Uma palestra ou uma pequena palavra
Gostaria de contar-lhes uma história. Sim. Peço licença a vocês para fugir à regra e não me expor enfaticamente ou com uma retórica cheia de anedotas ou digressões biográficas. Apenas peço, com uma humildade que não é uma das minhas maiores virtudes (devo confessar), que ouçam uma história com uma atenção maior daquela dedicada à sala de aula. Garanto-lhe, desde já, que não será uma perca total de tempo.
Como toda história tida como boa, precisamos de um bom personagem: um ser conflituoso que percorre um tempo de sua vida em buscas constantes. Pois bem, nossa protagonista chama-se Sabrina Oiticica. Seu sobrenome não lhe é próprio. Tomou-o emprestado depois de conhecer um livro sobre a obra do artista plástico Hélio Oiticica. Este, dizem, inovou as artes plásticas brasileiras nas décadas de 60 e 70 com suas instalações, parangolés e outras coisas mais.
O primeiro nome também não é seu. Adorava assistir, quando criança, a um seriado da televisão norte-americana que aqui recebeu o nome de “Sabrina, a feiticeira”. Como toda experiência marcante da infância, batizou-se Sabrina Oiticica. Assim fulgurava seu nome no luminoso da boate Fênix quando fazia sua primeira aparição como transformista.
Sim. Nossa personagem é uma “bicha” ou, como preferirem, um homossexual.
Já que estou fazendo esse esclarecimento, lembro que esta história não relata um mal-sucedido caso de amor tampouco procura trazer para a ficção o relato da vida difícil de um cidadão marginalizado. Esta ficção reflete um convite de boa hora para tratar sobre alguns possíveis interesses de um estudante de turismo naquilo denominado: “produção artística e suas possíveis políticas de apoio cultural”. Desse convite nasceu uma sincera inquietação e, dela, muitas idéias e essa singular narrativa (ponto)
Sabrina Oiticica não teve uma boa estréia, apesar do seu afinco e de sua vontade ingênua de acertar. Durante sua apresentação ouvira um berro forte – “sai daí, viado!”. Seu coração apertou, as mãos tremeram como jamais experimentara, seus pés diminuíram a ponto de perder o equilíbrio várias vezes...
- Oh, dor! Oh, dor! Oh, dor!
Não dormiu naquela noite.
Após cochilar alguns minutos, procurou seu livro de história. Passou os olhos por algumas páginas. Chamou-lhe atenção a fotografia de uma escultura grega – um homem enlaçado nos braços de uma mulher cobertos por uma pequena facha de tecido. Abaixo constava uma nota que esclarecia que aquela escultura era um belo exemplo da arte grega.
Encantou-se com tal imagem. A simetria dos traços, a harmonia das formas, a naturalidade dos corpos desnudados, a ausência de olhares românticos, tudo era novo e surpreendente naquela manhã. Seu primeiro impulso foi inscrever-se no vestibular para o curso de educação artística. Aprender todas as artes conhecidas. Decifrar o enigma das cores, a harmonia dos sons, o desenho dos corpos, os contornos da alma humana. Como tudo lhe pareceu tão possível e pleno!
Levantou-se animada. Arrumou-se e foi receber seu pagamento pelo trabalho da noite não-dormida.
- Você está de parabéns, Sabrina! Seu número foi muito elogiado e gostaria que continuasse apresentando-se na Fênix.
De início recuou, mas, lembrou que precisava estudar, vestibular, universidade, livros, arte. Pela arte seria capaz de fazer tudo. Tudo mesmo, inclusive enfrentar aquele palco quantas vezes fosse necessário. Seria sua forma de catarse. Toda artista precisa de uma provação espiritual.
Historia da arte.
Estética hegeliana.
Shakespeare.
Da Vinci.
Cubismo.
Tudo foi tomado como a mais valiosa das lições. Passou a freqüentar galerias, teatro, cinemas de arte, concertos, livrarias. E nos livros, sim, nos livros, conheceu a verdade:
“O elemento condutor e criador do artista é a intuição, e, como disse certa vez Klee, ‘em última análise a obra de arte é intuição, e a intuição não poderá ser superada’”.
“Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições de pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.”
“No Piauí, atualmente, a composição do Conselho Estadual de Cultura é regida pelo art. 230 da Constituição Estadual. Trata-se de uma forma aparentemente democrática, mas não foge ao modelo que possibilita a submissão do colegiado às diretrizes estabelecidas pelo Estado, para a execução de uma política cultural. Nesse sentido, o Conselho Estadual de Cultura, no Piauí, tem mantido um injustificável distanciamento das forças produtivas da sociedade civil e uma comprometedora aproximação dos Poderes Públicos, o que descredencia o órgão da função de representante das legítimas manifestações culturais piauienses e o caracteriza, repita-se, como aparelho de controle ideológico do Estado. Devido a isso, os cidadãos piauienses, mesmo os mais conscientes e razoavelmente informados, não têm conhecimento das realizações do Conselho Estadual de Cultura, porque estas não interferem nos espaços sócio-culturais da comunidade piauiense.”
“A arte, em sua dimensão de autonomia e pelo seu caráter desinteressado, não se acomoda ao sempre dado, projeta novas apreensões de sentidos e, imanentemente, busca estabelecer rupturas em relação às formas acomodadas de percepção, imaginação, entendimento.”
“É certo que a arte se tornou um comércio. Pode sonhar-se sempre com sociedades em que a arte seja apenas arte – cultura, lazer, integração e alienação ao mesmo tempo, no interior de uma dinâmica aparentemente paradoxal. Resta apenas saber se os sonhadores poderiam escapar deste universo capitalista sem ver cair a arte entre as mãos de funcionários sujeitos a valores que são políticos antes de serem sociais...”
“Por que se dá tão pouco espaço para a arte na educação?”
“Arte é texto. É comentário sobre o tempo e a vida, que toma o corpo de uma escritura, tão subjetiva como o próprio alfabeto. Arte é hieroglifo, forma que clama sentido e sensibilidade (...) Por isso, privar-se da arte é também uma forma de analfabetismo. Ao referir-se à privação da leitura, a escritora sul-africana Nadine Gordimer afirma que dela ‘deriva o isolamento de outras formas de cultura, essenciais ao direito humano de desenvolver plenamente o potencial de cada pessoa para a vida’.”
Faltavam dois meses para sua formatura. Imaginou tantas possibilidades: inaugurar uma exposição de arte contemporânea, montar uma exposição itinerante para deslocar-se pelos bairros da periferia, com a participação dos formandos proferindo pequenas palestras, criação de instalações vivas com os próprios formandos durante a solenidade de colação de grau, colar grau no museu de arte moderna, diplomas personalizados com a assinatura de cada formando... Tudo era tão possível, divino, maravilhoso.
Contudo, sua poupança de anos de esforço havia desaparecido pela ação vil e impiedosa de seus governantes em mais uma versão de plano econômico. Como não deixar que suas idéias se reduzissem à condição intangível de mais um sonho?
– Essa é uma das grandes mazelas do artista brasileiro! Desabafou em prantos frente à televisão.
Faltou à boate, afinal de contas, seu grande desejo de ser artista, sua nova oportunidade de vida estava fugindo entre seus dedos. E velou seu projeto terminal a noite inteira. Orava, chorava, lamentava, desesperava ava ava ava
Quando o barítono da madrugada cantou a primeira vez, o telefone tocou. Não quis atender temendo más notícias. Tocou novamente. Relutou. Mais uma vez tocou.
- Alô.
Sorriu. Sua formatura ocorreria como planejara.
E realmente foi inesquecível. Digna de constar nas páginas da história da arte brasileira. Talvez não. Mas na história dos cursos de educação artística não tinha dúvida.
No dia após, acordou cedo. Deveria preparar-se para seu último trabalho como transformista. Depilou-se. Hidratou sua pele. Exercícios de alongamento. Massagens na face. Reviu os vídeos várias vezes. Cantou. Sonhou. Reviu o desenho de todos os movimentos. Respirou a partir dos poros. Desenhou metáforas com seu quadril. Desfilou seus infinitos sorrisos. Seu queixo suspirou como nunca. Cantaralou com seus dedos e mãos. Investigou o tempo com seu repertório de olhares. Gracejou com os ombros como Rita Heyorth. Voou entre pernas e saltos. Murmurou delícias com seus lábios desventurados. Engravidou o espaço com seus giros...
- Não posso me despedir de melhor modo! Finalizou em frente ao espelho com seu azul-mar longo.
Era a primeira parada gay paulista. Sabrina Oiticica vinha à frente num trio elétrico improvisando uma pista de dança expressionista. As luzes brincavam com as cores de seu vestido como o se sol do agosto teresinense quisesse pôr-se inúmeras vezes. Seu sorriso confundia-se com a magia das cores e sons. Seu braço acenava com o magnetismo daquele nosso tirano de bigodinho. Seu busto refletia virtudes nunca antes vistas. Rodopiava como diva...
E caiu como um saco de cimento. Um tiro acertara-lhe fatalmente seu peito.
As lembranças de Hélio Oiticica são muitas. Sabrina, a feiticeira, jamais será esquecida por toda uma geração. De Sabrina Oiticica restam apenas algumas fotos perdidas e uma epígrafe mal esculpida:
Agora não se fala nada
Toda palavra guarda uma cilada
E qualquer gesto é o fim no seu início...
Por Luciano Melo