Domingo, Julho 31, 2005

Sobre Teresina, ainda que Teresina não mereça a maioria de seus grandes artistas

Em seguida, transcrevemos um belo texto do poeta Paulo Machado.
Lúcido como poucos, Paulo Machado tem um conceito artístico assimilado ao longo dos anos, por isso, merece respeito.
Segue uma linha de artistas bem rara hoje em dia: o poeta que é poeta, e não um professor de literatura que achava bonito o que ensinava aos alunos e que resolveu escrever. Não. Paulo Machado é um intelectual como Gullar e tantos outros.
Também historiador "A cidade invisível" é um belo exemplo da arte enquanto memória e invenção, uma das características marcantes de Paulo Machado.
Infelizmente, por assumir - por assim dizer - a liderança da geração pós/69 foi alvo de uma saraivada de críticas de alguns deslumbrados e até companheiros de geração. Tais manifestações, em verdade, apenas evidenciam o óbvio: Teresina não merece alguns a maioria de seus grandes artistas.

A CIDADE INVISÍVEL
Paulo Machado*
O planejamento do espaço físico escolhido por José Antônio Saraiva, na segunda metade do século XIX, para a construção da cidade de Teresina, foi estrategicamente definido em uma área plana, entre trechos dos rios Parnaíba e Poty, por razões geopolíticas.
O eixo de crescimento do espaço urbano foi orientado na direção norte-sul, a partir do primeiro núcleo populacional localizado na foz do rio Poty, com previsão de expansão gradativa e contínua para o sul. A zona rural do município foi originariamente planejada para se estender pelas regiões Nordeste, Leste e Sudeste, a partir do limite natural do referido rio. Esta estratégia de planejamento garantiria o equilíbrio climático do espaço urbano, projetado para desenvolver-se entre os dois cursos d'água, em decorrência da preservação da vegetação nativa.
A cidade foi planejada por Saraiva para desempenhar economicamente a função de pólo principal de todas as atividades mercantis do Meio-Norte. O planejador criou um modelo de cidade para ser o centro de convergência dos fluxos de produção dos pólos agrícolas e agroindustriais das regiões Sudeste, Sudoeste e Sul da Província do Piauí, escoado através de ramais ferroviários que abasteceriam um movimentado porto fluvial, a ser construído no rio Parnaíba, dentro do perímetro urbano do município. Essa atividade portuária fluvial funcionaria como elo intermediário da cadeia de exportação, a ser concluída pelos portos marítimos das províncias da região Nordeste.
Essa análise realista das circunstâncias políticas e econômicas determinantes do planejamento urbanístico de Teresina e a compreensão de suas conseqüências foram estudadas por Abdias da Costa Neves, político teresinense que defendeu, com competência e coragem, a tese de interligação das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste por troncos ferroviários convergentes para a cidade de Teresina. Isto se deu quando Abdias exerceu, durante a República Velha, o mandato de senador da República, eleito pelo povo piauiense.
Entretanto, a partir da década de 50 do século XX, os incentivos às atividades do setor imobiliário, viabilizados pelos prefeitos e vereadores de Teresina, passaram a ser motivados por grupos econômicos originários da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará e Maranhão e de grupos políticos com bases eleitorais nos municípios piauienses das regiões Sudeste, Sudoeste e Norte, que definiram como princípio fundamental a partilha de poder, com a finalidade de garantir a preservação dos seus interesses. Assim, o plano de desenvolvimento urbanístico original foi substituído, para que as pretensões desses grupos econômicos e políticos fossem satisfeitas. Por essas razões, definiram, para o eixo de crescimento do espaço urbano, a orientação oeste-leste, com a ampliação progressiva do perímetro urbano para além do rio Poty.
Esse novo eixo de crescimento do espaço urbano provocou o comprometimento irreversível da vegetação nativa e dos componentes da bacia hidrográfica do referido rio. Com efeito, as lagoas e riachos que garantiam o equilíbrio dos diversos ecossistemas, durante os primeiros cem anos, desapareceram sob a fúria dos especuladores, que realizaram os grandes loteamentos das zonas Leste e Sudeste. Tais danos ambientais não foram previstos pelos administradores municipais e pelos especuladores imobiliários, mas os seus custos estão sendo pagos por todos os habitantes da cidade, neste início de século XXI.
É que o processo desastroso, que resultou da progressiva ampliação do perímetro urbano orientada para as regiões Leste e Sudeste, só pode ser compreendido se o analista detiver conhecimento histórico e coragem de encarar os fatos políticos e econômicos, ocorridos nos últimos 40 anos, sem se submeter às normas de interpretação definidas pelos beneficiários diretos ou indiretos da partilha do poder. Caso não satisfaça a estes requisitos, concluirá que o processo de desenvolvimento urbano está sendo cumprido, em todas as suas etapas, conforme o planejamento elaborado por técnicos competentes e honestos. Ufanisticamente, levantará dados estatísticos referentes às cifras do capital investido na construção civil e nas instalações das estruturas de prestação de serviços públicos e, orgulhosamente, elogiará as realizações dos carnavais fora de época, que geram milhares de empregos temporários e são fontes sazonais de renda, como inquestionáveis indicadores de progresso social. Excluirá também, sem dúvida, de sua análise, o degradante processo de favelização disseminado por todas as zonas do espaço urbano, fato social arraigado nos conglomerados de cortiços, onde milhares de miseráveis são politicamente manipulados sob a forma de organismos associativos, na verdade instrumentos de poder benéficos às facções políticas de todas as cores.
É óbvio que os administradores municipais e os seus consultores e sequazes sabem que as estruturas de prestação de serviços públicos existentes no município de Teresina estão em acelerado processo de degradação e que os vínculos das relações sociais definidores das normas de conduta dos habitantes da cidade se acham em acentuado desgaste. Por isso, insistem nas freqüentes campanhas publicitárias que anunciam as surpreendentes metas alcançadas nas execuções das políticas públicas de habitação, saúde e educação, alardeados em coloridíssimos painéis. Ocorre que todos os administradores públicos da cidade têm conduta ilibada e seus argumentos políticos estão corretíssimos.
Equivocados e insensatos foram José Antônio Saraiva e Abdias da Costa Neves, que planejaram uma cidade caracterizada por um espaço físico racionalmente estabelecido para ampliações horizontais sucessivas e crescentes, com eixo central orientado de norte para sul, sem agressões aos ecossistemas definidos pelos cursos dos rios Parnaíba e Poty. Teresina foi, pois, projetada como cidade economicamente dinâmica, que seria referência para as regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, porque vocacionada a ser o pólo de atividades mercantis do Meio-Norte, com um ativo porto fluvial no rio Parnaíba, para o qual convergiriam os troncos ferroviários para escoamento dos fluxos de produção dos pólos agrícolas e agroindustriais das regiões Norte e Centro-Oeste.
Quem estiver vivo para comemorar o bicentenário da cidade, em 2052, acertará contas políticas e sociais e passará a limpo essa história, como tributo à memória daqueles que, verdadeiramente, e aqui vale a redundância, a planejaram para o futuro.

*Paulo Machado é poeta, pesquisador, advogado e integrante da Geração Pós-69, no âmbito, hoje, do Grupo Pulsar de Cultura.

Segunda-feira, Julho 25, 2005

Sem saber, sabíamos

Este blog é um informativo. Tem caráter meramente divulgatório. Apesar disso, há circusntâncias e/ou estados de espírito que a exceção vale mais que a regra. Portanto, justifica-se Pessoa em meio a boletins e notícias. É o desespero maquiado pelo agradável, não se esqueçam disso. Vivemos tempos reacionários, toscos mesmo!, e tudo que ocorre é previsível. É isso mesmo, tudo ocorre, mas nada acontece.

Poema em Linha Reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criad
as de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fiat não consegue liminar para suspender processo pela morte de Chico Science

Fiat não consegue liminar para suspender processo pela morte de Chico Science
Fonte: STJ - Superior Tribunal de Justiça
A Fiat Automóveis S/A não conseguiu, no Superior Tribunal de Justiça, a liminar que pediu para conceder efeito suspensivo ao recurso especial que interpôs contra o acórdão do Tribunal de Justiça de Pernambuco, que garantiu indenização, por danos materiais e morais, à família do cantor Chico Science. O ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, vice-presidente no exercício da presidência do STJ, negou a medida, por entender não estarem presentes o caráter excepcionalíssimo e o risco de dano iminente e irreparável, imprescindíveis para a concessão da liminar.
A fábrica de automóveis entrou com a medida cautelar, junto à Presidência do STJ, para suspender os efeitos da condenação que a sujeitou ao pagamento de indenização por danos morais e materiais decorrentes do acidente automobilístico que vitimou o cantor Francisco de Assis França, em razão de defeito de fabricação do veículo por ela produzido. Tanto a sentença quanto o acórdão que, por maioria, a manteve, acolheram a ação de indenização movida pela filha do cantor, Louise Tainá Brandão de França, e pelos pais de Chico Science, Francisco Luiz de França e Rita Marques de França, determinando à Fiat o dever de indenizar, pelos danos materiais e morais, a família do cantor falecido, em valor que deverá ser apurado quando da liquidação de sentença.
Ao pedir a liminar, para conceder efeito suspensivo ao recurso especial que interpôs contra a manutenção da sentença, a Fiat alegou que, não havendo qualquer elemento de prova que demonstre os alegados danos sofridos pelos requerentes, deverá ser procedida a liquidação por artigos, uma modalidade de liquidação utilizada quando não é possível definir desde logo o valor da indenização devida. Isso significa, segundo a fabricante de veículos, que, antes mesmo de ser verificado se a sentença condenatória pode surtir seus efeitos, já se estará determinando a imposição do ônus de praticar diversos atos processuais, com evidente prejuízo para a empresa, porque a interposição do recurso especial não suspende o andamento do processo.
Mas, ao negar o pedido da Fiat, o ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira argumentou que a jurisprudência do STJ só admite a concessão de efeito suspensivo a recurso ainda em trâmite no tribunal de origem quando houver caráter excepcionalíssimo, quando incontrastável o direito pleiteado pelo requerente e presente o risco de dano iminente e irreparável, o que não se verifica na hipótese. Por isso, negou seguimento ao pedido, por não encontrar caracterizada, no caso, a ocorrência do risco imediato, que autorizaria a concessão da liminar pedida.

Fonte: STJ - Superior Tribunal de Justiça

Os amores de Teresa


Os amores de Teresa

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.
No plano ficcional o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através desses amores vai entrando no mundo adulto.
Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Buquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.
O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).

Sábado, Julho 23, 2005

Nossa cidade

Aviso aos navegantes,

apesar do mês de julho ser férias para a maioria das pessoas, nós, da Associação de Teatro Circo Negro, continuamos trabalhando. E muito. Seja realizando filmes ou preparando
espetáculos, o certo é que estamos permanentemente em atividade.

Confira nossos trabalhos!Atualize-se!Acesse o blog e espalhe a notícia!

Até breve!

Quarta-feira, Julho 13, 2005

Circo Negro

Algumas Reflexões sobre Cultura e Teatro Circo Negro

A Associação de Teatro Circo Negro tem se empenhado para conhecer e participar da construção dessa arte viva e dinâmica da cultura piauiense. Procura, primeiramente, demonstrar que as separações e fronteiras entre as artes no Piauí vêm servindo para construir um muro de desrespeito e segregação das artes – aquela qualificada e de bom gosto e, do outro lado, uma arte menor e ignorada pela maioria. No mesmo sentido defende o princípio que as artes são uma expressão livre da passagem humana pelo tempo: conhecer suas mais variadas manifestações é compreender o próprio homem.
Assim, no ano de 2001, inovou as artes piauienses com um projeto ousado – a Galeria Geração Pós-69. Esta foi uma grande galeria de artes ao céu aberto (Praça Pedro II, todo sábado pela manhã), onde eram apresentados espetáculos teatrais, exposições de artes plásticas, números musicais com artistas da terra, mostras de artesanato local, lançamento de periódicos artísticos (a revista de cultura Pulsar e o jornal de teatro Bastidor – uma publicação sua) e, por fim, uma pequena biblioteca infantil.
No sentido de dar continuidade ao seu trabalho de educação e divulgação das produções artísticas piauienses, criou o projeto PIAUÍ COM ARTE em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses na medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Eram previstas quatro oficinas teatrais, três apresentações de peças em praça pública e a realização de um censo artístico (registro dos artistas – atividades, técnicas, tempo de trabalho, demandas etc.).
O seu princípio norteador era: “não queremos ensinar os piauienses a fazer arte. Contrários a esta postura etnocêntrica, procuramos dialogar com os piauienses a partir da atividade artística”. Todo homem tem algo a dizer sobre as diversas atividades e coisas que o rodeiam. Sua pedagogia, tendo em vista essa verdade, procurava construir com os participantes uma nova sistematização dos nossos saberes e experiências artísticas.
Promoveu mensalmente durante o ano de 2003 o Sarau Geração Pós-69 onde homenageou os seus escritores (Paulo Machado, Airton Sampaio, Rogério Newton, Rubervan du Nascimento, Marleide Lins, William Melo Soares, entre outros) e, ao mesmo tempo, promoveu a crítica literária dos mesmos por meio de palestras. Também mensalmente, desenvolveu o projeto Teatro-Imagem – um outdoor vivo onde buscava-se demonstrar toda a força e polissemia da expressão teatral no Balão das Três Raças (avenida Petrônio Portela).
Hoje essas atividades se multiplicam: montagem de peças teatrais, construção de circuitos alternativos de apresentações, projeto “casca-verde”, produção de documentários, assessoria a movimentos sociais, pesquisas sobre artistas piauienses etc.Assim entendemos nosso teatro: um teatro que não se vê tão somente como teatro, mas como um movimento cultural que agrega possibilidades, discute história, transforma o cotidiano, educa homens, sonha com o presente e que pretende através de ações.

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Novo longa de Walter Lima Jr. leva bossa nova à tela


Novo longa de Walter Lima Jr. leva a bossa nova à tela

MARCELO BARTOLOMEI, Colaboração para a Folha de S.Paulo, do Rio

Num estúdio da zona sul do Rio de Janeiro --palco de momentos históricos da música, quando o prédio de Copacabana foi sede da RCA e da BMG/Ariola--, Glória solta a voz e lidera a gravação de "Mente pra Mim" (Newton Mendonça), acompanhada por piano, violão, baixo e percussão. A cena, filmada no domingo passado, é de ficção, mas se confunde com a realidade no musical "Os Desafinados", o novo longa do cineasta Walter Lima Jr., 66.A repercussão da música brasileira no exterior como movimento da sociedade, simbolizada pela bossa nova, ganha neste ano mais um capítulo na história com um filme que fala da efervescência cultural iniciada nos anos 60, cujos desdobramentos seriam atropelados pelo regime militar e, mais tarde, pela morte de alguns ícones do gênero.Não é, no entanto, um filme biográfico --alguns personagens são baseados na vida real, mas não ganham os nomes que fizeram a história da bossa nova como João Gilberto, Tom Jobim, Roberto Menescal, João Donato ou Sérgio Mendes. Fala de cultura, política e comportamento nos anos 60, passando também pela década de 70 e chegando ao século 21. "É um filme sobre sentimentos e o entusiasmo, uma coisa febril que existia na época", diz o diretor, autor de premiados trabalhos como "A Ostra e o Vento" (1997) e "Menino do Engenho" (1965).Glória, a cantora, é vivida por Cláudia Abreu. Ao seu lado estão Rodrigo Santoro (o pianista Joaquim), Ângelo Paes Leme (o violonista Davi), André Moraes (o baterista Paulo César) e Jair Oliveira (o baixista Geraldo), que formam o quarteto que a acompanha na aventura musical.A escolha do elenco foi um dos dilemas da produção. "Eu pensava em fazer um filme só com músicos, mas eles deveriam ter alguma vivência de atuação. Fiz uma mescla disso, mas nossos atores são muito musicais."A equipe está na quinta das oito semanas de filmagem (uma delas será em Nova York), e o filme deve ficar pronto até o final do ano, a um custo de R$ 7 milhões, com previsão de estréia para o primeiro semestre de 2006, segundo o produtor Flávio Tambellini, 52, da Ravina Filmes.ExperiênciasA Folha visitou o set de "Os Desafinados", onde acompanhou as filmagens durante um dia. Extremamente cuidadoso com a produção, Lima Jr. diz ter vivido experiências como as que estão no roteiro. "Eu sou uma pessoa muito ligada à música. A idéia de fazer um musical é muito antiga", afirma o cineasta. "Este tipo de projeto, que usa valores tão fundamentais e essenciais da nossa cultura, deveria ser mais presente na nossa cinematografia. Sinto falta de filmes com música", diz.O cineasta afirma que não quer fazer de "Os Desafinados" um filme de protesto. "Não tenho mágoa nem ressentimento da ditadura militar. Fui preso, tive um irmão preso, mas vi um pianista, o Francisco Tenório Júnior, que foi preso político, morrer inexplicadamente [oficialmente, o músico é tido como desaparecido]. Quero fazer um filme sem ressentimento da repressão", conta Lima Jr.Um dos personagens, segundo o diretor, será atingido pelo que chama de "alguns erros do regime militar", o que provocará a separação do grupo e repercutirá de maneira catastrófica.O argumento do filme é baseado na história da banda, que, empolgada com a ascensão da música brasileira nos EUA, se inscreve para um concerto no Carnegie Hall. Mesmo não tendo sido selecionado, o grupo vai para Nova York e tenta firmar uma carreira no exterior. Lá, conhece Glória, que se junta à banda. Na cena, que ainda não foi realizada, eles são guiados por acordes tão conhecidos que ecoam pelo Central Park.Real, a cena aconteceu em Veneza, na Itália, em 1997, quando o cineasta caminhava pelas ruas e ouviu uma versão instrumental de "Insensatez". A música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes deve ser incluída na trilha sonora, mas ainda depende de direitos autorais. Mesmo que não entre, músicas-tema da bossa nova como "Desafinado" estarão no filme. "Há também algumas canções "lado B" da época, algumas partituras encontradas e musicadas agora", conta Tambellini.Fonte: 5 de maio de 2005.

Torquato Neto, viva tradução do Tropicalismo

Torquato Neto, viva tradução do Tropicalismo

A reedição da obra completa e de uma biografia de Torquato Neto são ótimos convites para conhecer ou revisitar a obra e a vida do “anjo torto do Tropicalismo”

No final de 2004, foi lançado Torquatália (Editora Rocco), que reúne, em dois volumes (Do Lado de Dentro e Geléia Geral), a obra completa do poeta que, em muitos sentidos, sintetizou o clima cultural do fim dos anos 60 e início dos anos 70, quando o país, e a juventude em particular, vivia prensado entre os horrores da ditadura e os delírios do Tropicalismo.
Trazendo toda a poesia e prosa de Torquato, além de parte de sua correspondência, Torquatália é essencial para quem quer conhecer um poeta que não só trabalhou com quem havia de melhor naqueles anos, como também, mesmo depois de sua morte, continua influenciando a cultura nacional. Basta lembrar que, em 1988, os “Titãs” musicaram seu poema Go Back.
Para completar o mergulho no universo de Torquato, há uma outra leitura possível e necessária. No início do ano, Toninho Vaz lançou Pra Mim Chega! (Editora Casa Amarela), um resgate da vida e obra do poeta. Tomando como título uma frase deixada no bilhete de suicídio do poeta, o livro de Toninho Vaz trança um perfil de um sujeito em que melancolia constante, altas doses de timidez e introspecção se mesclavam com uma personalidade marcada pelo radicalismo, uma postura nitidamente anarquista diante da vida, levada na base dos excessos e da total entrega à paixão.
Uma vida marcada por sucessivas tentativas de suicídio, que culminaram na sua morte no dia 10 de novembro de 1972. Um dia depois de completar 28 anos, despediu-se da mulher, Ana Maria, trancou-se na cozinha, escreveu seu último texto e ligou o gás.
No livro, Toninho Vaz especula se a bissexualidade e uma possível paixão por Caetano estariam entre as razões do suicídio. Hipótese que levou sua ex-mulher a tentar desautorizar a publicação da obra. Independente, contudo, do que o tenha levado a uma morte tão prematura, lembrar de Torquato é lembrar de uma vida curta, mas muito bem vivida.
A alma da geléia tropicalista
Chamado por Toninho Vaz de o “ideólogo do movimento Tropicalista”, Torquato, de fato, talvez tenha sido o sujeito que melhor traduziu o movimento. O Tropicalismo foi uma reedição espontânea e anarquizada da concepção do modernista Oswald de Andrade, que, em seu Manifesto Antropófago (1928), defendia que a única forma de se constituir uma cultura em um país marcado pela colonização era “canibalizando” (ou seja, devorando) a cultura dominante e transformando-a, pelas nossas próprias raízes, em algo novo.
Apropriando-se de elementos da cultura “pop”, que explodia mundo afora, festejando o “desbunde” que revolucionava o comportamento sexual nos anos pós-pílula (anticoncepcional), ainda marcada pela vaga de rebeldia que varrera o mundo, em 1968, mas, no caso brasileiro, cada vez mais presos às amarras da ditadura, que já se transformara em repressão assassina, os jovens tropicalistas tentaram mergulhar numa viagem cultural que re-oxigenasse um país cada vez mais sufocado e sufocante.
Uma tentativa utópica e, por isso mesmo, digna de nota.O anjo torto.
O caráter “antropofágico” da obra de Torquato Neto é um reflexo de sua própria vida. Nele, a idéia de “geléia geral” é um fato. Sua vida e obra são resultados de uma mistura constante de coisas e “gentes” das mais variadas tradições. O poeta não se ateve aos limites das fronteiras regionais ou nacionais, aos limites das atividades “especializadas” ou à distinção entre os meios de expressão.
Nascido em Teresina (PI), estudou em Salvador e conheceu Caetano Veloso e Maria Bethânia. Em 1962, foi para o Rio de Janeiro. Em 1968, acompanhando a leva de artistas que haviam sido exilados ou optaram pelo auto-exílio, Torquato partiu com Ana Maria para Londres, onde ficou até o início de 70. De volta ao Brasil, ligou-se ao chamado Cinema Marginal, com Júlio Bressane (Matou a Família e Foi ao Cinema) e Rogério Sganzerla (O Bandido da Luz Vermelha). Ficou amigo de Ivan Cardoso, que anos depois produziu o documentário Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália, cujo título é baseado na letra de “Let´s play that” (veja ao lado), que Torquato fez inspirado em um poema de Drummond.
Ainda na década de 70, Torquato escreveu para diversas publicações, com destaque para o jornal Última Hora, que, entre 1971 e 1972, publicou a antológica coluna Geléia Geral, cujos textos sobre música, artes plásticas, cinema, poesia e modo de vida tornaram-se a tradução mais viva do movimento Tropicalista. No período mais violento da ditadura, Torquato teve a ousadia de fundar uma série de jornais “alternativos”, como Presença e Navilouca.
Engrossando sua geléia com uma deliciosa sopa de letras, Torquato ainda manteve uma produtiva relação com os poetas concretistas, Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. E trabalhou com o igualmente “antropófago” Hélio Oiticica, artista plástico e performático, que tirou a pintura e a escultura das molduras e pedestais para usá-las no próprio corpo, em seus famosos Parangolés.
O resultado de tudo isso está no conjunto da obra de Torquato. Uma obra digna de quem um dia definiu assim a vida: “É o risco; é estar sempre a perigo, sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela”.
Wilson H. Silva, da redação do Opinião Socialista

Terça-feira, Julho 05, 2005

Sobre o festival de monólogos

Festival de bobagens e pretensão

Um monólogo é uma experiência fantástica para qualquer artista de teatro, desde o iluminador ao diretor. É preciso, por exemplo, que o dramaturgo trabalhe uma idéia simples de modo que evite o recorrente nosmonólogos, a relação direta entre personagem e público. Em sua concepção, o espectador tem o papel do observador 'invisível' do impasse da personagem.
Em verdade, um monólogo não tem qualquer ligação com o naturalismo, realismo ou qualquer coisa que o valha, mas eis o que muitos poetas de botequim esquecem. E tal esquecimento é suficiente para transformar 70% do que se apresenta como monólogo naquilo que o gato esconde debaixo da terra. E haja espetáculo cuja personagem encontra-se numa situação prestes a morrer, a lembrar grandes feitos pessoais, etc.
O fato é o seguinte: gastar esforços com festival de monólogos é bobagem. Os tais 70% já mencionados estão amalgamados com muita vaidade e pretensão, de modo que via de regra "o gênio", responsável pela peça é ator, diretor, dramaturgo, contra-regra. Não há qualquer discussão prévia em torno da obra, há sim, um festival de desmandos cênicos, travestidos de maturidade artística.Mesmo sabendo disso tudo, ainda há quem defenda um festival de monólogos. É como diz o ditado, quem gosta do feio, vive levando sustos.
Em tempo: por que será que nós de teatro somos obrigados a ouvir, nos intervalos desses festivais, confidências de amigos que dizem ter "um texto" bem bacana e que talvez ele transforme em monólogo?
Ítalo Gustavo-Leite

Sexta-feira, Julho 01, 2005

Sabrina Oiticica


Uma palestra ou uma pequena palavra

Gostaria de contar-lhes uma história. Sim. Peço licença a vocês para fugir à regra e não me expor enfaticamente ou com uma retórica cheia de anedotas ou digressões biográficas. Apenas peço, com uma humildade que não é uma das minhas maiores virtudes (devo confessar), que ouçam uma história com uma atenção maior daquela dedicada à sala de aula. Garanto-lhe, desde já, que não será uma perca total de tempo.
Como toda história tida como boa, precisamos de um bom personagem: um ser conflituoso que percorre um tempo de sua vida em buscas constantes. Pois bem, nossa protagonista chama-se Sabrina Oiticica. Seu sobrenome não lhe é próprio. Tomou-o emprestado depois de conhecer um livro sobre a obra do artista plástico Hélio Oiticica. Este, dizem, inovou as artes plásticas brasileiras nas décadas de 60 e 70 com suas instalações, parangolés e outras coisas mais.
O primeiro nome também não é seu. Adorava assistir, quando criança, a um seriado da televisão norte-americana que aqui recebeu o nome de “Sabrina, a feiticeira”. Como toda experiência marcante da infância, batizou-se Sabrina Oiticica. Assim fulgurava seu nome no luminoso da boate Fênix quando fazia sua primeira aparição como transformista.
Sim. Nossa personagem é uma “bicha” ou, como preferirem, um homossexual.
Já que estou fazendo esse esclarecimento, lembro que esta história não relata um mal-sucedido caso de amor tampouco procura trazer para a ficção o relato da vida difícil de um cidadão marginalizado. Esta ficção reflete um convite de boa hora para tratar sobre alguns possíveis interesses de um estudante de turismo naquilo denominado: “produção artística e suas possíveis políticas de apoio cultural”. Desse convite nasceu uma sincera inquietação e, dela, muitas idéias e essa singular narrativa (ponto)
Sabrina Oiticica não teve uma boa estréia, apesar do seu afinco e de sua vontade ingênua de acertar. Durante sua apresentação ouvira um berro forte – “sai daí, viado!”. Seu coração apertou, as mãos tremeram como jamais experimentara, seus pés diminuíram a ponto de perder o equilíbrio várias vezes...
- Oh, dor! Oh, dor! Oh, dor!
Não dormiu naquela noite.
Após cochilar alguns minutos, procurou seu livro de história. Passou os olhos por algumas páginas. Chamou-lhe atenção a fotografia de uma escultura grega – um homem enlaçado nos braços de uma mulher cobertos por uma pequena facha de tecido. Abaixo constava uma nota que esclarecia que aquela escultura era um belo exemplo da arte grega.
Encantou-se com tal imagem. A simetria dos traços, a harmonia das formas, a naturalidade dos corpos desnudados, a ausência de olhares românticos, tudo era novo e surpreendente naquela manhã. Seu primeiro impulso foi inscrever-se no vestibular para o curso de educação artística. Aprender todas as artes conhecidas. Decifrar o enigma das cores, a harmonia dos sons, o desenho dos corpos, os contornos da alma humana. Como tudo lhe pareceu tão possível e pleno!
Levantou-se animada. Arrumou-se e foi receber seu pagamento pelo trabalho da noite não-dormida.
- Você está de parabéns, Sabrina! Seu número foi muito elogiado e gostaria que continuasse apresentando-se na Fênix.
De início recuou, mas, lembrou que precisava estudar, vestibular, universidade, livros, arte. Pela arte seria capaz de fazer tudo. Tudo mesmo, inclusive enfrentar aquele palco quantas vezes fosse necessário. Seria sua forma de catarse. Toda artista precisa de uma provação espiritual.
Historia da arte.
Estética hegeliana.
Shakespeare.
Da Vinci.
Cubismo.
Tudo foi tomado como a mais valiosa das lições. Passou a freqüentar galerias, teatro, cinemas de arte, concertos, livrarias. E nos livros, sim, nos livros, conheceu a verdade:
“O elemento condutor e criador do artista é a intuição, e, como disse certa vez Klee, ‘em última análise a obra de arte é intuição, e a intuição não poderá ser superada’”.
“Uma educação pela pedra: por lições;Para aprender da pedra, freqüentá-la;Captar sua voz inenfática, impessoal(pela de dicção ela começa as aulas).A lição de moral, sua resistência friaAo que flui e a fluir, a ser maleada;A de poética, sua carnadura concreta;A de economia, seu adensar-se compacta:Lições de pedra (de fora para dentro,Cartilha muda), para quem soletrá-la.”
“No Piauí, atualmente, a composição do Conselho Estadual de Cultura é regida pelo art. 230 da Constituição Estadual. Trata-se de uma forma aparentemente democrática, mas não foge ao modelo que possibilita a submissão do colegiado às diretrizes estabelecidas pelo Estado, para a execução de uma política cultural. Nesse sentido, o Conselho Estadual de Cultura, no Piauí, tem mantido um injustificável distanciamento das forças produtivas da sociedade civil e uma comprometedora aproximação dos Poderes Públicos, o que descredencia o órgão da função de representante das legítimas manifestações culturais piauienses e o caracteriza, repita-se, como aparelho de controle ideológico do Estado. Devido a isso, os cidadãos piauienses, mesmo os mais conscientes e razoavelmente informados, não têm conhecimento das realizações do Conselho Estadual de Cultura, porque estas não interferem nos espaços sócio-culturais da comunidade piauiense.”
“A arte, em sua dimensão de autonomia e pelo seu caráter desinteressado, não se acomoda ao sempre dado, projeta novas apreensões de sentidos e, imanentemente, busca estabelecer rupturas em relação às formas acomodadas de percepção, imaginação, entendimento.”
“É certo que a arte se tornou um comércio. Pode sonhar-se sempre com sociedades em que a arte seja apenas arte – cultura, lazer, integração e alienação ao mesmo tempo, no interior de uma dinâmica aparentemente paradoxal. Resta apenas saber se os sonhadores poderiam escapar deste universo capitalista sem ver cair a arte entre as mãos de funcionários sujeitos a valores que são políticos antes de serem sociais...”
“Por que se dá tão pouco espaço para a arte na educação?”
“Arte é texto. É comentário sobre o tempo e a vida, que toma o corpo de uma escritura, tão subjetiva como o próprio alfabeto. Arte é hieroglifo, forma que clama sentido e sensibilidade (...) Por isso, privar-se da arte é também uma forma de analfabetismo. Ao referir-se à privação da leitura, a escritora sul-africana Nadine Gordimer afirma que dela ‘deriva o isolamento de outras formas de cultura, essenciais ao direito humano de desenvolver plenamente o potencial de cada pessoa para a vida’.
”Faltavam dois meses para sua formatura. Imaginou tantas possibilidades: inaugurar uma exposição de arte contemporânea, montar uma exposição itinerante para deslocar-se pelos bairros da periferia, com a participação dos formandos proferindo pequenas palestras, criação de instalações vivas com os próprios formandos durante a solenidade de colação de grau, colar grau no museu de arte moderna, diplomas personalizados com a assinatura de cada formando... Tudo era tão possível, divino, maravilhoso.
Contudo, sua poupança de anos de esforço havia desaparecido pela ação vil e impiedosa de seus governantes em mais uma versão de plano econômico. Como não deixar que suas idéias se reduzissem à condição intangível de mais um sonho?
– Essa é uma das grandes mazelas do artista brasileiro! Desabafou em prantos frente à televisão.
Faltou à boate, afinal de contas, seu grande desejo de ser artista, sua nova oportunidade de vida estava fugindo entre seus dedos. E velou seu projeto terminal a noite inteira. Orava, chorava, lamentava, desesperava ava ava ava.
Quando o barítono da madrugada cantou a primeira vez, o telefone tocou. Não quis atender temendo más notícias. Tocou novamente. Relutou. Mais uma vez tocou.
- Alô.
Sorriu. Sua formatura ocorreria como planejara.E realmente foi inesquecível. Digna de constar nas páginas da história da arte brasileira. Talvez não. Mas na história dos cursos de educação artística não tinha dúvida.
No dia após, acordou cedo. Deveria preparar-se para seu último trabalho como transformista. Depilou-se. Hidratou sua pele. Exercícios de alongamento. Massagens na face. Reviu os vídeos várias vezes. Cantou. Sonhou. Reviu o desenho de todos os movimentos. Respirou a partir dos poros. Desenhou metáforas com seu quadril. Desfilou seus infinitos sorrisos. Seu queixo suspirou como nunca. Cantaralou com seus dedos e mãos. Investigou o tempo com seu repertório de olhares. Gracejou com os ombros como Rita Heyorth. Voou entre pernas e saltos. Murmurou delícias com seus lábios desventurados. Engravidou o espaço com seus giros...
- Não posso me despedir de melhor modo! Finalizou em frente ao espelho com seu azul-mar longo.
Era a primeira parada gay paulista. Sabrina Oiticica vinha à frente num trio elétrico improvisando uma pista de dança expressionista. As luzes brincavam com as cores de seu vestido como o se sol do agosto teresinense quisesse pôr-se inúmeras vezes. Seu sorriso confundia-se com a magia das cores e sons. Seu braço acenava com o magnetismo daquele nosso tirano de bigodinho. Seu busto refletia virtudes nunca antes vistas. Rodopiava como diva...E caiu como um saco de cimento. Um tiro acertara-lhe fatalmente seu peito.
As lembranças de Hélio Oiticica são muitas. Sabrina, a feiticeira, jamais será esquecida por toda uma geração. De Sabrina Oiticica restam apenas algumas fotos perdidas e uma epígrafe mal esculpida:Agora não se fala nadaToda palavra guarda uma ciladaE qualquer gesto é o fim no seu início...
Por Luciano Melo