se de uma forma aparentemente democrática, mas não foge ao modelo que possibilita a submissão do colegiado às diretrizes estabelecidas pelo Estado, para a execução de uma política cultural. Nesse sentido, o Conselho Estadual de Cultura, no Piauí, tem mantido um injustificável distanciamento das forças produtivas da sociedade civil e uma comprometedora aproximação dos Poderes Públicos, o que descredencia o órgão da função de representante das legítimas manifestações culturais piauienses e o caracteriza, repita-se, como aparelho de controle ideológico do Estado. Devido a isso, os cidadãos piauienses, mesmo os mais conscientes e razoavelmente informados, não têm conhecimento das realizações do Conselho Estadual de Cultura, porque estas não interferem nos espaços sócio-culturais da comunidade piauiense.”
“A arte, em sua dimensão de autonomia e pelo seu caráter desinteressado, não se acomoda ao sempre dado, projeta novas apreensões de sentidos e, imanentemente, busca estabelecer rupturas em relação às formas acomodadas de percepção, imaginação, entendimento.”
“É certo que a arte se tornou um comércio. Pode sonhar-se sempre com sociedades em que a arte seja apenas arte – cultura, lazer, integração e alienação ao mesmo tempo, no interior de uma dinâmica aparentemente paradoxal. Resta apenas saber se os sonhadores poderiam escapar deste universo capitalista sem ver cair a arte entre as mãos de funcionários sujeitos a valores que são políticos antes de serem sociais...”
“Por que se dá tão pouco espaço para a arte na educação?”
“Arte é texto. É comentário sobre o tempo e a vida, que toma o corpo de uma escritura, tão subjetiva como o próprio alfabeto. Arte é hieroglifo, forma que clama sentido e sensibilidade (...) Por isso, privar-se da arte é também uma forma de analfabetismo. Ao referir-se à privação da leitura, a escritora sul-africana Nadine Gordimer afirma que dela ‘deriva o isolamento de outras formas de cultura, essenciais ao direito humano de desenvolver plenamente o potencial de cada pessoa para a vida’.”
Faltavam dois meses para sua formatura. Imaginou tantas possibilidades: inaugurar uma exposição de arte contemporânea, montar uma exposição itinerante para deslocar-se pelos bairros da periferia, com a participação dos formandos proferindo pequenas palestras, criação de instalações vivas com os próprios formandos durante a solenidade de colação de grau, colar grau no museu de arte moderna, diplomas personalizados com a assinatura de cada formando... Tudo era tão possível, divino, maravilhoso.
Contudo, sua poupança de anos de esforço havia desaparecido pela ação vil e impiedosa de seus governantes em mais uma versão de plano econômico. Como não deixar que suas idéias se reduzissem à condição intangível de mais um sonho?
– Essa é uma das grandes mazelas do artista brasileiro! Desabafou em prantos frente à televisão.
Faltou à boate, afinal de contas, seu grande desejo de ser artista, sua nova oportunidade de vida estava fugindo entre seus dedos. E velou seu projeto terminal a noite inteira. Orava, chorava, lamentava, desesperava ava ava ava
Quando o barítono da madrugada cantou a primeira vez, o telefone tocou. Não quis atender temendo más notícias. Tocou novamente. Relutou. Mais uma vez tocou.
- Alô.
Sorriu. Sua formatura ocorreria como planejara.
E realmente foi inesquecível. Digna de constar nas páginas da história da arte brasileira. Talvez não. Mas na história dos cursos de educação artística não tinha dúvida.
No dia após, acordou cedo. Deveria preparar-se para seu último trabalho como transformista. Depilou-se. Hidratou sua pele. Exercícios de alongamento. Massagens na face. Reviu os vídeos várias vezes. Cantou. Sonhou. Reviu o desenho de todos os movimentos. Respirou a partir dos poros. Desenhou metáforas com seu quadril. Desfilou seus infinitos sorrisos. Seu queixo suspirou como nunca. Cantaralou com seus dedos e mãos. Investigou o tempo com seu repertório de olhares. Gracejou com os ombros como Rita Heyorth. Voou entre pernas e saltos. Murmurou delícias com seus lábios desventurados. Engravidou o espaço com seus giros...
- Não posso me despedir de melhor modo! Finalizou em frente ao espelho com seu azul-mar longo.
Era a primeira parada gay paulista. Sabrina Oiticica vinha à frente num trio elétrico improvisando uma pista de dança expressionista. As luzes brincavam com as cores de seu vestido como o se sol do agosto teresinense quisesse pôr-se inúmeras vezes. Seu sorriso confundia-se com a magia das cores e sons. Seu braço acenava com o magnetismo daquele nosso tirano de bigodinho. Seu busto refletia virtudes nunca antes vistas. Rodopiava como diva...
E caiu como um saco de cimento. Um tiro acertara-lhe fatalmente seu peito.
As lembranças de Hélio Oiticica são muitas. Sabrina, a feiticeira, jamais será esquecida por toda uma geração. De Sabrina Oiticica restam apenas algumas fotos perdidas e uma epígrafe mal esculpida:
Agora não se fala nada
Toda palavra guarda uma cilada
E qualquer gesto é o fim no seu início...
Por Luciano Melo


Cena do filme "Os Amores de Teresa", do diretor Chiquinho Pereira.
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80 ANOS DE SURREALISMO: HANS BELLMER.Os desenhos de Bellmer apresentam uma estranha e perturbante contiguidade com os pressupostos da do Surrealismo�suprema



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Sexta-feira, Junho 10, 2005

Cahuaham é Circo Negro na UESPI


Cahuaham é Circo Negro na UESPI

A ação persistente e corajosa de homens que amam as artes e o Piauí deu nova cria – o teatro cahuaham. Trata-se um grupo de teatro que conta com a participação de alunos da universidade estadual e da comunidade teresinense. O mesmo almeja trabalhar em três dimensões: primeiramente, desenvolver um trabalho estético (pesquisa de linguagens e montagem de espetáculos); segundo, formação de atores; terceiro e principal, pesquisar a identidade cultural piauiense.

Assim define seu diretor geral, o também professor Luciano Melo: “acredito que a arte pode e deve buscar um meta-sentido e não simplesmente a criação artística e descoberta de novas técnicas: pesquisar e afirmar a identidade cultural de nosso povo. Essa arte deve estar a serviço da construção histórica da sociedade piauiense assim como o teatro grego antigo. Por outro lado, as artes cênicas podem sintetizar as preocupações dos homens e de seu tempo à maneira de Brecht”.

Como bem descrita pelo poeta piauiense Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, a impávida ave “cauhaham” enfrenta cascavéis e as esmaga pela cabeça e o teatro cahuaham pretende enfrentar a ignorância e o desafio estético para construir uma arte que ame honestamente nosso povo e nossa terra. Como um bando de “cahuahams” que, se forças unidas para atacar o inimigo ainda não possuem, bradam e esbravejam até que a coragem e o grupo seja o bastante, o teatro cahuaham é, por essência, uma arte do coletivo piauiense.
Dessa maneira, a condução de seus trabalhos de pesquisa e criação parte do envolvimento de todos os seus membros: pesquisas são feitas, seminários são ministrados, palestrantes convidados, aprendizagem de técnicas de interpretação etc. O artista de teatro é percebido como homem histórico, estético, cultural e político. A prática criteriosa da formação continuada é essencial na construção desse teatro onde o homem coletivo é sua razão e não o pequeno e frágil e fugaz homem narcísico.

Não houve seleção para definir os atores de seu elenco. O próprio trabalho de formação seleciona naturalmente os seus participantes, pois, contrariando a visão ingênua ou tacanha, teatro é arte, logo, trabalho árduo de estudo e criação. Assim, o grupo está sempre aberto para a participação de novos membros, estudantes ou não da UESPI.

E o primeiro trabalho do teatro cahuaham busca reconstruir a memória de um ilustre desconhecido da historiografia oficial piauiense – o poeta, cientista e revolucionário Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco. Nascido em 1789 e falecido na fazenda Barro Vermelho, 1874.“Liderou a Marcha Popular Pró-independência que resultou na Batalha Campal do Jenipapo, em 13 de março de 1823. Foi preso, processado e condenado à pena de prisão perpétua, para cumprimento em Lisboa-Portugal. Principais obra poéticas publicadas: O Ímpio Confundido (1835...); O Santíssimo Milagre (editado em duas versões, uma erudita e outra popular – 1839); A Criação Universal (1856), que constituem a tríade épica da Literatura Brasileira de Expressão Piauiense” (Revista Pulsar, 2002-2003, p. 19).

Sexta-feira, Junho 03, 2005

"A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica", de Walter Benjamin

"A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica", de Walter Benjamin

Walter Benjamin, em "A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica", exibe a evolução da reprodutibilidade da arte. Abordando as formas de reprodução, como a xilografura e a litografia, desempenhadas por artesãos, mostra que na fotografia o processo de cópia cabia agora ao olho, e não às mãos.

O que não está contido na reprodução é o "aqui e agora" da obra autêntica, banalizando o singular, pois quando uma obra passa a ser multiplicada, sua existência se torna serial e não única.

Essas novas técnicas de reprodução alteram o caráter da obra de arte. Se de alguma forma a obra de arte sempre foi reprodutível, o fato é que a cópia já não é vista como imperfeição ou falsidade. A possibilidade de reproduzir indefinidamente uma obra - processo que começara com a xilogravura e atingira seu ápice com o cinema - torna obsoleta a idéia de cópia.

Aura, uma figura singular, tem seu conceito abalado pela reprodução de imagens (como a fotografia e o cinema). A reprodutibilidade seria o fim da arte aurática, do culto ao objeto único e da autenticidade. A obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser reproduzida.

Como o cinema foi feito para a reprodução, para o coletivo, o impacto sobre o conceito de unicidade da obra é colocado em questão. Para Benjamin, isso é algo positivo, visto que ele afirma que o cinema aumenta a possibilidade de libertação da arte, desmascarando a ideologia elitista.

A mudança pela qual passa a obra de arte faz com que ela se aproxime dos espectadores por conta de seu poder de reprodução. Aumenta seu valor de exposição. A obra de arte perde, assim, sua aura.

A fotografia supera o valor de culto, pois nunca as obras de arte foram tão reprodutíveis como hoje. Se a fotografia e o cinema foram o primeiro abalo na idéia de autenticidade artística, a internet a destrói de vez. Uma obra de arte criada para a rede é infinitamente reproduzível.

Como toda forma de arte conhece épocas críticas, é necessário abordar o movimento dadaísta, que tentava atingir o objetivo de inviabilizar qualquer contemplação pela desvalorização sistemática. Com isso, teria favorecido o aparecimento dos efeitos que o público procura no cinema.

ATCN

Cahuaham, novas compreensões teatrais


Cahuaham, novas compreensões teatrais

É difícil falar em teatro sem se fazer menção à literatura. Ambas as artes estão intimamente ligadas, numa relação cumpliciosa.

O teatro está inserido na literatura como gênero dramático, ou simplesmente drama. Ele nasce de um texto literário já estruturado para a encenação teatral ou de um que se adapte a ela.

Porém, embora o texto literário tenha sua importância para a criação da mise-em-scéne, é o teatro que o transforma em espetáculo. É o teatro que lhe dá vida.

Sendo assim, o texto literário, ou melhor, a literatura, em se tratando de gênero dramático, só alcançará sua realização plena, mediante a encenação no palco. Aristóteles já dizia em sua Arte Poética que a arte imita “os caracteres e as ações e, entre as instituições, o drama (o gênero dramático), melhor que outra, reproduz a ação”. E, Bertold Brecht, complementa dizendo que o teatro produz a reflexão sobre os atos das personagens através de seus tipos humanos.

Literatura e teatro possuem singularidades que se assemelham. Ao se ler um texto literário, seja ele narrativo ou lírico, construímos, através da leitura de uma linguagem verbal apresentada, toda uma encenação mental: criamos personagens; damos vida a eles; colocamo-os em espaços e tempos, conforme a nossa a imaginação criadora, compactuada com a do autor. Em outras palavras, damos asas aa imaginação.

No teatro, é quase igual, a diferença é que a linguagem apresentada ao leitor/espectador extrapola o verbal e o ato imaginário é compartilhado com o diretor e o elenco da peça. O caráter, o pensamento, a ação dada pelo autor da obra literária a seus personagens ganham vida na mão dessas pessoas, ajudando na interpretação do leitor/espectador. Espaço, tempo e o cenário da obra literária permanecem ou podem adquirir novas roupagens na mão do autor da peca teatral, já que a literatura e teatro apresentam linguagens diferentes. Daí, não se poder exigir fidelidade total do teatro ao texto literário.

Foi partindo dessa união feliz entre teatro e literatura, que o grupo Cahuaham se formou; na busca incessante de invadir o texto literário: decodificando-o;decifrando seus signos lingüísticos;vasculhando entrelinhas;descobrindo o não-dito; procurando o tempo do seu discurso e sua intencionalidade. Tudo isso para proporcionar aos olhos do leitor/espectador outra leitura possível na obra através da ótica enigmática do teatro.

É uma forma de acumular conhecimento e de se fazer valorizar as duas formas de arte: literatura e teatro, aguçando o paladar do publico. É a forca da ave que leva o nome do grupo, matando a serpente da ignorância e a transformando em adubo para a semente de uma nova forma de conhecimento.

Por Lia Carvalho

Quinta-feira, Junho 02, 2005

Leituras Substantivas


ECCE HOMO

PRÓLOGO

Não pretendo erigir novos ídolos; basta-me que os antigos aprendem comigo o que significa ter pés de barro. (32)

POR QUE SOU TÃO SÁBIO?

(...) a compaixão tem o nome de virtude somente entre os decadentes. (42-43) Quem cala, falha sempre em finura e gentileza de ânimo; o calar é um pretexto; guardar consigo a injúria é formar necessariamente um péssimo caráter, arruinando de vez o estômago. Todos aqueles que silenciam sofrem do estômago. (43-44) Minha prática de guerra pode ser resumida em quatro proposições. Primeira: eu ataco somente as coisas vitoriosas; ou espero até tal se tornarem. Segunda: ataco somente as coisas as quais não poderia encontrar companheiros onde estou só, onde sou o único a comprometer-me... Nunca articulei um passo que não me comprometesse: isto é (segundo o meu modo de ver), em que não me fosse dado agir corretamente. Terceira: não ataco nunca as pessoas; sirvo-me delas como duma possane lente de aumento com que se pudesse tornar visível algum mal comum mas oculto, difícil de ser pesquisado. Quarta: eu ataco somente as coisas das quais me exclui qualquer antipatia pessoal, para as quais me falta todo e qualquer sedimento de esperanças tristes. (46-47)

POR QUE SOU TÃO INTELIGENTE?

Prezar tanto mais uma coisa fracassada, justamente porque fracassou: a isso se reporta, de modo especial, a minha moral. (50) Deus é uma resposta rude, uma indelicadeza contra nós pensadores; antes, dizendo-se a verdade, não é senão um tosco impecilho contra nós mesmos: não deveis cogitar dele! (50) Desde uma idade absurdamente jovem, aos sete anos, eu sabia que nenhuma palavra humana não seria passível de tocar-me; alguém me viu triste devido a uma palavra huamana? (65) Não basta "suportar" o que é necessário, e muito menos desprezá-lo - todo o idealismo é uma mentira diante da necessidade; deve-se amá-lo... (66)

POR QUE ESCREVO LIVROS TÃO BONS

Eu sou o anti-Cristo por excelência e, portanto, um monstro de importância histórica: em grego, e não somente em grego, sou o Anticristão... (70) É necessário estar-se bem seguros de si mesmos, bem firmes nas pernas, pois do contrário não se pode absolutamente amar. (73) A mulher é infinitamente mais má do que o homem; e é também mais prudente; a bondade, na mulher, já é uma forma de degeneração. (73) O amor - nos meios é a guerra, na essência o ódio mortal dos sexos. (74) Pregar a castidade é um incitamento público a atos contra a natureza. O desprezo da vida sexual, inculcá-lo com o conceito de "impureza", é um verdadeiro delito contra a vida, constitui um veradeiro pecado contra o espírito santo da vida. (74)

O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA

O conhecimento, a afirmação da realidade é para o homem forte uma necessidade; do mesmo modo, para o débil, precisamente, por causa da fraqueza, são necessárias a velhacaria e a fuga diante da verdade, isto é, o "ideal". (78)

Nietzsche, Friedrich. Ecce Homo. Martin Claret, São Paulo - 2000, 125 páginas.

Quarta-feira, Junho 01, 2005

O Tropicalismo segundo o Cahuaham

TROPICALISMO E TORQUATO: CONHECER PARA COMPREENDER

Desde o início da década de 60, a cultura brasileira passava por uma intensa agitação na busca de engajamento político que começou com os Centros Populares de Cultura (CPC), criados por estudantes que procuravam aproximar a arte das massas.

Na música, as canções de protesto encontraram palco nos grandes festivais organizados pela TV Record de São Paulo, a partir de 1965. Foi em um destes festivais – o III Festival da Música Popular Brasileira, em outubro de 1967 – que surgiu o Tropicalismo, cujas palavras de Gilberto Gil sintetizariam a despretensão inicial de criação de um movimento: “O tropicalismo surgiu mais de uma preocupação entusiasmada pela discussão do novo do que propriamente como um movimento organizado.”

Assim como o cubismo – um dos movimentos das vanguardas européias – o tropicalismo encontrou seu nome por acaso. Gil teria dito: “Na verdade, eu não tinha nada na cabeça a respeito do tropicalismo. Então a imprensa inaugurou aquilo tudo com o nome de tropicalismo.”

Para o que se denominava MMPB (Moderna Música Popular Brasileira) na época, as canções que deflagraram o movimento – Alegria, Alegria, de Caetano Veloso e Domingo no Parque, de Gilberto Gil – eram, no mínimo, inusitadas, provocando ‘estranhamento’ num público consumidor - constituído em sua maioria de universitários - acostumado a canções em que notoriamente se reconhecia uma postura política e participante ou certo lirismo, letras que obedeciam a uma seqüência narrativa lógica, declarações de posição frente à miséria e à violência e arranjos musicais coerentes, comportados e tradicionais.

A irreverência tropicalista estava baseada no rompimento da idéia de que a canção devia se limitar apenas a dois elementos: letra e música. Agora todo um conjunto se mostrava significativo: as letras, quebrando com a estrutura linear do texto; os arranjos musicais, provocando uma mistura de tipos singulares que aproveitavam até ruídos e sons do cotidiano das grandes cidades; a vocalização e a entonação; a apresentação em si no palco; os gestos, a postura, o figurino e o estilo dos integrantes; tudo era relevante para o entendimento da canção que, em um primeiro momento, mostrava-se despretensiosa, sem cunho político e/ou social.

Os tropicalistas também, fazendo uma analogia ao movimento antropofágico, deglutiam toda cultura existente: do arcaico ao moderno, da cultura ao que era considerado contra-cultura, do nacional ao estrangeiro, nada escapava de ser reaproveitado e reelaborado em termos tropicalistas; fornecendo a concretização da chamada geléia-geral.

A intenção deste projeto irreverente era apresentar a realidade existente de uma forma desestruturada e desfocada – como na idéia de arte surrealista, dando a entender que a realidade vivida não passava de uma encenação caótica.

O disco Panis et Circenscis é a suma tropicalista do movimento que integra e atualiza o projeto estético e o exercício de linguagem tropicalistas. Fizeram parte do movimento, além de Caetano e Gil, Torquato Neto, Tom Zé e José Carlos Capinam.

Torquato Neto é, segundo Paulo Roberto Pires “ao mesmo tempo causa e conseqüência do tropicalismo. Participou ativamente do bota abaixo de valores estéticos e políticos promovidos por sua geração, mas deixou os companheiros de viagem quando eles, transformados em arquitetos e engenheiros, planejaram e ergueram para si um status artístico, literário e poético que garantiria por mais de trinta anos sua influência”.

A definição de tropicalismo seria dada por ele, no manifesto denominado Tropicalismo para principiantes, em 1968: “Assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido. Eis o que é.” Negar a participação dele no movimento tropicalista é negar o próprio movimento. Polêmico para alguns e ídolo para outros, ele é do tipo ‘ame-me ou deixe-me’. Prefiro amá-lo, deixando de lado a idéia de alguns que dizem não ter sido ele apreciador de sua terra e acreditando que foi justa e merecida a lei que determinou a mudança do nome Campus Pirajá da UESPI/Teresina para CAMPUS POETA TORQUATO NETO (sem querer desmerecer o crédito e prestígio dos outros tantos poetas e escritores piauienses).

Franceane Sousa, Teatro Cahuaham