Domingo, Dezembro 25, 2005




herança

na senador pacheco 1193 há um poema
onde os primos, em volta da mesa,
guardam suas ânsias diante
das pastilhas de hortelã.

e o avô na sala de espera
sonha com o vôo dos pássaros
buscando as canaranas.

(às vezes, de sobrecenho, fala da guerra de 14,
da gripe espanhola)

o tio já não tosse dentro da noite,
arranhando um estranho silêncio
no fim do corredor,
que em muito se assemelha
ao gesto acanhado dos meninos
com suas canecas à espera das cabras.


no verão, da mesma forma que no poema,
não há lodo no muro
e as lagartixas passeiam ao sol.

da mudez das pedras e do vermelho do barro
arrebenta um verso,
como uma cicatriz esquecida.

(nesse poema o difícil
é não ser trágico.)

no quintal, a erva-cidreira
cresce por entre as rachaduras das lajes,
sussurrando boatos de revolta.
na sala de jantar, o perigo
do naufrágio nas tradições de há séculos.

há um poema que rói o tédio,
na senador pacheco, 1193.

Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

Arte, pra quê?

"A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica", de Walter Benjamin



Walter Benjamin, em "A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica", exibe a evolução da reprodutibilidade da arte. Abordando as formas de reprodução, como a xilografura e a litografia, desempenhadas por artesãos, mostra que na fotografia o processo de cópia cabia agora ao olho, e não às mãos.
O que não está contido na reprodução é o "aqui e agora" da obra autêntica, banalizando o singular, pois quando uma obra passa a ser multiplicada, sua existência se torna serial e não única.
Essas novas técnicas de reprodução alteram o caráter da obra de arte. Se de alguma forma a obra de arte sempre foi reprodutível, o fato é que a cópia já não é vista como imperfeição ou falsidade. A possibilidade de reproduzir indefinidamente uma obra - processo que começara com a xilogravura e atingira seu ápice com o cinema - torna obsoleta a idéia de cópia.Aura, uma figura singular, tem seu conceito abalado pela reprodução de imagens (como a fotografia e o cinema). A reprodutibilidade seria o fim da arte aurática, do culto ao objeto único e da autenticidade. A obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser reproduzida.
Como o cinema foi feito para a reprodução, para o coletivo, o impacto sobre o conceito de unicidade da obra é colocado em questão. Para Benjamin, isso é algo positivo, visto que ele afirma que o cinema aumenta a possibilidade de libertação da arte, desmascarando a ideologia elitista.A mudança pela qual passa a obra de arte faz com que ela se aproxime dos espectadores por conta de seu poder de reprodução. Aumenta seu valor de exposição. A obra de arte perde, assim, sua aura.A fotografia supera o valor de culto, pois nunca as obras de arte foram tão reprodutíveis como hoje. Se a fotografia e o cinema foram o primeiro abalo na idéia de autenticidade artística, a internet a destrói de vez. Uma obra de arte criada para a rede é infinitamente reproduzível.
Como toda forma de arte conhece épocas críticas, é necessário abordar o movimento dadaísta, que tentava atingir o objetivo de inviabilizar qualquer contemplação pela desvalorização sistemática. Com isso, teria favorecido o aparecimento dos efeitos que o público procura no cinema.
ATCN



O Jardineiro Fiel: Plantando a morte na ÁfricaO Jardineiro Fiel – produção internacional do diretor brasileiro Fernando Meirelles, que foi indicado a três Globo de Ouro, nos Estados Unidos -- é um retrato dramático da tragédia em que o capitalismo mergulhou a África.

Na terça-feira, dia 13 de dezembro, a Associação dos Críticos de Cinema da Imprensa Estrangeira nos EUA divulgou a lista dos indicados ao Globo de Ouro incluindo três citações ao filme de O jardineiro fiel, a primeira produção internacional de Fernando Meirelles (diretor do excelente Domésticas e do festejado Cidade de Deus). O filme irá concorrer aos prêmios de melhor diretor, melhor drama e melhor atriz coadjuvante (Rachel Weisz).Considerado uma antecipação da lista do Oscar, o Globo de Ouro é conhecido por valorizar mais a arte cinematográfica do que sua indústria, como é o caso da premiação de Hollywood, e este ano apostou nas produções mais independentes e “ousadas”. Dois dos filmes com mais indicações (7) foram Brokeback Mountain, uma história de amor gay entre dois cowboys, e Good Night, and Good Luck (4), o primeiro filme dirigido pelo ator George Clooney, ambientado no final do período da “caça às bruxas” (ou seja, comunistas, homossexuais e afins, na década de 50, nos Estados Unidos). Premiações à parte, o filme de Meirelles, em cartaz nacional, é excelente e, realmente, precisa ser visto. Baseado em um romance de John le Carré, a história, a princípio, gira em torno do drama de um diplomata inglês (Ralph Fiennes) que se depara com o brutal assassinato de sua esposa (Rachel Weisz), no Quênia, no continente africano. Abalado e intrigado pelo fato de que o assassinato é creditado a um crime passional envolvendo dois supostos amantes de sua mulher, o diplomata parte para uma investigação que acaba descortinando uma rede de corrupção, vultuosos lucros e morte, movimentada pela indústria farmacêutica internacional, com o apoio ou a conivência de governos corruptos, do imperialismo e de entidades “humanitárias” (das ONG’s aos órgãos da ONU). Dotado de uma beleza e um cuidado técnico impressionantes – particularmente devido ao maravilhoso trabalho de fotografia do também brasileiro César Charlone (igualmente responsável pelos impressionantes tons e impactantes imagens de Cidade de Deus) e por uma –, O jardineiro fiel também é um potente retrato do local reservado pelo imperialismo à África e seu povo: o da miséria, o da exploração ilimitada e o do sofrimento e da morte provocados pela ganância capitalista.A conspiração é globalO subtítulo é uma referência à frase que pipoca incessantemente no site oficial do filme, na Internet e serve perfeitamente para descrever o “clima” criado. Narrado sem muita preocupação com a linearidade temporal, o filme transcorre como um misto de história de amor e suspense, cheio de lances envolvendo espionagem, traições e armadilhas, típicos do gênero baseado nas chamadas “teorias da conspiração”. O problema, contudo, é que, neste caso, a conspiração é “real”. Dentro e fora das telas. No filme, Tessa, a mulher do diplomata, é uma apaixonada e idealista ativista que descobre que uma grande multinacional da indústria farmacêutica está “testando” seus produtos na população africana antes sequer de conhecer seus possíveis efeitos colaterais. Ou melhor, sabendo muito bem quais serão as conseqüências: muitos miseráveis “terão” que morrer antes que o remédio possa ser liberado para ser consumido (a um alto custo) no Primeiro Mundo.Tragada – juntamente com um médico africano – para o centro da asquerosa rede que alimenta e, ao mesmo tempo, omite o lucrativo e criminoso negócio, Tessa é eliminada numa conspiração que envolve gente de pelo menos três países e das mais diferentes esferas do poder.
No mundo real, desde a década de 50, milhares de denúncias e vítimas já foram feitas em praticamente todo o Terceiro Mundo. No Brasil, por exemplo, há o lamentavelmente famoso caso da talidomida, que deu origem a milhares de crianças portadoras de deformações físicas. Mundo afora, já vieram à tona outros milhares de casos, envolvendo desde órgãos internacionais de saúde até os principais governos imperialistas do mundo, passando pela esmagadora maioria dos laboratórios multinacionais, como a Pfizzer, e fundações “humanitárias”, como a de Bill Gates. Levando a cabo a lógica cinicamente expressa por um dos personagens do filme – a de que só estão “matando gente que irá morrer de qualquer forma” – o imperialismo, além de todos os outros males já causados ao continente africano, não hesita em transforma a população de dezenas de países em meras cobaias, a serviço de seus lucros. Uma história que merecia ser contada. E, felizmente, o foi pelas mãos de um diretor que, cada vez mais, tem demonstrado sensibilidade para retratar os mundos que se escondem abaixo e além da pretensa aparência de ética e “boas intenções” do capitalismo globalizado.As coisas feias que se escondem sob as pedras dos jardinsO título do filme é, simultaneamente, uma referência ao “hobby” favorito do diplomata e sua quase total incapacidade, até determinado momento, de ver algo que sua mulher insiste em lhe lembrar: sob as pedras dos jardins, escondem-se larvas e umas tantas outras coisas que ninguém quer ver e as ervas daninhas crescem livremente entre as mais belas flores.Essa podridão que floresce em meio à beleza é brilhantemente levada às telas por Meirelles inclusive na sua forma de filmar – o que, certamente, o qualifica como um grande diretor. A todo momento, o espectador é levado ao engano, é levado a tirar conclusões erradas através cenas e situações que confundem aparência e realidade. A começar pela “aparente” traição de Tessa e de todas evidências associadas a sua morte.
Gente que não é o que diz ser, remédios que não servem para aquilo que são indicados e imagens que confundem sonho e realidade povoam o filme. Assim como, os festivos sons, ritmos e cores da África surgem como um gritante contraste para a miséria, a seca e as doenças que consomem seu povo.Uma situação que, como o próprio filme mostra logo em sua primeira cena, só tem se agravado com a disseminação da Aids, responsável pela contaminação de 26 milhões de africanos (de um total de 40 milhões em todo o mundo) e, certamente, por um crescente número de mortes de homens, mulheres e crianças, utilizados como cobaias. Um número que nunca saberemos ao certo, porque, como o filme também demonstra, além de não existirem registros destes testes, muitos são aqueles que, depois de mortos, desaparecem, enterrados em solo africano por “jardineiros cruéis”: o capitalismo e seus agentes espalhados pelos governos e empresas que enriquecem plantando a morte no continente.

Quarta-feira, Dezembro 07, 2005

Os Amores de Teresa

Os Amores de Teresa

A Associação de Teatro Circo Negro - ATCN - está finalizando mais um trabalho que congrega todos os seus grupos, quais sejam: Grupo Circo Azul, Grupo Circo Negro, Companhia Pedra e Grupo Cahuaham.
Trata-se do filme "Os Amores de Teresa" que busca, através da arte, fixar elementos da cultura na zona rural de Teresina, Estado do Piauí.No plano ficcional o filme aborda de maneira poética os sete amores de Teresa, uma menina de 15 ( quinze ) anos, que através desses amores vai entrando no mundo adulto.
Feito com atores da zona rural de Teresina, localidade Buquinha, preparados a partir de oficinas permanentes de interpretação, bem como outros oficinas artísticas, como cenário e figurino, o filme é uma metáfora, tendo como ponto de partida a cidade de Teresina, tão pobre e ao mesmo tempo aristocrática, jovem e decadente, em suma, uma realização artística que é, antes de tudo, um olhar poético sobre a Teresina que não se vê nas propagandas institucionais.
O trabalho é dirigido por Chiquinho Pereira, ator e diretor de teatro e cinema reconhecido nacionalmente principalmente pelo filme "Cipriano", por interpretações memoráveis como nos espetáculos como "Boca de Ouro", "Médico à Força", História de Muitos Amores" ( de Domingos de Oliveira ) e direções teatrais premiadas como "Balada de Violência" ( de Plínio Marcos ), "O Tempo Consequente" ( baseado na obra de H.Dobal ).