Sexta-feira, Setembro 30, 2005

Circo Negro na UESPI

Circo Negro na UESPI

A ação persistente e corajosa de homens que amam as artes e o Piauí deu nova cria – o teatro cahuaham. Trata-se um grupo de teatro que conta com a participação de alunos da universidade estadual e da comunidade teresinense. O mesmo almeja trabalhar em três dimensões: primeiramente, desenvolver um trabalho estético (pesquisa de linguagens e montagem de espetáculos); segundo, formação de atores; terceiro e principal, pesquisar a identidade cultural piauiense.
Assim define seu diretor geral, o também professor Luciano Melo: “acredito que a arte pode e deve buscar um meta-sentido e não simplesmente a criação artística e descoberta de novas técnicas: pesquisar e afirmar a identidade cultural de nosso povo. Essa arte deve estar a serviço da construção histórica da sociedade piauiense assim como o teatro grego antigo. Por outro lado, as artes cênicas podem sintetizar as preocupações dos homens e de seu tempo à maneira de Brecht”.
Como bem descrita pelo poeta piauiense Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, a impávida ave “cauhaham” enfrenta cascavéis e as esmaga pela cabeça e o teatro cahuaham pretende enfrentar a ignorância e o desafio estético para construir uma arte que ame honestamente nosso povo e nossa terra. Como um bando de “cahuahams” que, se forças unidas para atacar o inimigo ainda não possuem, bradam e esbravejam até que a coragem e o grupo seja o bastante, o teatro cahuaham é, por essência, uma arte do coletivo piauiense.Dessa maneira, a condução de seus trabalhos de pesquisa e criação parte do envolvimento de todos os seus membros: pesquisas são feitas, seminários são ministrados, palestrantes convidados, aprendizagem de técnicas de interpretação etc. O artista de teatro é percebido como homem histórico, estético, cultural e político. A prática criteriosa da formação continuada é essencial na construção desse teatro onde o homem coletivo é sua razão e não o pequeno e frágil e fugaz homem narcísico.
Não houve seleção para definir os atores de seu elenco. O próprio trabalho de formação seleciona naturalmente os seus participantes, pois, contrariando a visão ingênua ou tacanha, teatro é arte, logo, trabalho árduo de estudo e criação. Assim, o grupo está sempre aberto para a participação de novos membros, estudantes ou não da UESPI.
E o primeiro trabalho do teatro cahuaham busca reconstruir a memória de um ilustre desconhecido da historiografia oficial piauiense – o poeta, cientista e revolucionário Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco. Nascido em 1789 e falecido na fazenda Barro Vermelho, 1874.“Liderou a Marcha Popular Pró-independência que resultou na Batalha Campal do Jenipapo, em 13 de março de 1823. Foi preso, processado e condenado à pena de prisão perpétua, para cumprimento em Lisboa-Portugal. Principais obra poéticas publicadas: O Ímpio Confundido (1835...); O Santíssimo Milagre (editado em duas versões, uma erudita e outra popular – 1839); A Criação Universal (1856), que constituem a tríade épica da Literatura Brasileira de Expressão Piauiense” (Revista Pulsar, 2002-2003, p. 19).

Domingo, Setembro 25, 2005

Cultura!


Algumas Reflexões sobre Cultura e Teatro Circo Negro

A Associação de Teatro Circo Negro tem se empenhado para conhecer e participar da construção dessa arte viva e dinâmica da cultura piauiense. Procura, primeiramente, demonstrar que as separações e fronteiras entre as artes no Piauí vêm servindo para construir um muro de desrespeito e segregação das artes – aquela qualificada e de bom gosto e, do outro lado, uma arte menor e ignorada pela maioria. No mesmo sentido defende o princípio que as artes são uma expressão livre da passagem humana pelo tempo: conhecer suas mais variadas manifestações é compreender o próprio homem.
Assim, no ano de 2001, inovou as artes piauienses com um projeto ousado – a Galeria Geração Pós-69. Esta foi uma grande galeria de artes ao céu aberto (Praça Pedro II, todo sábado pela manhã), onde eram apresentados espetáculos teatrais, exposições de artes plásticas, números musicais com artistas da terra, mostras de artesanato local, lançamento de periódicos artísticos (a revista de cultura Pulsar e o jornal de teatro Bastidor – uma publicação sua) e, por fim, uma pequena biblioteca infantil.No sentido de dar continuidade ao seu trabalho de educação e divulgação das produções artísticas piauienses, criou o projeto PIAUÍ COM ARTE em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses na medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Eram previstas quatro oficinas teatrais, três apresentações de peças em praça pública e a realização de um censo artístico (registro dos artistas – atividades, técnicas, tempo de trabalho, demandas etc.).
O seu princípio norteador era: “não queremos ensinar os piauienses a fazer arte. Contrários a esta postura etnocêntrica, procuramos dialogar com os piauienses a partir da atividade artística”. Todo homem tem algo a dizer sobre as diversas atividades e coisas que o rodeiam. Sua pedagogia, tendo em vista essa verdade, procurava construir com os participantes uma nova sistematização dos nossos saberes e experiências artísticas.
Promoveu mensalmente durante o ano de 2003 o Sarau Geração Pós-69 onde homenageou os seus escritores (Paulo Machado, Airton Sampaio, Rogério Newton, Rubervan du Nascimento, Marleide Lins, William Melo Soares, entre outros) e, ao mesmo tempo, promoveu a crítica literária dos mesmos por meio de palestras. Também mensalmente, desenvolveu o projeto Teatro-Imagem – um outdoor vivo onde buscava-se demonstrar toda a força e polissemia da expressão teatral no Balão das Três Raças (avenida Petrônio Portela).
Hoje essas atividades se multiplicam: montagem de peças teatrais, construção de circuitos alternativos de apresentações, projeto “casca-verde”, produção de documentários, assessoria a movimentos sociais, pesquisas sobre artistas piauienses etc.Assim entendemos nosso teatro: um teatro que não se vê tão somente como teatro, mas como um movimento cultural que agrega possibilidades, discute história, transforma o cotidiano, educa homens, sonha com o presente e que pretende através de ações.

Sábado, Setembro 24, 2005

Os Amores de Teresa

Os Amores de Teresa

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.
Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.No plano ficcional o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através desses amores vai entrando no mundo adulto.
Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Buquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.
O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).

Segunda-feira, Setembro 19, 2005

Moore, Katrina, Bush

Michael Moore, Katrina, Bush
O cineasta Michael Moore conhecido pelos documentários “Tiros em Columbine” (2002) sobre a indústria armamentista norte-americana e “Fahrenheit 11 de Setembro” (2004) um ataque explícito ao presidente George W. Bush e a política implantada na guerra do Iraque, está instalado no estado da Lousiana, nos EUA, preparando mais um ataque contra Bush. Aproveitando o desastre provocado pelo furacão Katrina e pela negligência de Bush ao atender as vítimas ele está com toda sua equipe para recolher imagens para um novo filme em que irá tratar da relação da Casa Branca com a questão ambiental.
Moore fechou seu escritório em Nova Iorque e mudou-se com sua equipe para a cidade de Covington no estado da Louisiana. Além de recolher as imagens para o documentário o cineasta está procurando imagens amadoras da catástrofe para comprar e utilizar no filme. Moore utilizou várias imagens amadoras e de noticiários em seus outros filmes principalmente em “Fahrenheit” que tinha imagens do Iraque mesmo sem que ele tivesse ido até lá realizar alguma filmagem.
Outro dos objetivos da viagem de Moore até o foco do desastre foi a de colaborar com o resgate das vítimas do furacão. Ele está realizando as buscas com veteranos das guerras do Iraque e Vietnã. A próxima produção de Michael Moore, “Sicko” (uma gíria que significa doente mental), que deveria ficar pronta no final deste ano sobre a indústria farmacêutica e a fraude dos seguros médicos nos Estados Unidos foi adiada devido aos acontecimentos em Nova Orleans. Não é só Moore que está interessado no furacão Katrina, as editoras e livrarias estão preparando o lançamento de livros-reportagem de repórteres que estão em Nova Orleans acompanhando os efeitos do furacão. A TV norte-americana também está preparando especiais e documentários sobre o Katrina.

Sábado, Setembro 17, 2005

Os Amores de Teresa

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.
Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.No plano ficcional o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através desses amores vai entrando no mundo adulto.
Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Boquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.
O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).

Sábado, Setembro 10, 2005

A morte da Velhinha de Taubaté



Leia uma crônica de Veríssimo sobre a Velhinha de Taubaté


• O grampo da velhinha

Luis Fernando Veríssimo

Como se sabe, existe uma velhinha em Taubaté que é a última pessoa no Brasil que acredita. Ela acredita em anúncio, acredita em nota de esclarecimento, acredita até nos ministros da área econômica. Depois que foi localizada, a velhinha de Taubaté, coitada, não teve mais sossego. Todos os dia batem à sua porta querendo saber que canal ela está olhando, que produto ela está usando e se a explicação do governo sobre o último escândalo foi convincente. Ela sempre diz que foi. Algumas agências de publicidade estão incluindo no seu approach de marketing um ``Velhinha Factor``, ou a questão: isto passa pela velhinha? Muitas entidades públicas e privadas mantêm a velhinha sob constante observação. Fala-se mesmo que existe em Taubaté uma unidade médica em prontidão permanente, exclusivamente para atender a velhinha em caso de mal súbito ou escorregão. Há uma convicção generalizada de que, quando a velhinha se for, tudo desmoronará. A boa saúde da velhinha interessa tanto ao governo quanto à oposição responsável. Se ela morrer - ou deixar de acreditar -, teremos o caos, que não convém ao projeto político de nenhum dos lados. Quando o Tancredo e o Figueiredo se encontrarem e um perguntar como vai a saúde, não estará se referindo nem ao outro, nem ao Aureliano. Estará falando da velhinha de Taubaté. Só a velhinha de Taubaté nos separa das trevas.

Por isto, segundo o Correio Braziliense, o SNI decidiu intensificar sua vigilância sobre a velhinha e um agente disfarçado de funcionário da companhia telefônica bateu à sua porta, há dias. Foi a própria velhinha, um pouco irritada com as constantes interrupções do seu tricô e do seu programa na TV, quem atendeu.

- Quié?

- Vim consertar o telefone.

- Eu não tenho telefone.

O agente pensou com rapidez.

- Vim instalar o telefone e depois consertar.

- Mas eu não comprei telefone nenhum.

- Deve ser presente de alguém.

- Quem me daria um telefone de presente?

- Alguém que está tentando ligar para cá e não consegue.

A velhinha acreditou. Mas pensou um pouco e decidiu:

- Se ele já vem estragado, eu não quero.

E fechou a porta. O agente entrou em contato com seus superiores. Recebeu instruções para adotar o Plano de Contingência B. No dia seguinte bateu à porta da velhinha vestido de mulher e apresentando-se como divulgadora de produtos de beleza. Apesar do bigode e da barba, a velhinha acreditou. Deixou-o entrar e enxotou um gato de uma poltrona para ele sentar.

- Estamos lançando uma linha de grampos para o cabelo e queremos que a senhora seja uma das primeiras a experimentar.

- Mmmm. São grátis?

- Absolutamente grátis. Só há algumas condições. A senhora precisa usá-los o tempo inteiro. Menos no banho, porque se molhar estraga o
transmis... Estraga o grampo.

- E se eu quiser comprar depois de experimentar, posso?

- Pode.

- Quanto custa cada um?

- Dez mil dólares.

- É um pouco salgado...

A velhinha está usando os grampos o tempo inteiro, menos no banho e todas as suas reações estão sendo gravadas e mandadas para Brasília, para análise. Houve um momento de suspense quando a velhinha, em conversa com um gato, expressou algumas dúvidas sobre o caso Capemi. Mas as dúvidas passaram e a velhinha voltou a acreditar na versão oficial. Sua pulsação é firme. Sua digestão é boa. Fora uma pequena artrite, nada ameaça sua saúde. Ainda temos algum tempo antes do caos.



Crônica publicada originalmente na página de Veríssimo no Portal Literal.

O Homem e sua Hora


PIAUÍ COM ARTEAPRESENTA:
“O HOMEM E SUA HORA”
DE MÁRIO FAUSTINO
GRUPO CIRCO AZUL DE TEATRO

O projeto PIAUÍ COM ARTE nasceu em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses à medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Intencionava conhecer as diversas artes criadas no Piauí a partir das suas identificações, descrições e mostras de seus trabalhos. Assim, seria possível conhecer algumas das matrizes estético-culturais piauienses e, desse modo, entender fundamentos da identidade cultural piauiense.Caminhavam juntos um projeto de identificação das expressões artísticas piauienses e o conhecimento da identidade do nosso povo. As artes, apesar dos preconceitos, não são banalidades ou futilidades da subjetividade humana; as artes dialogam com o mundo no sentido de sua ressignificação pela ação criativa. Sociedade, cultura e estética andam entrelaçadas na criação artística. O PIAUÍ COM ARTE acredita que pela arte passamos a conhecer um vasto mundo chamado Piauí.

Terça-feira, Setembro 06, 2005

Teatro enquanto instrumento de cultura


Teatro enquanto instrumento de cultura

A nova edição do Casca-Verde traz matérias, cujo tema central é o teatro enquanto instrumento de cultura.

Embora estejamos cônscios do caráter superficial e simplificativo dos veículos de comunicação em geral, o que se contrapõe ao tema proposto neste número, buscamos conjugar a seletividade de notícias com o norte estético do grupo de modo a fazer um painel minimamente reflexivo de nossas atividades.

Nessa perspectiva, apresentamos matéria onde retratamos o que vem a ser a experiência do "Projeto Casca-Verde", desenvolvido pela Associação de Teatro Circo Negro - ATCN -, e que aliás batizou este número.

Tratamos ainda das ações, perspectivas, realizações e conceitos estéticos do grupo Cahuaham - o mais promissor do teatro piauiense. Ressalte-se, por derradeiro,um resumo das atividades do Grupo Circo Azul de Teatro.

O nosso objetivo como artistas é promover discussão: o teatro enquanto instrumento de cultura.

Editorial do segundo número do infromativo Casca-Verde da ATCN.

Um aparelho de controle idelógico



UM APARELHO DE CONTROLE IDEOLÓGICO
* Paulo Machado
Os agentes públicos responsáveis pela gerência do Estado têm consciência de que uma política cultural conseqüente é o único mecanismo capaz de desencadear transformações radicais no processo de formação das sociedades humanas. Mas os responsáveis pelo gerenciamento administrativo do Brasil, desde a formação do Estado Brasileiro até hoje, foram, sempre, negligentes na elaboração de um plano cultural para a Nação, desdobrado em programas e projetos, aglutinando as expressões culturais da sociedade civil.
No Brasil, nas raríssimas fases históricas em que os administradores públicos definiram metas para um processo de desenvolvimento, quando da elaboração e execução das políticas públicas, a gestação de uma política cultural conseqüente foi sempre relegada à margem dos planejamentos e a ela destinados os resíduos orçamentários. A análise destes fatos histórico-culturais conduz à conclusão de que os detentores dos Poderes Públicos, no Brasil, não desejam transformações radicais no processo civilizatório, que tem sua origem com a formação das elites nacionais, mas exercem, estrategicamente, o controle ideológico sobre as expressões da cultura nacional, através de uma estrutura sistêmica, que compreende órgãos federais, estaduais e municipais de cultura.
Dentre estes órgãos, que funcionam como aparelhos de controle ideológico, os Conselhos Estaduais de Cultura são os mais eficazes, porque, sob a forma de colegiados normativos e consultivos, de caráter permanente, representam instâncias de poder fortalecidas pela credibilidade das expressões culturais locais. As composições mesmas dos Conselhos Estaduais de Cultura resultam de articulações de partidos políticos e das pressões exercidas pelos organismos não-governamentais representativos dos produtores culturais.
No Piauí, atualmente, a composição do Conselho Estadual de Cultura é regida pelo art. 230 da Constituição Estadual. Trata-se de uma forma aparentemente democrática, mas não foge ao modelo que possibilita a submissão do colegiado às diretrizes estabelecidas pelo Estado, para a execução de uma política cultural. Nesse sentido, o Conselho Estadual de Cultura, no Piauí, tem mantido um injustificável distanciamento das forças produtivas da sociedade civil e uma comprometedora aproximação dos Poderes Públicos, o que descredencia o órgão da função de representante das legítimas manifestações culturais piauienses e o caracteriza, repita-se, como aparelho de controle ideológico do Estado. Devido a isso, os cidadãos piauienses, mesmo os mais conscientes e razoavelmente informados, não têm conhecimento das realizações do Conselho Estadual de Cultura, porque estas não interferem nos espaços sócioculturais da comunidade piauiense.
Existe a identidade cultural piauiense e a sua formação é anterior ao corte sóciohistórico formado com a implantação das fazendas-criatório de gado bovino e cavalar, ocorrido no século XVII, fato histórico-cultural que o Conselho Estadual de Cultura parece, infelizmente, desconhecer ou ter esquecido. Daí que o questionamento da identidade cultural piauiense, como tema de seminários participativos, promovidos pelo colegiado, seria uma interferência objetiva e rica em desdobramentos, aos quais as universidades federal e estadual têm, também, obrigação de se integrar.
Afinal, nunca é tarde. E a verdade histórica, como já foi dito, é filha do tempo.

(Teresina, O Dia, Opinião, 01/03/1996, p. 6)

Quinta-feira, Setembro 01, 2005




PIAUÍ COM ARTE
APRESENTA:

“O TEMPO CONSEQUENTE”,
DE H. DOBAL
GRUPO DE TEATRO CIRCO NEGRO


O projeto PIAUÍ COM ARTE nasceu em 2002. Ele objetivava alimentar e reforçar as artes piauienses à medida que favorecesse um diálogo entre as diversas produções artísticas locais. Intencionava conhecer as diversas artes criadas no Piauí a partir das suas identificações, descrições e mostras de seus trabalhos. Assim, seria possível conhecer algumas das matrizes estético-culturais piauienses e, desse modo, entender fundamentos da identidade cultural piauiense.
Caminhavam juntos um projeto de identificação das expressões artísticas piauienses e o conhecimento da identidade do nosso povo. As artes, apesar dos preconceitos, não são banalidades ou futilidades da subjetividade humana; as artes dialogam com o mundo no sentido de sua ressignificação pela ação criativa. Sociedade, cultura e estética andam entrelaçadas na criação artística. O PIAUÍ COM ARTE acredita que pela arte passamos a conhecer um vasto mundo chamado Piauí.
O Teatro CAHUAHAM, grupo de teatro da UESPI, tem procurado conhecer esse mundo piauí. Seus dois primeiros trabalhos revelam sua vontade de conhecer a história, a cultura e a arte piauiense. Em dezembro de 2004, apresentou o espetáculo “Epopéia Leonardina” – uma viagem ao Piauí do século XIX por meio da obra do poeta Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco. Em maio de 2005, estreou o trabalho “Torquato Torto” que buscou entender tanto a estética tropicalista que revolucionou as artes brasileiras na década de 60, como a poética de Torquato Neto que tanto lutou por uma arte que traduzisse o homem em todas suas contradições.
PIAUÍ COM ARTE, na uespi, procurará reunir algumas das expressões artísticas piauienses (sempre às quintas-feiras, às 19:30h, em frente à Prefeitura da UESPI – campus Torquato Neto) no sentido de poder revelar a diversidade de nossas artes, a multiplicidade de nossa cultura piauiense, as contradições de nossa história e os desafios de nosso tempo. Contará com apresentações teatrais, musicais, de dança, com exposições de arte, debates, mostra de filmes etc.
O grupo de teatro Circo Negro abre o PIAUÍ COM ARTE , no próximo 01/09 (primeiro de setembro, às 19:30h, em frente à Prefeitura da UESPI) com o espetáculo “O tempo conseqüente”, do escritor piauiense H. Dobal. A direção é de Chiquinho Pereira e a produção de Luciano Melo. Fazem parte do elenco: José Maria, William Santos, Fátima Silva, Márcia Keslies, Carla Sena, Anne, Cláudia Santos e Luciano Melo. O figurino é assinado por Carla Sena e Luciano Melo. A trilha sonora é dos músicos Severo e Abu. A dramaturgia e o cenário são de Luciano Melo. A iluminação é de José Maria.
Hindemburgo Dobal Teixeira é de Teresina (17 de outubro de 1927). Curso secundário no antigo Liceu. Bacharelou-se em Direito na turma de 1952 da Falcudade de Direito do Piauí, tendo sido o orador. Diretor da Revista Meridiano, figura líder da geração vanguardista, tornou-se um poeta respeitado no Brasil inteiro. Fez concurso para Fiscal do Imposto de Consumo do Ministério da Fazenda; membro do Conselho de Contribuintes e professor da Escola Superior de Legislação Fazendária, em Brasília. No Governo Médici fez parte da comissão que reestruturou todo o sistema tributário nacional. Posteriormente, comissionado pelo Ministério da Fazenda, fez cursos e estágios em Londres e Berlim, sendo um dos mais brilhantes e competentes técnicos em legislação e técnica fazendária, no país. Membro da Academia Brasiliense de Letras.OBRAS: BRAS: O Tempo Consequente (1966); O Dia Sem Presságios (Prêmio Jorge de Lima, 1970); A Viagem Imperfeita (1973); A Província Deserta (1974); A Serra das Confusões (1978); A Cidade Substituída (1978); El Matador (folhetim, 1980); Os Signos e as Siglas (1978); Cantigas de Folhas (1989).
O espetáculo procura apresentar o universo poético de Dobal: a temática do homem e natureza piauienses, as memórias de Campo Maior, a crítica à sociedade piauiense, as referências históricas, Teresina e sua história, personagens e contradições, tudo foi capturado numa encenação forte pautada pela afirmação da identidade cultural piauiense. Assim o figurino é uma combinação de materiais piauienses: couro, palha, frutos, tecido de algodão, rendas etc. O cenário é iconográfico: apresenta um céu de signos piauienses (cangalhas, chocalhos, rede de pescar, rendas, crucifixos, sagrado coração de Jesus, gibão de vaqueiro, cadeira de couro, lamparinas, potes etc.). A música reproduz os ritmos e sons nordestinos; por essa razão foram convidados os músicos Severo e Abu para acompanhar o recital.
PIAUI COM ARTE é uma realização do Grupo de Teatro CAHUAHAM e do Pólo Arte na Escola (UESPI) e conta com o apoio da Pró-reitoria de Extensão da UESPI e da Associação de Teatro Circo Negro.

Cahuaham é Circo Negro na UESPI





Cahuaham é Circo Negro na UESPI

A ação persistente e corajosa de homens que amam as artes e o Piauí deu nova cria – o teatro cahuaham. Trata-se um grupo de teatro que conta com a participação de alunos da universidade estadual e da comunidade teresinense. O mesmo almeja trabalhar em três dimensões: primeiramente, desenvolver um trabalho estético (pesquisa de linguagens e montagem de espetáculos); segundo, formação de atores; terceiro e principal, pesquisar a identidade cultural piauiense.

Assim define seu diretor geral, o também professor Luciano Melo: “acredito que a arte pode e deve buscar um meta-sentido e não simplesmente a criação artística e descoberta de novas técnicas: pesquisar e afirmar a identidade cultural de nosso povo. Essa arte deve estar a serviço da construção histórica da sociedade piauiense assim como o teatro grego antigo. Por outro lado, as artes cênicas podem sintetizar as preocupações dos homens e de seu tempo à maneira de Brecht”.

Como bem descrita pelo poeta piauiense Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, a impávida ave “cauhaham” enfrenta cascavéis e as esmaga pela cabeça e o teatro cahuaham pretende enfrentar a ignorância e o desafio estético para construir uma arte que ame honestamente nosso povo e nossa terra. Como um bando de “cahuahams” que, se forças unidas para atacar o inimigo ainda não possuem, bradam e esbravejam até que a coragem e o grupo seja o bastante, o teatro cahuaham é, por essência, uma arte do coletivo piauiense.
Dessa maneira, a condução de seus trabalhos de pesquisa e criação parte do envolvimento de todos os seus membros: pesquisas são feitas, seminários são ministrados, palestrantes convidados, aprendizagem de técnicas de interpretação etc. O artista de teatro é percebido como homem histórico, estético, cultural e político. A prática criteriosa da formação continuada é essencial na construção desse teatro onde o homem coletivo é sua razão e não o pequeno e frágil e fugaz homem narcísico.

Não houve seleção para definir os atores de seu elenco. O próprio trabalho de formação seleciona naturalmente os seus participantes, pois, contrariando a visão ingênua ou tacanha, teatro é arte, logo, trabalho árduo de estudo e criação. Assim, o grupo está sempre aberto para a participação de novos membros, estudantes ou não da UESPI.

E o primeiro trabalho do teatro cahuaham busca reconstruir a memória de um ilustre desconhecido da historiografia oficial piauiense – o poeta, cientista e revolucionário Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco. Nascido em 1789 e falecido na fazenda Barro Vermelho, 1874.“Liderou a Marcha Popular Pró-independência que resultou na Batalha Campal do Jenipapo, em 13 de março de 1823. Foi preso, processado e condenado à pena de prisão perpétua, para cumprimento em Lisboa-Portugal. Principais obra poéticas publicadas: O Ímpio Confundido (1835...); O Santíssimo Milagre (editado em duas versões, uma erudita e outra popular – 1839); A Criação Universal (1856), que constituem a tríade épica da Literatura Brasileira de Expressão Piauiense” (Revista Pulsar, 2002-2003, p. 19).

Por que sou tão sábio?







ECCE HOMO

PRÓLOGO

Não pretendo erigir novos ídolos; basta-me que os antigos aprendem comigo o que significa ter pés de barro. (32)

POR QUE SOU TÃO SÁBIO?

(...) a compaixão tem o nome de virtude somente entre os decadentes. (42-43) Quem cala, falha sempre em finura e gentileza de ânimo; o calar é um pretexto; guardar consigo a injúria é formar necessariamente um péssimo caráter, arruinando de vez o estômago. Todos aqueles que silenciam sofrem do estômago. (43-44) Minha prática de guerra pode ser resumida em quatro proposições. Primeira: eu ataco somente as coisas vitoriosas; ou espero até tal se tornarem. Segunda: ataco somente as coisas as quais não poderia encontrar companheiros onde estou só, onde sou o único a comprometer-me... Nunca articulei um passo que não me comprometesse: isto é (segundo o meu modo de ver), em que não me fosse dado agir corretamente. Terceira: não ataco nunca as pessoas; sirvo-me delas como duma possane lente de aumento com que se pudesse tornar visível algum mal comum mas oculto, difícil de ser pesquisado. Quarta: eu ataco somente as coisas das quais me exclui qualquer antipatia pessoal, para as quais me falta todo e qualquer sedimento de esperanças tristes. (46-47)

POR QUE SOU TÃO INTELIGENTE?

Prezar tanto mais uma coisa fracassada, justamente porque fracassou: a isso se reporta, de modo especial, a minha moral. (50) Deus é uma resposta rude, uma indelicadeza contra nós pensadores; antes, dizendo-se a verdade, não é senão um tosco impecilho contra nós mesmos: não deveis cogitar dele! (50) Desde uma idade absurdamente jovem, aos sete anos, eu sabia que nenhuma palavra humana não seria passível de tocar-me; alguém me viu triste devido a uma palavra huamana? (65) Não basta "suportar" o que é necessário, e muito menos desprezá-lo - todo o idealismo é uma mentira diante da necessidade; deve-se amá-lo... (66)

POR QUE ESCREVO LIVROS TÃO BONS

Eu sou o anti-Cristo por excelência e, portanto, um monstro de importância histórica: em grego, e não somente em grego, sou o Anticristão... (70) É necessário estar-se bem seguros de si mesmos, bem firmes nas pernas, pois do contrário não se pode absolutamente amar. (73) A mulher é infinitamente mais má do que o homem; e é também mais prudente; a bondade, na mulher, já é uma forma de degeneração. (73) O amor - nos meios é a guerra, na essência o ódio mortal dos sexos. (74) Pregar a castidade é um incitamento público a atos contra a natureza. O desprezo da vida sexual, inculcá-lo com o conceito de "impureza", é um verdadeiro delito contra a vida, constitui um veradeiro pecado contra o espírito santo da vida. (74)

O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA

O conhecimento, a afirmação da realidade é para o homem forte uma necessidade; do mesmo modo, para o débil, precisamente, por causa da fraqueza, são necessárias a velhacaria e a fuga diante da verdade, isto é, o "ideal". (78)

Nietzsche, Friedrich. Ecce Homo. Martin Claret, São Paulo - 2000, 125 páginas.