Terça-feira, Agosto 30, 2005

Arte, pra quê?


"A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica", de Walter Benjamin

Walter Benjamin, em "A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica", exibe a evolução da reprodutibilidade da arte. Abordando as formas de reprodução, como a xilografura e a litografia, desempenhadas por artesãos, mostra que na fotografia o processo de cópia cabia agora ao olho, e não às mãos.
O que não está contido na reprodução é o "aqui e agora" da obra autêntica, banalizando o singular, pois quando uma obra passa a ser multiplicada, sua existência se torna serial e não única.
Essas novas técnicas de reprodução alteram o caráter da obra de arte. Se de alguma forma a obra de arte sempre foi reprodutível, o fato é que a cópia já não é vista como imperfeição ou falsidade. A possibilidade de reproduzir indefinidamente uma obra - processo que começara com a xilogravura e atingira seu ápice com o cinema - torna obsoleta a idéia de cópia.
Aura, uma figura singular, tem seu conceito abalado pela reprodução de imagens (como a fotografia e o cinema). A reprodutibilidade seria o fim da arte aurática, do culto ao objeto único e da autenticidade. A obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser reproduzida.
Como o cinema foi feito para a reprodução, para o coletivo, o impacto sobre o conceito de unicidade da obra é colocado em questão. Para Benjamin, isso é algo positivo, visto que ele afirma que o cinema aumenta a possibilidade de libertação da arte, desmascarando a ideologia elitista.
A mudança pela qual passa a obra de arte faz com que ela se aproxime dos espectadores por conta de seu poder de reprodução. Aumenta seu valor de exposição. A obra de arte perde, assim, sua aura.
A fotografia supera o valor de culto, pois nunca as obras de arte foram tão reprodutíveis como hoje. Se a fotografia e o cinema foram o primeiro abalo na idéia de autenticidade artística, a internet a destrói de vez. Uma obra de arte criada para a rede é infinitamente reproduzível.
Como toda forma de arte conhece épocas críticas, é necessário abordar o movimento dadaísta, que tentava atingir o objetivo de inviabilizar qualquer contemplação pela desvalorização sistemática. Com isso, teria favorecido o aparecimento dos efeitos que o público procura no cinema.

ATCN

Domingo, Agosto 28, 2005

H.Dobal


PIAUÍ COM ARTE
APRESENTA:

“O TEMPO CONSEQUENTE”,
DE H. DOBAL
GRUPO DE TEATRO CIRCO NEGRO


O projeto PIAUÍ COM ARTE nasceu em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses à medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Intencionava conhecer as diversas artes criadas no Piauí a partir das suas identificações, descrições e mostras de seus trabalhos. Assim, seria possível conhecer algumas das matrizes estético-culturais piauienses e, desse modo, entender fundamentos da identidade cultural piauiense.
Caminhavam juntos um projeto de identificação das expressões artísticas piauienses e o conhecimento da identidade do nosso povo. As artes, apesar dos preconceitos, não são banalidades ou futilidades da subjetividade humana; as artes dialogam com o mundo no sentido de sua ressignificação pela ação criativa. Sociedade, cultura e estética andam entrelaçadas na criação artística. O PIAUÍ COM ARTE acredita que pela arte passamos a conhecer um vasto mundo chamado Piauí.
O Teatro CAHUAHAM, grupo de teatro da UESPI, tem procurado conhecer esse mundo piauí. Seus dois primeiros trabalhos revelam sua vontade de conhecer a história, a cultura e a arte piauiense. Em dezembro de 2004, apresentou o espetáculo “Epopéia Leonardina” – uma viagem ao Piauí do século XIX por meio da obra do poeta Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco. Em maio de 2005, estreou o trabalho “Torquato Torto” que buscou entender tanto a estética tropicalista que revolucionou as artes brasileiras na década de 60, como a poética de Torquato Neto que tanto lutou por uma arte que traduzisse o homem em todas suas contradições.
PIAUÍ COM ARTE, na uespi, procurará reunir algumas das expressões artísticas piauienses (sempre às quintas-feiras, às 19:30h, em frente à Prefeitura da UESPI – campus Torquato Neto) no sentido de poder revelar a diversidade de nossas artes, a multiplicidade de nossa cultura piauiense, as contradições de nossa história e os desafios de nosso tempo. Contará com apresentações teatrais, musicais, de dança, com exposições de arte, debates, mostra de filmes etc.
O grupo de teatro Circo Negro abre o PIAUÍ COM ARTE , no próximo 01/09 (primeiro de setembro, às 19:30h, em frente à Prefeitura da UESPI) com o espetáculo “O tempo conseqüente”, do escritor piauiense H. Dobal. A direção é de Chiquinho Pereira e a produção de Luciano Melo. Fazem parte do elenco: José Maria, William Santos, Fátima Silva, Márcia Keslies, Carla Sena, Anne, Cláudia Santos e Luciano Melo. O figurino é assinado por Carla Sena e Luciano Melo. A trilha sonora é dos músicos Severo e Abu. A dramaturgia e o cenário são de Luciano Melo. A iluminação é de José Maria.
Hindemburgo Dobal Teixeira é de Teresina (17 de outubro de 1927). Curso secundário no antigo Liceu. Bacharelou-se em Direito na turma de 1952 da Falcudade de Direito do Piauí, tendo sido o orador. Diretor da Revista Meridiano, figura líder da geração vanguardista, tornou-se um poeta respeitado no Brasil inteiro. Fez concurso para Fiscal do Imposto de Consumo do Ministério da Fazenda; membro do Conselho de Contribuintes e professor da Escola Superior de Legislação Fazendária, em Brasília. No Governo Médici fez parte da comissão que reestruturou todo o sistema tributário nacional. Posteriormente, comissionado pelo Ministério da Fazenda, fez cursos e estágios em Londres e Berlim, sendo um dos mais brilhantes e competentes técnicos em legislação e técnica fazendária, no país. Membro da Academia Brasiliense de Letras.OBRAS: BRAS: O Tempo Consequente (1966); O Dia Sem Presságios (Prêmio Jorge de Lima, 1970); A Viagem Imperfeita (1973); A Província Deserta (1974); A Serra das Confusões (1978); A Cidade Substituída (1978); El Matador (folhetim, 1980); Os Signos e as Siglas (1978); Cantigas de Folhas (1989).
O espetáculo procura apresentar o universo poético de Dobal: a temática do homem e natureza piauienses, as memórias de Campo Maior, a crítica à sociedade piauiense, as referências históricas, Teresina e sua história, personagens e contradições, tudo foi capturado numa encenação forte pautada pela afirmação da identidade cultural piauiense. Assim o figurino é uma combinação de materiais piauienses: couro, palha, frutos, tecido de algodão, rendas etc. O cenário é iconográfico: apresenta um céu de signos piauienses (cangalhas, chocalhos, rede de pescar, rendas, crucifixos, sagrado coração de Jesus, gibão de vaqueiro, cadeira de couro, lamparinas, potes etc.). A música reproduz os ritmos e sons nordestinos; por essa razão foram convidados os músicos Severo e Abu para acompanhar o recital.
PIAUI COM ARTE é uma realização do Grupo de Teatro CAHUAHAM e do Pólo Arte na Escola (UESPI) e conta com o apoio da Pró-reitoria de Extensão da UESPI e da Associação de Teatro Circo Negro.

Segunda-feira, Agosto 22, 2005

Casca-Verde


Para entender o projeto Casca-Verde

Todo processo de emancipação social passa, necessariamente, pela constituição de um ou vários discursos que procurem compreender quem somos, quais nossas necessidades e dificuldades e como construir alternativas para alcançarmos nossos sonhos e projetos.
A multiplicação dos movimentos sociais, nas últimas décadas, tem ressaltado essa tese.A própria noção de emancipação social modificou-se nos últimos tempos: na década de 50, trabalhadores rurais brasileiros consolidaram uma crítica de sua condição de grupo excluído e deram maior consistência nas suas ações político-sociais; na década de 60, mulheres e negros deram largos passos em sua organização e discussão de seus direitos; na década de 70, homossexuais se perceberam como sujeitos de direito e começaram uma longa trajetória de luta.
Os exemplos poderiam se multiplicar, mas, já ficou claro que não existe uma única emancipação social. Diversos grupos e setores da sociedade procuram conscientizar-se e defender seus direitos: índios, ecologistas, lésbicas, mulheres, trabalhadoras rurais, idosos, trabalhadores urbanos, jovens e adolescentes, artistas etc.Nesse contexto se insere a emancipação cultural enquanto é um processo de inclusão social de nossas necessidades e desejos culturais.
Desse universo fazem parte: compreensão da particularidade de sua identidade cultural, a relação de alteridade com as demais expressões culturais, entender os diversos elementos culturais que constituem uma identidade, discutir a tolerância entre as culturas, ser sujeito de um discurso de auto-afirmação cultural, lutar pela auto-estima cultural etc.Essa é a dimensão desse programa de formação de agentes culturais comunitários: sujeitos capazes de dialogarem com a diversidade humana, de fazerem a crítica da cultura de massa e defenderem alternativas afirmadoras de sua identidade cultural local.
Por Luciano Melo

Sexta-feira, Agosto 19, 2005

Os Amores de Teresa


Os Amores de Teresa

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.
Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.No plano ficcional o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através desses amores vai entrando no mundo adulto.
Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Boquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.
O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).

Quarta-feira, Agosto 17, 2005

Sabrina Oiticica




Uma palestra ou uma pequena palavra

Gostaria de contar-lhes uma história. Sim. Peço licença a vocês para fugir à regra e não me expor enfaticamente ou com uma retórica cheia de anedotas ou digressões biográficas. Apenas peço, com uma humildade que não é uma das minhas maiores virtudes (devo confessar), que ouçam uma história com uma atenção maior daquela dedicada à sala de aula. Garanto-lhe, desde já, que não será uma perca total de tempo.
Como toda história tida como boa, precisamos de um bom personagem: um ser conflituoso que percorre um tempo de sua vida em buscas constantes. Pois bem, nossa protagonista chama-se Sabrina Oiticica. Seu sobrenome não lhe é próprio. Tomou-o emprestado depois de conhecer um livro sobre a obra do artista plástico Hélio Oiticica. Este, dizem, inovou as artes plásticas brasileiras nas décadas de 60 e 70 com suas instalações, parangolés e outras coisas mais.
O primeiro nome também não é seu. Adorava assistir, quando criança, a um seriado da televisão norte-americana que aqui recebeu o nome de “Sabrina, a feiticeira”. Como toda experiência marcante da infância, batizou-se Sabrina Oiticica. Assim fulgurava seu nome no luminoso da boate Fênix quando fazia sua primeira aparição como transformista.
Sim. Nossa personagem é uma “bicha” ou, como preferirem, um homossexual.
Já que estou fazendo esse esclarecimento, lembro que esta história não relata um mal-sucedido caso de amor tampouco procura trazer para a ficção o relato da vida difícil de um cidadão marginalizado. Esta ficção reflete um convite de boa hora para tratar sobre alguns possíveis interesses de um estudante de turismo naquilo denominado: “produção artística e suas possíveis políticas de apoio cultural”. Desse convite nasceu uma sincera inquietação e, dela, muitas idéias e essa singular narrativa (ponto)
Sabrina Oiticica não teve uma boa estréia, apesar do seu afinco e de sua vontade ingênua de acertar. Durante sua apresentação ouvira um berro forte – “sai daí, viado!”. Seu coração apertou, as mãos tremeram como jamais experimentara, seus pés diminuíram a ponto de perder o equilíbrio várias vezes...
- Oh, dor! Oh, dor! Oh, dor!
Não dormiu naquela noite.Após cochilar alguns minutos, procurou seu livro de história. Passou os olhos por algumas páginas. Chamou-lhe atenção a fotografia de uma escultura grega – um homem enlaçado nos braços de uma mulher cobertos por uma pequena facha de tecido. Abaixo constava uma nota que esclarecia que aquela escultura era um belo exemplo da arte grega.Encantou-se com tal imagem. A simetria dos traços, a harmonia das formas, a naturalidade dos corpos desnudados, a ausência de olhares românticos, tudo era novo e surpreendente naquela manhã.
Seu primeiro impulso foi inscrever-se no vestibular para o curso de educação artística. Aprender todas as artes conhecidas. Decifrar o enigma das cores, a harmonia dos sons, o desenho dos corpos, os contornos da alma humana. Como tudo lhe pareceu tão possível e pleno!Levantou-se animada. Arrumou-se e foi receber seu pagamento pelo trabalho da noite não-dormida.- Você está de parabéns, Sabrina! Seu número foi muito elogiado e gostaria que continuasse apresentando-se na Fênix.De início recuou, mas, lembrou que precisava estudar, vestibular, universidade, livros, arte. Pela arte seria capaz de fazer tudo. Tudo mesmo, inclusive enfrentar aquele palco quantas vezes fosse necessário. Seria sua forma de catarse. Toda artista precisa de uma provação espiritual.
Historia da arte.
Estética hegeliana.
Shakespeare.
Da Vinci.
Cubismo.
Tudo foi tomado como a mais valiosa das lições. Passou a freqüentar galerias, teatro, cinemas de arte, concertos, livrarias. E nos livros, sim, nos livros, conheceu a verdade:
“O elemento condutor e criador do artista é a intuição, e, como disse certa vez Klee, ‘em última análise a obra de arte é intuição, e a intuição não poderá ser superada’”.
“Uma educação pela pedra: por lições;Para aprender da pedra, freqüentá-la;Captar sua voz inenfática, impessoal(pela de dicção ela começa as aulas).A lição de moral, sua resistência friaAo que flui e a fluir, a ser maleada;A de poética, sua carnadura concreta;A de economia, seu adensar-se compacta:Lições de pedra (de fora para dentro,Cartilha muda), para quem soletrá-la.”
“No Piauí, atualmente, a composição do Conselho Estadual de Cultura é regida pelo art. 230 da Constituição Estadual. Trata-se de uma forma aparentemente democrática, mas não foge ao modelo que possibilita a submissão do colegiado às diretrizes estabelecidas pelo Estado, para a execução de uma política cultural. Nesse sentido, o Conselho Estadual de Cultura, no Piauí, tem mantido um injustificável distanciamento das forças produtivas da sociedade civil e uma comprometedora aproximação dos Poderes Públicos, o que descredencia o órgão da função de representante das legítimas manifestações culturais piauienses e o caracteriza, repita-se, como aparelho de controle ideológico do Estado. Devido a isso, os cidadãos piauienses, mesmo os mais conscientes e razoavelmente informados, não têm conhecimento das realizações do Conselho Estadual de Cultura, porque estas não interferem nos espaços sócio-culturais da comunidade piauiense.”
“A arte, em sua dimensão de autonomia e pelo seu caráter desinteressado, não se acomoda ao sempre dado, projeta novas apreensões de sentidos e, imanentemente, busca estabelecer rupturas em relação às formas acomodadas de percepção, imaginação, entendimento.”
“É certo que a arte se tornou um comércio. Pode sonhar-se sempre com sociedades em que a arte seja apenas arte – cultura, lazer, integração e alienação ao mesmo tempo, no interior de uma dinâmica aparentemente paradoxal. Resta apenas saber se os sonhadores poderiam escapar deste universo capitalista sem ver cair a arte entre as mãos de funcionários sujeitos a valores que são políticos antes de serem sociais...”
“Por que se dá tão pouco espaço para a arte na educação?”
“Arte é texto. É comentário sobre o tempo e a vida, que toma o corpo de uma escritura, tão subjetiva como o próprio alfabeto. Arte é hieroglifo, forma que clama sentido e sensibilidade (...) Por isso, privar-se da arte é também uma forma de analfabetismo. Ao referir-se à privação da leitura, a escritora sul-africana Nadine Gordimer afirma que dela ‘deriva o isolamento de outras formas de cultura, essenciais ao direito humano de desenvolver plenamente o potencial de cada pessoa para a vida’.
”Faltavam dois meses para sua formatura. Imaginou tantas possibilidades: inaugurar uma exposição de arte contemporânea, montar uma exposição itinerante para deslocar-se pelos bairros da periferia, com a participação dos formandos proferindo pequenas palestras, criação de instalações vivas com os próprios formandos durante a solenidade de colação de grau, colar grau no museu de arte moderna, diplomas personalizados com a assinatura de cada formando...
Tudo era tão possível, divino, maravilhoso.Contudo, sua poupança de anos de esforço havia desaparecido pela ação vil e impiedosa de seus governantes em mais uma versão de plano econômico. Como não deixar que suas idéias se reduzissem à condição intangível de mais um sonho?
– Essa é uma das grandes mazelas do artista brasileiro!
Desabafou em prantos frente à televisão.Faltou à boate, afinal de contas, seu grande desejo de ser artista, sua nova oportunidade de vida estava fugindo entre seus dedos. E velou seu projeto terminal a noite inteira. Orava, chorava, lamentava, desesperava ava ava avaQuando o barítono da madrugada cantou a primeira vez, o telefone tocou. Não quis atender temendo más notícias. Tocou novamente. Relutou. Mais uma vez tocou.
- Alô.Sorriu.
Sua formatura ocorreria como planejara.E realmente foi inesquecível. Digna de constar nas páginas da história da arte brasileira. Talvez não. Mas na história dos cursos de educação artística não tinha dúvida.No dia após, acordou cedo. Deveria preparar-se para seu último trabalho como transformista. Depilou-se. Hidratou sua pele. Exercícios de alongamento. Massagens na face. Reviu os vídeos várias vezes. Cantou. Sonhou. Reviu o desenho de todos os movimentos. Respirou a partir dos poros. Desenhou metáforas com seu quadril. Desfilou seus infinitos sorrisos. Seu queixo suspirou como nunca. Cantaralou com seus dedos e mãos. Investigou o tempo com seu repertório de olhares. Gracejou com os ombros como Rita Heyorth. Voou entre pernas e saltos. Murmurou delícias com seus lábios desventurados. Engravidou o espaço com seus giros...
- Não posso me despedir de melhor modo! Finalizou em frente ao espelho com seu azul-mar longo.Era a primeira parada gay paulista. Sabrina Oiticica vinha à frente num trio elétrico improvisando uma pista de dança expressionista.
As luzes brincavam com as cores de seu vestido como o se sol do agosto teresinense quisesse pôr-se inúmeras vezes. Seu sorriso confundia-se com a magia das cores e sons. Seu braço acenava com o magnetismo daquele nosso tirano de bigodinho. Seu busto refletia virtudes nunca antes vistas. Rodopiava como diva...E caiu como um saco de cimento. Um tiro acertara-lhe fatalmente seu peito.As lembranças de Hélio Oiticica são muitas. Sabrina, a feiticeira, jamais será esquecida por toda uma geração.
e Sabrina Oiticica restam apenas algumas fotos perdidas e uma epígrafe mal esculpida:Agora não se fala nadaToda palavra guarda uma ciladaE qualquer gesto é o fim no seu início...
Por Luciano Melo


O Que é Arte?

A arte transcende, atravessa os tempos e se torna algo tão valioso e fantástico que não podemos perceber quanto tempo ela levou para ser formar e adquirir este contexto.
A arte não se apresenta em todas as culturas, entretanto cada cultura possui uma maneira muito específica de criá-la.
A arte é uma manifestação humana criada com a essência e inspiração de seu momento, ultrapassando a história e as sociedades. E isto se deve pelo fato de que sabemos identificá-la e nomeá-la.
A idéia de transcendência da arte é nossa, sem nós ela não existe. O absoluto da arte é relativo à nossa cultura.
A percepção dos que contemplam a arte, o público que é obrigado a entender um objeto artístico, é o mesmo que vai decidir o que é arte e o que não é.
Através de sua concepção de que a arte é aquilo que pode ser conceituado e convencional, intitula-se de antiarte o que fugir desta regra. E mesmo assim não é desmerecedor de contemplação, por provocar "sentimentos" no espectador.
Duchamp, nos mostra um lado negativo dessa contemplação, por deixarmos de ver um objeto com os olhos limpos da percepção artística, a sua finalidade essencial foi esquecida. Quando olhamos uma máscara africana – exemplo dado por Duchamp – não percebemos mais o seu lado fantástico, mágico, para o qual foi confeccionada pelos africanos, nos restringimos a tentar desvendar a sua essência artística.
O que temos nos museus são objetos "secos" que perderam todo o seu contexto e finalidade primeira, a partir do momento que deixaram seus lugares originários, aonde se encontravam inicialmente, pois a princípio foram feitas para um único fim.
Jean Renoir, nos mostra que mesmo com todos os cuidados de restauração e de conservação de uma obra de arte, ela tende a desaparecer, pois os elementos que a compunha inicialmente foram transformados, soterrados por camadas de verniz, cimento, resina e outros artifícios que são usados para se "manter" um objeto artístico, mais uma vez a essência foi modificada.
Em relação a esta idéia, surge uma dúvida, o que realmente temos em nossa frente quando vemos uma obra "recuperada"? Não seria uma nova peça? Pois se analisarmos do ponto de vista que o tempo muda o estado natural de tudo, não teríamos mais a obra inicial e sim uma outra, totalmente diferente da primeira.
Além desse, o mundo da arte convive com um outro problema, talvez mais assustador, a falsificação.
Existiu um professor primário escocês, chamado James MacPherson, Segunda metade do século XVIII, que escreveu os Cantos de Ossian, que influenciaram os artistas mais renomados de várias gerações, mas como estas pessoas se deixaram enganar tão facilmente?
A resposta é simples, os cantos correspondiam aos anseios das pessoas daquela época, ou seja tinha-se o que se queria ver e ouvir, correspondendo as expectativas de todos.
E é através desse acontecimento que concluímos que as falsificações possuem um grande fascínio, pois a habilidade de enganar os mais importantes peritos, merece, de certa forma, nosso respeito.
É difícil encontrarmos um conceito único e concreto para arte, depois de analisarmos vários fatores que a compõe e como tão complexo é resumir todos estes acontecimentos que a envolve. Contudo a arte, por ela mesma, já diz tudo. Não é necessário estudá-la profundamente para entendermos o que uma obra quer dizer, basta apenas ver os olhos do coração, desprovidos de qualquer racionalidade e deixar-se envolver pela emoção.

Associação de Teatro Circo Negro - ATCN

Domingo, Agosto 14, 2005

Teatro em movimento




Teatro em movimento
O Grupo Circo Azul de Teatro , da Associação de Teatro Circo Negro - ATCN -, está em cartaz com o espetáculo "A Exceção e a Regra", de Bertold Brecht, e anuncia para este ano novas montagens, dentre as quais estão "Pedro Mico" de Antônio Callado, "O Marido Extremoso ou O Pai Cuidadoso" de Qorpo Santo, e ainda um Porter-à-Poter", da obra de Artur Azevedo, sendo estes dosi últimos, resultando de oficinas de teatro ministradas pelo Grupo Circo Azul junto à Fundação Vila da Paz, zona sul de Teresina, Estado do Piauí.









Paulo Machado (Paulo Henrique Couto Machado) nasceu em 23.07.1956, em Teresina (PI). Poeta, contista, cronista. Formado em Direito. Defensor Público. Foi classificado em primeiro lugar em vários concursos literários, dentre os quais o concurso de contos "João Pinheiro", promovido pela Fundação Cultural do Piauí e o Concurso de Poesia "Odilo Costa, filho", promovido pela Academia Piauiense de Letras. Bibliografia: Tá Pronto, seu Lobo? (1978); A Paz do Pântano (1982) e Post Card (1992). Participou de várias coletâneas. Foi incluído no livro A Poesia Piauiense no Século XX (1995), de Assis Brasil.






postulado

fazer poemas é fácil
como amordaçar um lobo.


herança

na senador pacheco 1193 há um poema
onde os primos, em volta da mesa,
guardam suas ânsias diante
das pastilhas de hortelã.

e o avô na sala de espera
sonha com o vôo dos pássaros
buscando as canaranas.

(às vezes, de sobrecenho, fala da guerra de 14,
da gripe espanhola)

o tio já não tosse dentro da noite,
arranhando um estranho silêncio
no fim do corredor,
que em muito se assemelha
ao gesto acanhado dos meninos
com suas canecas à espera das cabras.


no verão, da mesma forma que no poema,
não há lodo no muro
e as lagartixas passeiam ao sol.

da mudez das pedras e do vermelho do barro
arrebenta um verso,
como uma cicatriz esquecida.

(nesse poema o difícil
é não ser trágico.)

no quintal, a erva-cidreira
cresce por entre as rachaduras das lajes,
sussurrando boatos de revolta.
na sala de jantar, o perigo
do naufrágio nas tradições de há séculos.

há um poema que rói o tédio,
na senador pacheco, 1193.


Revelação

Os deuses são frágeis, porque eternos e inatingíveis.
Fortes são os homens, porque desvendam enigmas
e subvertem códigos.

Os homens, esplêndida imperfeição, perseguem a história
seguindo o rastro das raças extintas.

Os deuses são orgulhosos de suas proezas:
têm vícios inconfessáveis.

Os homens aprendem lições de pânico:
estão fatigados de mentiras.


A cidade invisível



A cidade invisível
Paulo Machado*

O planejamento do espaço físico escolhido por José Antônio Saraiva, na segunda metade do século XIX, para a construção da cidade de Teresina, foi estrategicamente definido em uma área plana, entre trechos dos rios Parnaíba e Poty, por razões geopolíticas.

O eixo de crescimento do espaço urbano foi orientado na direção norte-sul, a partir do primeiro núcleo populacional localizado na foz do rio Poty, com previsão de expansão gradativa e contínua para o sul. A zona rural do município foi originariamente planejada para se estender pelas regiões Nordeste, Leste e Sudeste, a partir do limite natural do referido rio. Esta estratégia de planejamento garantiria o equilíbrio climático do espaço urbano, projetado para desenvolver-se entre os dois cursos d'água, em decorrência da preservação da vegetação nativa.

A cidade foi planejada por Saraiva para desempenhar economicamente a função de pólo principal de todas as atividades mercantis do Meio-Norte. O planejador criou um modelo de cidade para ser o centro de convergência dos fluxos de produção dos pólos agrícolas e agroindustriais das regiões Sudeste, Sudoeste e Sul da Província do Piauí, escoado através de ramais ferroviários que abasteceriam um movimentado porto fluvial, a ser construído no rio Parnaíba, dentro do perímetro urbano do município. Essa atividade portuária fluvial funcionaria como elo intermediário da cadeia de exportação, a ser concluída pelos portos marítimos das províncias da região Nordeste.

Essa análise realista das circunstâncias políticas e econômicas determinantes do planejamento urbanístico de Teresina e a compreensão de suas conseqüências foram estudadas por Abdias da Costa Neves, político teresinense que defendeu, com competência e coragem, a tese de interligação das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste por troncos ferroviários convergentes para a cidade de Teresina. Isto se deu quando Abdias exerceu, durante a República Velha, o mandato de senador da República, eleito pelo povo piauiense.

Entretanto, a partir da década de 50 do século XX, os incentivos às atividades do setor imobiliário, viabilizados pelos prefeitos e vereadores de Teresina, passaram a ser motivados por grupos econômicos originários da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará e Maranhão e de grupos políticos com bases eleitorais nos municípios piauienses das regiões Sudeste, Sudoeste e Norte, que definiram como princípio fundamental a partilha de poder, com a finalidade de garantir a preservação dos seus interesses. Assim, o plano de desenvolvimento urbanístico original foi substituído, para que as pretensões desses grupos econômicos e políticos fossem satisfeitas. Por essas razões, definiram, para o eixo de crescimento do espaço urbano, a orientação oeste-leste, com a ampliação progressiva do perímetro urbano para além do rio Poty.

Esse novo eixo de crescimento do espaço urbano provocou o comprometimento irreversível da vegetação nativa e dos componentes da bacia hidrográfica do referido rio. Com efeito, as lagoas e riachos que garantiam o equilíbrio dos diversos ecossistemas, durante os primeiros cem anos, desapareceram sob a fúria dos especuladores, que realizaram os grandes loteamentos das zonas Leste e Sudeste. Tais danos ambientais não foram previstos pelos administradores municipais e pelos especuladores imobiliários, mas os seus custos estão sendo pagos por todos os habitantes da cidade, neste início de século XXI.

É que o processo desastroso, que resultou da progressiva ampliação do perímetro urbano orientada para as regiões Leste e Sudeste, só pode ser compreendido se o analista detiver conhecimento histórico e coragem de encarar os fatos políticos e econômicos, ocorridos nos últimos 40 anos, sem se submeter às normas de interpretação definidas pelos beneficiários diretos ou indiretos da partilha do poder. Caso não satisfaça a estes requisitos, concluirá que o processo de desenvolvimento urbano está sendo cumprido, em todas as suas etapas, conforme o planejamento elaborado por técnicos competentes e honestos. Ufanisticamente, levantará dados estatísticos referentes às cifras do capital investido na construção civil e nas instalações das estruturas de prestação de serviços públicos e, orgulhosamente, elogiará as realizações dos carnavais fora de época, que geram milhares de empregos temporários e são fontes sazonais de renda, como inquestionáveis indicadores de progresso social. Excluirá também, sem dúvida, de sua análise, o degradante processo de favelização disseminado por todas as zonas do espaço urbano, fato social arraigado nos conglomerados de cortiços, onde milhares de miseráveis são politicamente manipulados sob a forma de organismos associativos, na verdade instrumentos de poder benéficos às facções políticas de todas as cores.

É óbvio que os administradores municipais e os seus consultores e sequazes sabem que as estruturas de prestação de serviços públicos existentes no município de Teresina estão em acelerado processo de degradação e que os vínculos das relações sociais definidores das normas de conduta dos habitantes da cidade se acham em acentuado desgaste. Por isso, insistem nas freqüentes campanhas publicitárias que anunciam as surpreendentes metas alcançadas nas execuções das políticas públicas de habitação, saúde e educação, alardeados em coloridíssimos painéis. Ocorre que todos os administradores públicos da cidade têm conduta ilibada e seus argumentos políticos estão corretíssimos.

Equivocados e insensatos foram José Antônio Saraiva e Abdias da Costa Neves, que planejaram uma cidade caracterizada por um espaço físico racionalmente estabelecido para ampliações horizontais sucessivas e crescentes, com eixo central orientado de norte para sul, sem agressões aos ecossistemas definidos pelos cursos dos rios Parnaíba e Poty. Teresina foi, pois, projetada como cidade economicamente dinâmica, que seria referência para as regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, porque vocacionada a ser o pólo de atividades mercantis do Meio-Norte, com um ativo porto fluvial no rio Parnaíba, para o qual convergiriam os troncos ferroviários para escoamento dos fluxos de produção dos pólos agrícolas e agroindustriais das regiões Norte e Centro-Oeste.

Quem estiver vivo para comemorar o bicentenário da cidade, em 2052, acertará contas políticas e sociais e passará a limpo essa história, como tributo à memória daqueles que, verdadeiramente, e aqui vale a redundância, a planejaram para o futuro.

*Paulo Machado é poeta, pesquisador, advogado e integrante da Geração Pós-69, no âmbito, hoje, do Grupo Pulsar de Cultura.

Teatro enquanto instrumento de cultura


Teatro enquanto instrumento de cultura
A nova edição do Casca-Verde traz matérias, cujo tema central é o teatro enquanto instrumento de cultura.
Embora estejamos cônscios do caráter superficicativo dos veículos de comunicação em geral, o que se contrapõe ao tema proposto neste número, buscamos conjugar a seletividade de notícias com o norte estético do grupo de modo a fazer um painel minimamente reflexivo de nossas atividades.
Nessa perspectiva, apresentamos matéria onde retratamos o que vem a ser a experiência do "Projeto Casca-Verde", desenvolvido pela Associação de Teatro Circo Negro - ATCN -, e que alias batizou este número.
Tratamos ainda das ações, perspectivas, realizações e conceitos estéticos do grupo Cahuaham - o mais promissor do teatro piauiense. Ressalte-se, por derradeiro,um resumo das atividades do Grupo Circo Azul de Teatro.
O nosso objetivo como artistas é promover discussão: o teatro enquanto instrumento de cultura.
Editorial do segundo número do infromativo Casca-Verde da ATCN.

Sábado, Agosto 13, 2005

Os Amores de Teresa





Os Amores de Teresa
A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.
Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.No plano ficcional o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através desses amores vai entrando no mundo adulto.
Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Boquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.
O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).

Quinta-feira, Agosto 11, 2005

O maior autor dramático brasileiro





Vestido de Noiva - Nelson Rodrigues


(...)
Madame Clessi: Quer falar comigo?
Alaíde (aproximando-se, fascinada): Quero, sim. Queria...
Madame Clessi: Vou botar um disco. (Dirige-se para a invisível vitrola, com Alaíde atrás)
Alaíde: A senhora não morreu?
Madame Clessi: Vou botar um samba. Esse aqui não é muito bom. Mas vai assim mesmo. (Samba surdinando) Está vendo como estou gorda, velha, cheia de varizes e de dinheiro?
Alaíde: Li o seu diário.
Madame Clessi (cética): Leu? Duvido! Onde?
Alaíde (afirmativa): Li, sim. Quero morrer agora mesmo, se não é verdade!
Madame Clessi: Então diga como é que começa. (Clessi fala de costas para Alaíde)
Alaíde (recordando): Quer ver? É assim... (Ligeira pausa) "Ontem, fui com Paulo a Paineiras"... (feliz) É assim que começa.
Madame Clessi (evocativa): Assim mesmo. É.
Alaíde (perturbada): Não sei como a senhora pôde escrever aquilo! Como teve coragem! Eu não tinha!
Madame Clessi (à vontade): Mas não é só aquilo. Tem outras coisas.
Alaíde (excitada): Eu sei. Tem muito mais. Fiquei!... (Inquieta) Meu Deus! Não sei o que é que eu tenho. É uma coisa – não sei. Por que é que eu estou aqui?
Madame Clessi; É a mim que você pergunta?
(...)
Vestido de Noiva, peça teatral de Nelson Rodrigues, foi responsável, segundo Sábato Magaldi, por uma lufada renovadora no teatro brasileiro, quando em 1943, foi levada à cena pelo elenco dos Comediantes com direção de Ziembinski.
Alaíde é a protagonista de Vestido de Noiva. O atropelamento é um desfecho trágico da tensão dos últimos dias da protagonista, e tanto pode ser suicídio como acaso ou assassinato. Em seu delírio e lembranças, reconstrói no subconsciente as injustiças de que se julga vítima e revela seu fascínio pela vida marginal de Madame Clessi.
Vestido de Noiva acabou por dessacralizar a pureza para se tornar a representação de misérias diárias.

Tropicalismo e Torquato


Tropicalismo e Torquato: conhecer para compreender

Desde o início da década de 60, a cultura brasileira passava por uma intensa agitação na busca de engajamento político que começou com os Centros Populares de Cultura (CPC), criados por estudantes que procuravam aproximar a arte das massas.

Na música, as canções de protesto encontraram palco nos grandes festivais organizados pela TV Record de São Paulo, a partir de 1965. Foi em um destes festivais – o III Festival da Música Popular Brasileira, em outubro de 1967 – que surgiu o Tropicalismo, cujas palavras de Gilberto Gil sintetizariam a despretensão inicial de criação de um movimento: “O tropicalismo surgiu mais de uma preocupação entusiasmada pela discussão do novo do que propriamente como um movimento organizado.”

Assim como o cubismo – um dos movimentos das vanguardas européias – o tropicalismo encontrou seu nome por acaso. Gil teria dito: “Na verdade, eu não tinha nada na cabeça a respeito do tropicalismo. Então a imprensa inaugurou aquilo tudo com o nome de tropicalismo.”

Para o que se denominava MMPB (Moderna Música Popular Brasileira) na época, as canções que deflagraram o movimento – Alegria, Alegria, de Caetano Veloso e Domingo no Parque, de Gilberto Gil – eram, no mínimo, inusitadas, provocando ‘estranhamento’ num público consumidor - constituído em sua maioria de universitários - acostumado a canções em que notoriamente se reconhecia uma postura política e participante ou certo lirismo, letras que obedeciam a uma seqüência narrativa lógica, declarações de posição frente à miséria e à violência e arranjos musicais coerentes, comportados e tradicionais.

A irreverência tropicalista estava baseada no rompimento da idéia de que a canção devia se limitar apenas a dois elementos: letra e música. Agora todo um conjunto se mostrava significativo: as letras, quebrando com a estrutura linear do texto; os arranjos musicais, provocando uma mistura de tipos singulares que aproveitavam até ruídos e sons do cotidiano das grandes cidades; a vocalização e a entonação; a apresentação em si no palco; os gestos, a postura, o figurino e o estilo dos integrantes; tudo era relevante para o entendimento da canção que, em um primeiro momento, mostrava-se despretensiosa, sem cunho político e/ou social.

Os tropicalistas também, fazendo uma analogia ao movimento antropofágico, deglutiam toda cultura existente: do arcaico ao moderno, da cultura ao que era considerado contra-cultura, do nacional ao estrangeiro, nada escapava de ser reaproveitado e reelaborado em termos tropicalistas; fornecendo a concretização da chamada geléia-geral.

A intenção deste projeto irreverente era apresentar a realidade existente de uma forma desestruturada e desfocada – como na idéia de arte surrealista, dando a entender que a realidade vivida não passava de uma encenação caótica.

O disco Panis et Circenscis é a suma tropicalista do movimento que integra e atualiza o projeto estético e o exercício de linguagem tropicalistas. Fizeram parte do movimento, além de Caetano e Gil, Torquato Neto, Tom Zé e José Carlos Capinam.

Torquato Neto é, segundo Paulo Roberto Pires “ao mesmo tempo causa e conseqüência do tropicalismo. Participou ativamente do bota abaixo de valores estéticos e políticos promovidos por sua geração, mas deixou os companheiros de viagem quando eles, transformados em arquitetos e engenheiros, planejaram e ergueram para si um status artístico, literário e poético que garantiria por mais de trinta anos sua influência”.

A definição de tropicalismo seria dada por ele, no manifesto denominado Tropicalismo para principiantes, em 1968: “Assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido. Eis o que é.” Negar a participação dele no movimento tropicalista é negar o próprio movimento. Polêmico para alguns e ídolo para outros, ele é do tipo ‘ame-me ou deixe-me’. Prefiro amá-lo, deixando de lado a idéia de alguns que dizem não ter sido ele apreciador de sua terra e acreditando que foi justa e merecida a lei que determinou a mudança do nome Campus Pirajá da UESPI/Teresina para CAMPUS POETA TORQUATO NETO (sem querer desmerecer o crédito e prestígio dos outros tantos poetas e escritores piauienses).

Lia Carvalho, Teatro Cahuaham

Segunda-feira, Agosto 08, 2005

"Tartarugas Podem Voar"


Cena de "Tartarugas Podem Voar"
"Tartarugas Podem Voar" exibe crianças curdas no Iraque
Por Duane Byrge
CHICAGO (Hollywood Reporter) - Crianças mutiladas ganham a vida desarmando minas terrestres que vendem a um intermediário, que, por sua vez, ganha a vida vendendo as minas à ONU. É essa a imagem da luta pela sobrevivência num campo de refugiados curdos pouco antes da invasão americana do Iraque, documentada no filme "Tartarugas Podem Voar", estréia da sexta-feira.

O cineasta Bahman Ghobadi faz um retrato doloroso de uma tribo minúscula profanada pelos seguidores violentos de Saddam Hussein, enquanto aguarda a invasão dos soldados norte-americanos. Mas o filme não é mero folheto político ou um documento descritivo de uma situação distante.

O longa-metragem foi vencedor do Hugo de Prata do Festival Internacional de Cinema de Chicago. O diretor fez também "Tempo de Embebedar Cavalos" e "Exílio no Iraque".
O filme pode atrair um público atento simplesmente por seu tema e pela maneira como reafirma a capacidade humana de sobreviver à crueldade extrema.

O campo de refugiados parece um lugar saído do inferno. Numa paisagem árida e rochosa, as barracas são montadas entre crateras, tanques de guerra destruídos e cartuchos de munição.
Mais estranho ainda é que em meio à imundície e à miséria geral, se vêem peças de equipamento de alta tecnologia.

Destas, a mais importante é a antena parabólica que um menino de 13 anos (Soran Ebrahim) conseguiu no mercado negro. O garoto pensa que, tendo acesso aos noticiários norte-americanos transmitidos por cabo, os moradores do acampamento poderão descobrir o que vai acontecer com eles.

O fato de ele tentar encontrar "a resposta" quanto ao destino deles o eleva a uma posição de poder dentro do campo. Apelidado de Parabólica, ele preenche um vazio de liderança num lugar onde os líderes, que parecem da Idade da Pedra, nem sequer sabem o que são os Estados Unidos ou o que está acontecendo em seu próprio país.

Animadas pela coragem de Parabólica, as crianças do campo conseguem sobreviver desarmando minas terrestres. Muitas delas, como o próprio Parabólica, não têm família nenhuma. Seus pais ou parentes foram assassinados por Saddam Hussein, ou então, como é o caso de uma garota, suas vidas emocionais foram marcadas para sempre pela devastação provocada pelo Exército Republicano.

Embora sejam rodadas com equipamentos mínimos, os visuais de Ghobadi são impressionantes: minas terrestres não detonadas, peças de artilharia danificadas, barracas marcadas pelo vento e ferramentas gastas dão a impressão de ter sido desenterradas de diferentes eras de terrorismo.
O fato de o campo de refugiados ser deste mundo é a parte mais assustadora da história.

Graças à fé infantil de Parabólica nas notícias vindas do céu, que ele acredita que irão salvar a todos eles, as crianças do campo conseguem ganhar forças e resistir para sobreviver por mais um dia.

Por meio de sua engenhoca maluca, Parabólica lhes possibilita a esperança de que alguma coisa mágica possa acontecer algum dia: por exemplo, tartarugas poderão voar, ou, o que seria ainda mais improvável, eles algum dia poderão viver em segurança.
Fonte: UOL cinema

Para entender o projeto Casca-Verde, por Luciano Melo


Luciano Melo, do Circo Negro, interpretando Canções de Cecília Meireles,sob direção de Chiquinho Pereira

Para entender o projeto Casca-Verde

Todo processo de emancipação social passa, necessariamente, pela constituição de um ou vários discursos que procurem compreender quem somos, quais nossas necessidades e dificuldades e como construir alternativas para alcançarmos nossos sonhos e projetos.
A multiplicação dos movimentos sociais, nas últimas décadas, tem ressaltado essa tese.A própria noção de emancipação social modificou-se nos últimos tempos: na década de 50, trabalhadores rurais brasileiros consolidaram uma crítica de sua condição de grupo excluído e deram maior consistência nas suas ações político-sociais; na década de 60, mulheres e negros deram largos passos em sua organização e discussão de seus direitos; na década de 70, homossexuais se perceberam como sujeitos de direito e começaram uma longa trajetória de luta.
Os exemplos poderiam se multiplicar, mas, já ficou claro que não existe uma única emancipação social. Diversos grupos e setores da sociedade procuram conscientizar-se e defender seus direitos: índios, ecologistas, lésbicas, mulheres, trabalhadoras rurais, idosos, trabalhadores urbanos, jovens e adolescentes, artistas etc.Nesse contexto se insere a emancipação cultural enquanto é um processo de inclusão social de nossas necessidades e desejos culturais.
Desse universo fazem parte: compreensão da particularidade de sua identidade cultural, a relação de alteridade com as demais expressões culturais, entender os diversos elementos culturais que constituem uma identidade, discutir a tolerância entre as culturas, ser sujeito de um discurso de auto-afirmação cultural, lutar pela auto-estima cultural etc.Essa é a dimensão desse programa de formação de agentes culturais comunitários: sujeitos capazes de dialogarem com a diversidade humana, de fazerem a crítica da cultura de massa e defenderem alternativas afirmadoras de sua identidade cultural local.
Por Luciano Melo

O mais célebre dentre os melhores: Glauber (III)

O mais célebre dentre os melhores: Glauber (II)

O mais célebre dentre os melhores: Glauber


Glauber
(A esterelidade: aquelas obras encostadas fartamente em nossas artes, onde o autor se castra em exercícios formais que, todavia, não atigem a plena possessão de suas formas. O sonho frustrado da universalização: artistas que não despertaram do ideal estético adolescente. Assim, vemos centenas de quadros nas galerias, empoeirados e esquecidos;livros de contos e poemas; peças teatrais, filmes(que, sobretudo em São Paulo, provocam inclusive falências)...O mundo oficial encarregado das artes gerou exposições carnavalescas em vários festivais e bienais, conferências fabricadas, fórmulas fáceis de sucesso, vários coquetéis em várias partes do mundo, além de alguns monstros oficiais da cultura, acadêmicos de Letras e Artes, júris de pintura e marchas culturais pelo país afora. Monstrosidades universitárias: as famosas revistas literárias, os concursos, os títulos.)

Trecho de um ensaio, Estética da Fome, do grande Glauber Rocha que tanto influência a Associação de Teatro Circo Negro.
É preciso fulminar os nulos. É preciso destruir a estrutura cambaleante, ilusória e nefasta das academias de bairros. É preciso destruir o intelectualismo estéril, as famosas revistas literárias, os famosos concursos, os discursos, os títulos.
Danem-se os acadêmicos de vanguarda, ou danemo-nos!

Filme dirigido por Chiquinho Pereira


Os Amores de Teresa

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.
No plano ficcional o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através desses amores vai entrando no mundo adulto.Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Buquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.
O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).

Dogville


"A tarefa do diretor é recriar a vida: seu movimento, suas contradições, sua dinâmica e seus conflitos. é seu dever revelar qualquer partícula de verdade que ele descobriu – mesmo que nem todos achem esta verdade aceitável. é claro que um artista pode enganar-se; mas até mesmo seus erros, desde que sinceros, são providos de interesse, pois representam a realidade da sua vida interior, as peregrinações e batalhas em que o mundo exterior o arremessou. (e, por acaso, alguém possui a verdade em sua totalidade?) toda a discussão a respeito do que pode ou não ser mostrado só pode ser uma tentativa mesquinha e imoral de distorcer a verdade".
Tarkovski

Domingo, Agosto 07, 2005

Quanto mais conheço o homem mais detesto tanto o homem quanto meu cão

Dogville, o mundo cão
Yara Fernandes, da redação do Opinião Socialista
Mais que uma ousadia na forma cinematográfica, mais que uma crítica à “era Bush”, Dogville, o novo filme do diretor dinamarquense Lars Von Trier, é uma metáfora da sociedade capitalista, de suas instituições e de sua hipocrisia.
Em cartaz em poucos cinemas, mas em breve nas locadoras, é imperdível. As primeiras cenas já produzem um choque na platéia: o filme se passa num palco sem cenários; casas e ruas da fictícia cidade de Dogville são apenas insinuadas por desenhos de fita crepe no chão e poucos objetos são colocados para identificar cômodos. Essa forma estranha, que elimina as paredes, apresenta a vila onde Grace (Nicole Kidman) vai parar, fugindo da polícia e de gângsteres. Ninguém sabe o motivo de sua fuga, nem seu passado.
Nesta vila, vivem figuras humanas simbólicas que a princípio são amáveis com a estrangeira, mas, em poucos dias, transformam essa amabilidade em exploração, exigindo, em troca do favor de escondê-la, que Grace trabalhe mais por menos dinheiro. Da exploração do trabalho da estrangeira, os habitantes partem para sua opressão como mulher em uma impactante cena de estupro. O filme ainda apresenta metáforas de muitos elementos da sociedade, desmascarando-os. O “mocinho” Tom (Paul Bettany) é a melhor representação do Estado. Numa vila sem nenhuma instituição formal, ele controla todos, sutilmente. Os comerciantes da são expostos em sua ganância. Uma família, com mãe, pai e sete filhos descortina as mazelas das relações familiares e da educação. A Igreja possui um sino que conta o ritmo da cidade, mas não tem padre.
A família, a Igreja, a Justiça, o Estado, os bandidos, tudo é alvo de crítica. A principal metáfora é a própria cidade. A falta de paredes demonstra a maior das verdades: toda a sordidez é exposta, mas todo mundo finge que não vê.

Sábado, Agosto 06, 2005

Circo Negro: o mel do melhor


Circo Negro: o mel do melhor

Quando não é mais possível aperfeiçoar um processo, é porque chegou a hora de inventar um novo. A Associação de Teatro Circo Negro – ATCN - apresenta mais uma experiência revolucionária: o informativo Casca-Verde.

Trata-se de mais uma empreitada da ATCN, cujo objetivo é divulgar suas ações de maneira rápida e eficaz. A novidade do Casca-Verde está na forma de prover informações. Além da versão impressa, o informativo conta com o modelo eletrônico (http://casca-verde.blogspot.com/). Afinal, o mundo está falando em outra linguagem.

A interligação inédita entre processos de informação reforçará as concepções estéticas da ATCN, quais sejam, a oposição ao proselitismo político nas artes, à canalhice de artistas desprovidos de arte que tomam de assalto as instituições públicas - tolhendo iniciativas não-currioláveis.Casca-Verde inspira-se na banana do tipo casca-verde, isso mesmo!, aquela cujo desinteresse comercial fazia com que feirantes dessem-na aos porcos. Entretanto, o que era somente lavagem, hoje pode ser encontrada também numa variação maior, mais refinada.

Esse é a objetivo do Casca-Verde: trazer do limbo aquilo que a sociedade ignora, quando não, subestima: a arte, o teatro. Transformar cascalhos em diamantes, segundo o Dr. Machado.Nesta edição Casca-Verde saúda o surgimento do Cahuaham – um grupo de teatro da Universidade Estadual do Piauí – UESPI -, que é capitaneado pelo ator e diretor Luciano Melo, de notória competência artística, que assina o texto-manifesto do grupo, presente neste número.

Além disso, Casca-Verde apresenta matéria que faz um balanço das atividades da ATCN, enfatizando o fazer teatral enquanto instrumento de cultura. Comenta-se também a realização do primeiro filme da Associação: “Os Amores de Teresa”, com direção de Chiquinho Pereira. Por fim, Casca-Verde atualiza os leitores através de uma coluna onde constam as datas dos espetáculos da ATCN, dentre outras informações.

O Casca-Verde oferece ótimo retorno aos seus leitores: acesso a matérias atemporais sobre cultura (teatro, em especial), o pensamento crítico sobre os temas abordados, contato com textos de autores pesquisados pela ATCN - e o que é melhor: de forma gratuita.

E como Casca-Verde rechaça a mediocridade em sentido amplo, compete a vocês, leitores, avaliarem o desempenho do informativo. Aviso aos navegantes: o que é bom merece respeito: nada é bom por acaso.Casca-Verde é um pouco do muito que é a Associação de Teatro Circo Negro. É o mel do melhor, como diria Waly Salomão.

Terça-feira, Agosto 02, 2005

Para entender o projeto casca-verde

Para entender o projeto Casca-Verde

Todo processo de emancipação social passa, necessariamente, pela constituição de um ou vários discursos que procurem compreender quem somos, quais nossas necessidades e dificuldades e como construir alternativas para alcançarmos nossos sonhos e projetos. A multiplicação dos movimentos sociais, nas últimas décadas, tem ressaltado essa tese.
A própria noção de emancipação social modificou-se nos últimos tempos: na década de 50, trabalhadores rurais brasileiros consolidaram uma crítica de sua condição de grupo excluído e deram maior consistência nas suas ações político-sociais; na década de 60, mulheres e negros deram largos passos em sua organização e discussão de seus direitos; na década de 70, homossexuais se perceberam como sujeitos de direito e começaram uma longa trajetória de luta.Os exemplos poderiam se multiplicar, mas, já ficou claro que não existe uma única emancipação social. Diversos grupos e setores da sociedade procuram conscientizar-se e defender seus direitos: índios, ecologistas, lésbicas, mulheres, trabalhadoras rurais, idosos, trabalhadores urbanos, jovens e adolescentes, artistas etc.
Nesse contexto se insere a emancipação cultural enquanto é um processo de inclusão social de nossas necessidades e desejos culturais. Desse universo fazem parte: compreensão da particularidade de sua identidade cultural, a relação de alteridade com as demais expressões culturais, entender os diversos elementos culturais que constituem uma identidade, discutir a tolerância entre as culturas, ser sujeito de um discurso de auto-afirmação cultural, lutar pela auto-estima cultural etc.Essa é a dimensão desse programa de formação de agentes culturais comunitários: sujeitos capazes de dialogarem com a diversidade humana, de fazerem a crítica da cultura de massa e defenderem alternativas afirmadoras de sua identidade cultural local.
Por Luciano Melo

Segunda-feira, Agosto 01, 2005

Tartarugas podem voar

Tartarugas podem voar
A produção cinematográfica da Associação de Teatro Circo Negro


A Associação de Teatro Circo tem previsto para este ano o lançamento de pelo menos mais dois filmes produzidos inteiramente no Piauí, com recursos próprios.

OS AMORES DE TERESA já amplamente divulgado na mídia está em fase final de elaboração, enquanto a outra película está sendo filmada.

Com atores treinados nos grupos da própria Associação, as duas montagens cinematográficas evidenciam que apesar do estatismo do Estado do ponto de vista cultural, bem como de boa parte do segmento dito literário desta terra, é possível realizar um trabalho consequente, mesmo que existam grupos que de tempos tempos cantem a mesma litania de velhos: "NÃO VAI DAR CERTO, NÃO VAIO DAR CERTO.

Ao que parece, tal qual o título de um certo filme do Oridente(Irã/Iraque), as grandes realções contam sempre com o imponderável:Tartarugas podem voar.